PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 22 JULHO 1991 >> Cultura
Paul
Simon, sábado, em Alvalade, não contemporizou com o saudosismo
“Ele
cantou de maneira diferente”
Paul Simon mostrou
como a música pode, e deve, sobrepor-se ao artifício. Quando a solução segura
seria o recurso aos êxitos do passado, optou, em vez disso, pelo empenhamento e
pelas “fusões” do presente. Ficou provado que há outras formas de fazer espetáculo.
Foi ótimo. Foi excelente. Foi
excecional. Foi bestial. Foi piramidal. Foi grandioso. Foi super. Foi
grandioso. Foi magnífico. Foi. A todos aqueles que assistiram, sábado à noite,
no estádio de Alvalade, em Lisboa, ao concerto de Paul Simon e acharam que foi
ótimo, excelente, excecional, bestial, piramidal, grandioso, super, magnífico
ou que simplesmente foi, e aqui apenas pretendem a confirmação oficial das suas
impressões, a confirmação está feita. Podem retirar-se em paz e dormir
descansados.
Os outros, que não foram ou foram (e
terão ido à volta de 40 / 45 mil) mas querem saber um pouco mais, podem ficar
até ao fim. Foi de facto um bom concerto. Talvez o melhor, em termos de grandes
espetáculos de estádio realizados no nosso país. E foi-o por méritos
exclusivamente artísticos, o que equivale a dizer que o supérfluo e o teatro
foram preteridos a favor da música propriamente dita. O que chocou muito boa
gente, provocando comentários do tipo “ele cantou as músicas de maneira
diferente” como os que se ouviram, com uma ou outra variante.
Paul Simon cantou, é verdade, as
músicas de maneira diferente: “Bridge over troubled water” com uma introdução
pianística de Richard Tee e continuação em ritmo reggae; “The boxer” menos
swingante que na nossa memória; “Still crazy after all these years” com a voz a
divagar por entoações bizarras. Houve mesmo uma altura, a meio de uma atuação
de quase três horas, em que nem sequer cantou, dando o lugar aos músicos que
não se fizeram rogados e se atiraram a longos solos numa sequência de puro
“jazz rock”, de colorações étnicas, que serviu para Michael Brecker mostrar
quanto vale nos sopros, seja no saxofone alto ou no controlador MIDI.
Média
de isqueiros
Sim, é verdade que interpretou
“Kodachrome”, “Me and Julio down by the schoolyard”, “Bridge over troubled
water” (8674 isqueiros acesos, 1º lugar à média aproximada de um isqueiro por
5,18 pessoas), “Still crazy after all these years” (7290 isqueiros acesos, 3º
lugar, média de um em 5,681), “America” (7919 isqueiros, média de um em 5,682,
4º lugar, falhou o pódio por um isqueiro), #The boxer”, “Cecilia” e “The sound
of silence” (8502 isqueiros acesos, 2º lugar, à boa média de 5,29), os quatro
últimos já em período de “encores”. Mas descontando estes temas, mais
conhecidos (os lentos são os que estão assinalados em número de isqueiros
acesos), o concerto pautou-se pela musicalidade e atualidade dos recentes
álbuns “Graceland” e “Rhythm of the Saints”.
Precisamente, Paul Simon trocou as
voltas a quem se preparava para mais uma sessão de saudosismo. Chegado aos 50
anos, e ao contrário dos nomes atrás citados, o autor de “Sounds of silence”
encontra-se em pleno apogeu criativo. “Graceland” e “Rhythm of the Saints”,
discos recentes, são de facto melhores que qualquer dos antigos, do tempo em
que formava dupla com Art Garfunkel. E isso foi o que, para muitos, custou a
perceber, incomodados com o desconhecimento da maior parte dos temas ou com a
complexidade de outros tantos.
Canções
de recompensa
A esses, (cerca de 37562 num total de
45621, 82,33% portanto), restou o prazer da dança, irresistível nos momentos em
que a “bateria” brasileira, constituída por Mingo Araújo, Cyro Baptista, Dom
Chacal e Sidinho, se juntou a Steve Gadd, num festim de ritmos e cadências
sincopadas a que os corpos se entregaram sem resistência, ou, em desespero de
causa, o recurso inevitável ao ritual dos isqueiros. Registe-se que a este
nível, “Hearts and bones”, embora também um tema lento, por ser menos
conhecido, conseguiu a marca pouco representativa de 56 isqueiros acesos,
correspondentes à média desprezível de um por 803,57 pessoas.
A sequência final de “encores”
(“America”, “The boxer”, “Cecilia” e “The sound of silence”, com Paul Simon
praticamente a solo, voz e guitarra acústica, aqui sim, fazendo recordar os
primórdios “Folk”) funcionou então como uma espécie de recompensa (curiosamente,
ou não, foi nestes temas que o músico se revelou menos à vontade...) para quem
já desesperava de cantarolar um refrão ou bater umas palmas a marcar o
compasso, de modo a justificar as “milenas” gastas. Foram os momentos
apoteóticos da noite, em termos de reação popular.
Na perspetiva oposta, estritamente de
crítica musical, tudo foi diferente, para melhor.
Apoiada por um som excelente (que,
seguindo o sábio preceito, amplificou sem agredir, preferindo acentuar os
pormenores em vez de recorrer ao truque fácil do totalitarismo dos decibéis) e
num jogo de luzes eficaz (que iluminou e deu côr e ênfase aos diferentes
ambientes, em vez de ofuscar e distrair), a banda de Paul Simon deu cartas na
difícil arte de juntar diferentes tradições conotadas com a “World music” a um
discurso rock articulado de forma sempre coerente.
Não
eram chineses...
Da “jive music” dos negros
sul-africanos, com que, logo a seguir a “The obvious child”, abriu o concerto,
em “The boy in the bubble”, ao esplendoroso batuque final de “Diamonds on the
soles of her shoes”, Paul Simon e os restantes músicos mostraram que não tinham
vindo para contemporizar. Que os seguisse quem pudesse. A maioria da
assistência seguiu e acabou por entregar-se, quando concluiu que a ocasião não
era a ideal para grandes evocações. Talvez para a próxima, com o Santana...
Na primeira parte do espetáculo, Rui
Veloso e os Mingos e Samurais não tiveram dificuldade em pegar na assistência e
levá-la rapidamente ao rubro. Neste caso as canções eram bem conhecidas de
todos e por isso não custava nada trauteá-las em coro. Cumpriu-se o que seria
de esperar, com a celebração coletiva de “Não há estrelas no céu”, numa noite
que terminou cheia delas – encerrada a série de “encores” de Paul Simon (todos
fazendo parte do programa...), os pedidos de “mais” foram calados através do
expediente que já se vai tornando habitual nestas ocasiões: o fogo de
artifício.
À saída ouviam-se comentários
desencontrados: uma jovem fazia comparações com o espetáculo de Tina Turner,
afirmando que nunca nessa noite vira “o povo tão maluco”, esquecendo o pormenor
importante das pernas, as de Tina Turner indubitavelmente mais esculturais que
as de Paul Simon (por isso ele trazia calças), embora tenham quase a mesma
idade. Outro jovem, este mais entusiasmado, assegurava que a banda de Paul
Simon “era espetacular, com aqueles sons esquisitos tipo chineses”, logo
emendado pela namorada, conhecedora: “Não eram chineses, eram dos Andes”. No
fim de contas, para quase todos acabou por ser uma noite de Verão bem passada.
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