PÚBLICO DOMINGO, 21 JULHO 1991 >> Cultura
“Luz
na Sombra”, de Sérgio Godinho, começa hoje na RTP2
As
sombras da ribalta
Luz e sombra são
parte integrante do mundo do espetáculo. Em “Luz na Sombra”, Sérgio Godinho dá
a conhecer os bastidores, os rostos na sombra, o real por baixo da maquilhagem.
“The show must go on”, é verdade, mas pode parar por instantes, e mostrar o
outro lado do espelho. De que matéria são feitos os sonhos?
Hoje, a partir das 20h15, no canal 2
da RTP, a luz incidirá nos recantos mais escuros dos bastidores do mundo da
música, iluminando aquilo que por norma apenas se adivinha. Sérgio Godinho,
viajante de todos os imaginários, contador de histórias e de vidas que já não
vamos tendo tempo de viver, vai levantar o pano e mostrar como se constrói a
imagem em que acreditamos.
São seis programas, genericamente
intitulados “Luz na Sombra”, “cada um sobre uma pessoa que trabalha dentro da
música”, numa reflexão pessoal sobre outros tantos aspetos ligados à produção
musical, personificados por quem sabe e quer partilhar esse saber.
José Salgueiro, músico, é o
protagonista do primeiro programa. Depois será a vez de Carlos Tê, letrista,
Paulo Pulido Valente, produtor de espetáculos, Ricardo Camacho, produtor e
músico, Rui Fingers, “roadie” e músico e, por último, Tó Pinheiro da Silva,
técnico de som. Todos os domingos, até finais de agosto.
Sérgio Godinho, além de autor de “Luz
na Sombra”, acumula ainda as funções de apresentador e entrevistador. A
realização e montagem estão a cargo, respetivamente, de Teresa Olga e Henrique
Monteiro.
O
outro lado existe
Luz e sombra são polos complementares
de uma mesma realidade. Sem um o outro não existe nem tem razão de ser. Luz e
sombra que constituem a própria essência do espetáculo. De um lado o brilho dos
projetores, a fama, a claridade das vozes e da música, a encenação e simulação
dos gestos. Do outro, aquilo que não se vê mas está lá, atrás da cortina ou da
câmara, omnipresente, indispensável para o bom funcionamento da parte visível.
Os alicerces, as infra-estruturas técnicas e humanas, a imaginação e o suor dos
que trabalham para que a máquina funcione, tornando possível o sonho e a ilusão
credível.
Para Sérgio Godinho trata-se de deixar
por algum tempo o papel de “escritor de canções” para contar outro tipo de
histórias, feitas de imagens e jogos sobre a música e as pessoas a ela ligadas.
Jogos de sombra. Jogos de luz. Ficções, ainda e sempre, urdidas por quem há
anos vem tecendo o pano cru onde sonho e realidade se confundem. Eis o
argumento resumido desses pequenos filmes subjetivos, parte integrante da
grande-metragem que é a música popular portuguesa.
Seis
argumentos possíveis
José Salgueiro, baterista (hoje) – o
suor dos ensaios, o trabalho de professor, as “tournées” com os Trovante que
ciclicamente se repetem. É difícil manter o ritmo, mesmo para um baterista. A
vida e música de um músico, no compasso certo.
Carlos Tê, letrista (28 de julho) – o
verbo também se escreve com caneta. A letra “T” sempre presente nas palavras
que Rui Veloso canta. Palavras nascidas de uma cidade antiga e mágica, o Porto,
cenário de muitas histórias por contar. Canções inéditas da dupla, recolhidas
num ensaio da banda. Novos projetos. Um livro aberto.
Paulo Pulido Valente, produtor de
espetáculos (4 de agosto) – como se organiza um espetáculo? Ninguém se
preocupa, desde que o pano suba. Um exemplo: as Festas de Lisboa de 1990, onde
o citado produtor se encarregou de animar o cinzento das ruas com fantasia,
trabalho e a música dos Repórter Estrábico, Capitão Fantasma e a Lua
Extravagante de Vitorino e Janita Salomé.
Ricardo Camacho, produtor – e músico
dos Sétima Legião, acrescentamos nós. Explica como se produz um disco, se
arranjam as canções e se idealiza o som global. Sem um produtor capaz não há
disco que resista. Música da Sétima Legião, António Variações, GNR e Manuela
Moura Guedes.
Rui Fingers, “roadie” – o “roadie” é
quem carrega com o piano às costas. Quem liga e desliga os amplificadores. Quem
monta e desmonta o palco. É o operário da música, o homem dos músculos, um
“mouro” de trabalho. O “roadie” em questão, para além de trabalhar com os Rádio
Macau, que veremos atuar, ainda arranjou tempo pra tocar na banda de “heavy
metal” V 12. Uma canseira.
Tó Pinheiro da Silva, técnico de som –
ele escuta as opiniões e as bocas, tantas vezes despropositadas, dos músicos,
mas faz como acha melhor. No estúdio é ele que sabe, pode e manda. Dele depende
em grande parte o sucesso ou fracasso de um disco. Vamos ver essa alquimia,
durante a gravação e misturas de um tema do último álbum de Jorge Palma.
Depois de “Luz na Sombra” tudo ficará,
de certo modo, mais claro. Luz e sombra, o difícil está em separá-las. Ou, como
diria Neil Young, “there’s more in the picture, than meets the eye”.
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