06/03/2015

O chunga chique dos Air



CULTURA
QUINTA-FEIRA, 15 NOV 2001

CRÍTICA MÚSICA

O chunga chique dos Air

Air + Sebastien Tellier
Coliseu dos Recreios, Lisboa
13 de Novembro, 21h
Sala cheia

Mais um bocadinho e pareciam os Yes. Mais uns aninhos e teremos os Air a encher estádios de futebol com o seu rock sinfónico progressivo, dispensado de uma vez por todas o invólucro de plástico dos primeiros discos. Mas foram os Pink Floyd que andaram na boca de todos, nos comentários à primeira e apoteótica apresentação ao vivo em Portugal do grupo francês. “Vieste ver os Pink Floyd?”, perguntava alguém com um sorriso onde se confundiam o desdém e a admiração. “Olha estas malhas iguais às do David Gilmour”, comentava outro. As luzes, os solos intermináveis de guitarra, um baterista marçano e sintetizadores tocados por aprendizes que ainda não chegaram à última página do manual foram, no entanto, suficientes para levar à histeria um Coliseu a abarrotar.
Os Air serão ou não irónicos na relação que mantêm com a música dos dinossauros dos anos 70, a questão está em que para os milhares de jovens que encheram a velha sala das Portas de Santo Antão, o espetáculo esteve no artifício, nas explosões bombásticas que fariam espumar de inveja o grego Vangelis, na transposição para o conceito sinfónico de temas assumidamente pop como “Kelly watch the stars”, “Sexy boy” ou grande parte das canções (excelente, não se nega aos Air o talento de térmitas de estúdio…) do novo álbum, “10000h Hz Legend”.
Dêem-lhes mais um par de anos, outro lote de discos velhos para ouvir e aprender, os meios técnicos e os cifrões necessários para o empreendimento, e verão como eles ficarão gordos e a sua música ficará mais gorda ainda, e haverá milhões a aplaudir cada solo de 20 minutos e – triunfo final – isqueiros acesos por pais e filhos em conjunto, celebrando em harmonia familiar o ritual conciliatório do rock mainstream.
A música dos Air resulta ao vivo, chunga e chique. Chunga chique. Chunga chique como foi o concerto dos próprios Pink Floyd há anos no Estádio de Alvalade. Chunga chique como quase toda a música pop e rock francesa de massas. Trejeitos, lodo e perfume.
Antes dos Air atuou o seu compatriota Sebastien Tellier, primeiro artista a assinar pela recém-criada editora do grupo. A principal virtude da apresentação ao vivo deste novato que na sua estreia em disco, “L’Incroyable Vérité”, se faz passar por uma variante neo-pop-easy listening-psicadélica gaulesa de Robert Wyatt foi ter durado pouco mais de vinte minutos.
Foi sob uma rajada de focos de luz branca apontados à cara da assistência que os Air lançaram sobre o Coliseu o anúncio sintético de “Electronic performers”, também tema de abertura de “10000 Hz Legend”: “We are the synchronizers/(…)/Machines gave me some freedom/(…)/We are electronic performers/We are electronics”. Assim é, de facto, nos discos. Ao vivo, porém, os Air são menos eletrónicos do que performers de um circo de fancaria onde alguém também viu flashes de Barbarella e da “Guerra das Estrelas”.
Mas o que nos álbuns é plástico, o mesmo tipo de plástico usado por tecnopoppers como New Muzik, Buggles ou M, em palco soa como uma sucessão de clichés onde borbulham os samples-postos-ali-para-as-canções-não-soarem-muito-diferentes-das-versões-de-estúdio, vozes vocoderizadas – tão engraçado que foi ouvir o vocalista anunciar com voz de robô: “Sorry, but we can’t speak in portuguese” – os blips e blops de sintetizadores mal amanhados e, erguendo-se mais alto que tudo o resto, os solos de guitarra David Gilmourianos de Jean-Benoit Dunckel.
Além de “Playground love”, a belíssima canção composta pelos Air para a banda sonora de “The Virgin Suicides”, “Radio #1”, “Lucky & unhappy”, “People in the city”, o super divertido (no disco…) “How does it make you feel” e “Sex born poison” foram alguns dos temas que decaíram de “10000 Hz Legend” para a pastiche do rock sinfónico pimba. Nalguns casos a música pedia uma voz como a de Claudisabel ou os saxofones e os coros épicos de “Dark Side of the Moon”. Noutros os Air tentaram mostrar que aprenderam alguma coisa com os Kraftwerk, pela via rápida da pop sintética, mas foi sempre o excesso, a grandiloquência e, quase sempre, o impacto artificial de um som cheio de nada, que se impuseram a um público que bateu palmas de acompanhamento, gritou e exigiu os dois encores que o alinhamento previa. Oportunidade para receberem como prémio dois dos hinos de “Moon Safari”, o álbum que impôs o nome dos Air em Portugal: “Kelly watch the stars”, numa variante pateta dos Yes do período tecnnopop e “Sexy boy”, em registo “slow”.
O último tema, aquele que em geral os artistas tocam com a finalidade de arrefecer os ânimos do público de modo a poderem enfim ir para o hotel descansar, “La femme”, foi o melhor da noite. Por uma vez os Air puseram a música à frente do conceito, entregando-se a uma sessão de spacerock canterburyano, impelida por um riff insistente de baixo e esvoaçantes fraseados jazzy do piano elétrico de Nicolas Godin. Sem truques nem banha da cobra.
Da próxima vez que vierem cá tocar esperem dos Air qualquer declaração do tipo: “Estávamos a ser irónicos quando fingíamos ser irónicos.”
Roger Waters será o convidado especial.


EM RESUMO

O melhor “La femme”, o único tema em que os Air fizeram música pelo prazer da música

O pior
A grandiloquência balofa, os tiques sinfónicos, a incapacidade dos Air de transporem para o palco a matéria sonora e conceptual dos álbuns

Zzzzzzzzzzzzzzzzzp! - FB56



Y 9|NOVEMBRO|2001
escolhas|discos

ZZZZZZZZZZZZZZZZZP!
FB56
Ed. e distri. Ananana
8|10

À semelhança do que já tinham feito no anterior “FICTA003”, os ZP! (eles que me perdoem por ter eliminado 16 dos “Z”, mas a economia de espaço assim o exige!), de Miguel Sá e Miguel Carvalhais, recortaram o número de catálogo e colaram-no na capa, a servir de título. A opção expressa uma predileção pela abstração e pela manipulação das entranhas, quer do som quer dos meios da sua produção. Os sete temas deste mini álbum composto para uma encomenda da Bienal da Maia são amostras convincentes de uma estética cuidadosamente elaborada ao longo dos últimos dez anos. O sampler e o computador são as ferramentas usadas na confeção de uma música que vive das dinâmicas e das tensões (quando não dos “erros”) entre programação e improvisação, groove e fragmentação. Pianos virtuais, segmentações de timbres e de texturas inusitadas, vozes e instrumentos samplados segundo técnicas de colagem que tanto devem a Musci/Venosta e aos Severed Heads, como ao pioneirismo de Bernard Parmegiani, e a atitude futurista de culto à beleza da máquina, situam “FB56” no mesmo patamar de projetos como Sack & Blumm ou General Magic.

Saturnia - The Glitter Odd



Y 9|NOVEMBRO|2001
escolhas|discos

SATURNIA
The Glitter Odd
Cranium
7|10

Revisionista ou não, a música dos Saturnia tem como efeito impregnar os sentidos das vibrações de uma “rave” intemporal, em que o Psicadelismo, o chill out cósmico, o transe e a dança convergem em espirais onde o passado e o futuro se cruzam. Se no álbum anterior deste grupo composto por Luís Simões e Francisco Rebelo eram óbvias as referências à “space music” dos anos 70, personificada pelos Gong, Ashra ou pelos Ozric Tentacles, em “The Glitter Odd” ressalta uma vertente mais etérea apadrinhada pelos Pink Floyd (os Air são outros dos seus afilhados, sem que alguém se sinta chocado com isso), em temas como “Still Life” ou na sequência “A trick of the light”/”Azimuth/Menodel” onde assoma o mesmo tipo de experimentalismos de “Ummagumma”. O resto são sintetizadores ondulatórios, trip-hop espacial e, no título-tema que fecha “The Glitter Odd”, finalmente o toque mágico no gongo capaz de atirar os Saturnia para os confins da galáxia dos “pot head pixies”. O Saturno dos Saturnia não será o mesmo planeta, do caos primordial, que Sun Ra habitava, mas esta viagem para lá da orbita da Terra vale bem mais que qualquer sessão sem amanhã nas “dance floors”.