02/06/2008

Jorge Reyes - Mexican Music Prehispanic

Pop Rock

17 de Maio de 1995
álbuns poprock

Jorge Reyes
Mexican Music Prehispanic (10)
Mexican Music Prehispanic: Music for the Forgotten Spirits (9)
Mexican Music Prehispanic: Mystic Rites (10)
PARAMUSICA, DISTRI. SYMBIOSE

Durante anos, os apreciadores da música deste mexicano procuraram em vão o compacto “Mexican Music Prehispanic”. Quem teve a sorte de escutar um exemplar de amostra que por aí circulou há tempos, desde logo considerou este um dos melhores trabalhos de sempre do músico. Agora, não só o disco está finalmente disponível, como a ele se vieram juntar os volumes dois e três deste projecto “sui generis”. Jorge Reyes – que actuará ao vivo em Portugal no próximo mês de Junho – pode ser considerado como que um Jon Hassell terceiro-mundista. Só que, enquanto o trompetista americano partiu do naturalismo ambiental das “Possible musics” do quarto mundo para se aproximar progressivamente de uma urbanidade revista à luz de novas ficções, em álbuns como “City: Works of Fiction” ou “Dressing for Pleasure”, o mexicano seguiu o caminho inverso. A música progressiva exótica dos primeiros álbuns derivou rapidamente para um lado mais acústico que privilegiava a utilização de instrumentos das antigas civilizações mexicanas, maias e “nahuatl”, ou de elementos da Natureza, quando não o próprio corpo, numa síntese subtil com a tecnologia electrónica. “Mexican Music Prehispanic” representa o primeiro momento desta inflexão numa vertente ritualista, ao qual se viriam mais tarde juntar obras importantes como “Cronica de Castas” (com o guitarrista espanhol Suso Saiz, seu companheiro nos Suspended Memories), “Bajo el Sol Jaguar”, “El Costumbre” e os desperdícios de ouro de “The Flayed God”.
Música única, feita com sons únicos, de conchas, pedras de fósseis, troncos de árvore ou água, juntamente com flautas e tambores rituais, “Mexican Music Prehispanic” invoca as antigas divindades pagãs e os seus poderes mágicos – “um simples pedaço de madeira pode constituir um elo de ligação com os deuses”, diz Jorge Reyes, a propósito do tema “Wood Music” – viajando nas asas de uma ave pelo mundo dos sonhos e das cerimónias de iniciação. Toda a obra de Reyes, e de forma superlativa neste disco, pode ser encarada por uma dupla perspectiva. Se por um lado pode agir como música funcional, psicadélica, na medida em que propicia condições para a passagem de estados normais de percepção para outros, em planos paralelos de realidade, por outro é inegável o seu fascínio e enorme riqueza sonoros, independentemente dos usos que se lhe quiser dar.
O segundo volume, “Music for the Forgotten Sprits”, recua ainda mais, até “ao tempo anterior ao tempo, aos deuses e à existência da consciência humana”. Leitura virtual dos estratos mais profundos do inconsciente humano onde habitam as entidades a eu chamamos deuses e demónios, e do limbo intemporal onde vivem os espíritos que, na tradição asteca, presidiram à criação do universo, como Ometeotl, a “essência suprema”. O álbum é produzido por Steve Roach, terceiro elemento dos Suspended Memories, cujo primeiro álbum, “Forgotten Gods”, aborda idêntica temática. À semelhança dos Suspended Memories, neste segundo volume de “Mexican Prehispanic” a música ganha peso, centrando-se no ritmo hipnótico das percussões, enquanto as melodias dervíshicas das flautas e dos cânticos servem para despertar os órgãos ocultos de percepção. De notar que se encontra também disponível outra edição deste registo, com capa diferente e o título “Tonami”, no selo espanhol No-CD.
“Mystic Rites”, terceiro volume da trilogia, é um caso especial, já que se trata de uma colectânea de temas considerados mais “místicos” e “rituais” da discografia do músico anterior à fase “pré-colombiana”, ou “pré-hispânica”. Voltado desta vez para o lado solar e luminoso, a ênfase é posta no amor e no misticismo, como forma superior de transcendência. Em consonância com este estado de espírito, o tema de abertura, “Invocacion”, combinação de “ritmos do corpo” com “atmosferas” e uma voz feminina, inspira-se na liturgia católica de uma ordem monástica. “Mexican Music Prehispanic”, na sua geografia secreta, desperta para a descoberta de novas formas de ouvir música. Ou, como diz o título de um dos temas, para “Ver cosas nunca oidas”.

Fax para o espaço [Pete Namlook]

Pop Rock

19 de Julho de 1995
Álbuns poprock

Fax para o espaço

PETE NAMLOOK
VI (8)
VII (6)
VIII & IX (2xcd) (6)
X (8)
Syn (2xcd) (9)

VÁRIOS
The Ambient Cookbook (4xcd) (8)
Fax+49-69/450464, distri. Symbiose

Regra de ouro para a editora e para o seu patrão, Pete Namlook, é a eleição dos sintetizadores analógicos. Nada se compara, em calor e na corporalidade do som, ao velho filtro VCF de um “Moog synthetizer”. A esta conclusão chegaram Pete Namlook e outros manipuladores de arsenal electrónico, que cada vez mais deixam de lado os frigoríficos digitais para redescobrirem as virtudes musicais do Moog, dos A. R. P. 2600 e “Pró soloist” ou do VCS#, máquinas fabulosas que começaram a ser exploradas ainda nos anos 60, ganharam estatuto de realeza na década seguinte, para finalmente serem deitadas ao baú das antiguidades, com a explosão do movimento “punk”.
Pete Namlook é o Klaus Schulze dos anos 90. Não só pelo espírito com que aborda a música electrónica como pelo modo como orienta toda a estética da sua editora, bizarramente denominada com o número real do seu fax. Em cada um dos seus discos manifesta-se o prazer do contacto directo e da manipulação em tempo real dos timbres dos sintetizadores, exactamente da mesma maneira que Schulze, quando se entregava às suas divagações planantes, no estúdio ou ao vivo numa catedral.
Ao contrário do “sampler” e restante tecnologia digital (não totalmente posta de lado por Pete Namlook, convém esclarecer), que pede ao compositor uma mentalidade analítica e aconselha à distanciação, o analógico permite uma maior intervenção da intuição do momento, determinando, por outro lado, uma noção mais alargada do tempo (manuseamento de botões, troca de cabos, pesquisa lúdica de novas combinações de filtros e ondas sonoras) real ou psicológico da interpretação. Namlook gravou, de resto, na sua editora, uma obra que é todo um manifesto de intenções, “The Dark Side of the Moog”, com Klaus Schulze, precisamente.
Namlook é um músico prolífero, já com um número razoável de títulos no mercado, desde o projecto de etno ambiental, em dois volumes, “Air”, a parcerias com Bill Laswell, em “Psychonavigation”, ou Jonah Sharp, no electrizante “Wechselspannung”. Os discos aqui em análise datam todos do ano passado e, à excepção de “Syn”, foram gravados ao vivo, em vários festivais de música electrónica, com o intervalo de um mês. Exceptuando “Syn”, em todos eles a música foi “criada intuitivamente no próprio momento da interpretação, sem qualquer conceito prévio”, como se pode ler nos respectivos folhetos.
Existe, no início, apenas o silêncio, antes da descoberta, em cada instante, do fluxo musical, organizado à maneira de um arquitecto que, obra a obra, plano a plano, persegue um modelo de perfeição. O espantoso é a organização e organicidade destas peças, isentas de falhas técnicas e com uma unidade formal que pareceria difícil dentro dos parâmetros de uma gravação ao vivo. Umas são mais inspiradas do que outras, como é evidente, mas todas elas, se mais não tivessem para oferecer, permitem pelo menos o gozo de saborear o som pelo som e revelação do acto criativo que brota espontaneamente da dança interminável do homem com a máquina.
O volume VI de um trabalho que o seu autor design simplesmente por “Namlook” – embora dividido por diversos CD – coloca em evidência a beleza dos timbres, em mutação constante, enquanto o volume X se desmultiplica na sobreposição dervíshica dos sequenciadores de ritmo. Menos recheados de ideias, os volumes VII e o duplo VIII e IX contêm todavia motivos de interesse: a utilização de frequências sub-harmónicas (semelhantes às produzidas pelos pássaros…), em “VII”, ou a utilização inusitada de gravações de vozes étnicas como elementos rítmicos, em “IX”.
“Syn” divide-se em duas vertentes distintas. No primeiro disco, composições abstractas, como “Jugoslavia” e “TAT ‘93”, alternam com alucinantes exercícios de tecno humanizado que apetece ouvir com o volume no máximo. O segundo compacto oferece uma única composição de 55m, “The flight”, obra-prima absoluta do ambientalismo, uma viagem astral pelos espaços nocturnos, verdadeira “trip” em todos os sentidos…
Todos estes discos, de novo com “Syn” a ser a excepção, têm apenas uma composição, indexada em segmentos de cinco minutos, de modo a permitir ao ouvinte pesquisar no seu interior. Os títulos recuperam a corrente cósmica dos anos 70: “Monolith”, “The caves of Cubik”, “Subharmonic Interference”, “The gate to the milky way”…
Para quem pretenda uma visão global do que se passa nas cabeças de quem faz música na Fax, aconselha-se a audição da colectânea “The Ambient Cookbook” – um livro de receitas (o folheto, um tratado de ironia de múltiplas leituras, ensina mesmo a cozinhá-las…) -, sonho electrónico para os fãs do analógico, elaborado, entre outros, por Robert Musso, Dr. Atmo, Jonah Sharp e Tetsu Inuoe, além da presença tentacular do próprio Namlook, a solo, ou em colaborações com outros artistas da editora. Além de que o preço, por vontade expressa de Namlook, é inversamente proporcional às gigantescas dimensões dos temas. Na Fax, todos se gerem por princípios e regras físicas diferentes dos habituais. Quem quiser saber mais, basta enviar um fax…

Von Magnet - Cosmogonia

Pop Rock

11 de Outubro de 1995
Álbuns poprock

Von Magnet
Von Magnet Meets the Data Gypsies: Cosmogonia
HYPNO BEAT, DISTRI. SYMBIOSE

Onze arcanos do baralho esotérico “tarot” são aqui transformados em signos sónicos por um naipe variado de intérpretes, denominados Data Gypsies, através de remistura e montagem de música originalmente composta pelos Magnet, praticantes de tecno industrial, adeptos da new rage (por oposição à new age) e membros da MACOS (“Musicians against Copyright of Samples”). Monótono em alguns casos, aqueles onde a vertente tecno e industrial se sobrepõe, ocasionalmente sublimada numa voz de características étnicas ou rituais, “Cosmogonia” surpreende pelo lado mais ambiental e experimentalista. Estão neste caso os temas a cargo de Victor Sol (um espanhol que com os Xjacks, na Fax, de Pete Namlook, subverte algumas regras básicas da editora), “El carro d’Hermes”, onde máquinas monstruosas se emancipam do controlo humano; de Ken Thomas, no ritualismo obscuro de “El anciano”; e de Lassigue Bendthaus, com “El maestro”, exercício extenso de industrialismo cibernético que deriva para a colagem naturalista ao estilo dos PJR, antes de se organizar na mecanicidade pura de um Asmus Tietchens. Relativamente “conhecidos” desta área, os Bourbonese Qualk ficam-se por uma base rítmica sequenciada e bastante dançável, enquanto os estranhos Calva & Nada optam pelo discurso hermético sobre a figura de “El diablo aker” e Ian Briton com Boyd recorrem sem grande originalidade às vozes filtradas por um “vocoder” saídas da auto-estrada dos Kraftwerk. As principais referências estéticas da maioria da legião tecno giram contudo em torno dos Einsturzende Neubauten, Test Dept ou la Fura dels Baus, este últimos mimados num manifesto contra o poder por Gus Ferguson com os ICU, no derradeiro arcano, “El Ciclo”. A embalagem contém reproduções miniatura das respectivas cartas. Satisfação garantida para os apreciadores deste género de barulhos. (6)

Holger Hiller - Little Present

Pop Rock

29 de Novembro de 1995
Álbuns poprock

Holger Hiller
Little Present
IMPORT. CONTRAVERSO

Em ponto algum da embalagem ou do próprio disco vem indicado o nome de uma editora. Edição de autor ou simples estratégia de ocultação, é mais um disco ao nível da reputação deste alemão antigo elemento dos Palais Schaumburg. “Little Present”consiste numa série e gravações efectuadas em vários locais da cidade de Tóquio, onde Hiller se deslocou para visitar um filho seu, de naturalidade japonesa. São 13 segmentos, indexados em 26, cada um dividido em duas partes, uma delas “com histórias e ambientes”, a outra com “música”. Da manipulação de samplers que caracteriza toda a primeira fase do autor, expressa numa espécie de “sinfonismo concretista” presente em discos como “Ein Bundel Faulnis in der Grübe”, “Oben im Eck” e “As Is”, Hiller passou posteriormente para investigações na área da “dub”, antes de chegar a este documento sonoro de “environmental music”. Um passo lógico, no sentido da passagem da manipulação de sons instrumentais para a manipulação, numa escala mais ampla, das próprias paisagens acústicas da cidade japonesa. Excertos de programas de televisão, sons de rua, conversas telefónicas ou em apartamentos, a voz do filho, ruídos de proveniência incerta são reconstituídos por Hiller numa “sucessão rápida e em constante mudança”, de modo a “interpretar” e “substituir” o ambiente “natural” por outra realidade, subjectiva, construída a partir dos mesmos materiais. Entre a música infantil, a tradição japonesa, o “jingle” à maneira de um Yasuaki Shimizu em “Music for Commercials”, o desenho animado e a arquitectura onírica, “Little Present” é um passeio virtual por Tóquio, como nunca ninguém a viu ou ouviu antes. (7)

Michael Rother - Esperanza

Pop Rock

1 de Maio de 1996
poprock

Michael Rother
Esperanza
SPV, DISTRI. MEGAMÚSICA

Grata surpresa o regresso discográfico do mais melódico dos robôs do “krautrock”, cuja obra a solo deverá ser encarada como precursora da actual vaga “easy listening”, na sua vertente mais experimental. Se a edição do anterior “Traumreisen”, já lá vão nove anos, marcava a rendição do ex-Neu! À “new age” e o esgotamento de fórmulas rítmicas empregues até à exaustão, “Esperanza” assume-se como o álbum mais elaborado de toda a sua carreira e o mais diversificado em termos de batidas maquinais. Permaneceram o romantismo e o gosto pelas repetições, agora envoltos num formato mais próximo de Dieter Moebius, dos Cluster, que do “punk” electrónico dos Neu! O tema final, “Spirit of ‘72”, é uma recriação – não saudosista – da sonoridade “motor em quinta velocidade”, dos Harmonia, precisamente o projecto de Rother com os Cluster. (8)

XTC - Fossil Fuel: The XTC Singles, 1977-92

Pop Rock

25 de Setembro de 1996
reedições poprock

Isto é pop!

XTC (8)
Fossil Fuel: The XTC Singles, 1977-92
2xCD Virgin, distri. EMI-VC

Perdidos no meio da confusão da pop britânica, em guerras para decidir se os melhores são os Pulp ou os Oasis, ou uns rapazotes chamados Babylon Zoo, os ingleses têm andado distraídos, não reparando que desde há anos a melhor e mais inteligente pop tem nascido de uma banda que decidiram ostracizar desde que em “Skylarking” optaram por lançar a sua música, como diria Julian Cope, “to-the-moooooon!”. A crítica foi unânime, os XTC eram bons quando eram crus. Para sermos precisos e preconceituosos, até “Black Sea”, álbum onde disseram adeus à melodia directa e à unidireccionalidade do “punk” e da “new wave”. Certo, já nessa altura os XTC pregavam outras mensagens e outros coloridos. Os primeiros ‘singles’, “Science friction”, “Statue of liberty” e “This is pop”, reclamam ainda estéticas idênticas, respectivamente, às dos Devo, Elvis Costello e Talking Heads (com quem foram frequentemente comparados). A partir daí, porém, seguiriam um caminho só deles, levando embora no bornal os ensinamentos dos Beatles – e dos Kinks – na prossecução de uma “englishness” genuína.
O estigma do pretensiosismo colou-se-lhes à pele a partir dessa altura, na “fuga” que empreenderam em direcção a um psicadelismo que devia menos ao LSD do que a Alice no País das Maravilhas, em álbuns como “English Settlement” e “Mummer” (que a “Q”, por exemplo, considera “irritante” e “sem verdadeiras canções”), subvalorizados pela história, que os pôs no caixote do lixo das bugigangas perigosamente próximas do “progressivo”. Por acaso serão talvez os dois melhores álbuns de sempre do grupo e que assinalariam o ponto de não retorno de uma música que de “Skylarking” até “Nonsuch”, passando pelo duplo “Oranges & lemons”, se rodearia de um manto de impenetrabilidade cada vez maior. Qualquer destes álbuns não se compadece com a voracidade do momento, necessitando de outro tipo de atitude até se tornar legível a sua organicidade e a riqueza das suas entranhas. À míngua de tempo e com o brilho ofuscante de novos estímulos, colou-se nos XTC o rótulo de “banda de ‘singles’”, como quem diz que deveriam ter deixado de gravar álbuns. Nada mais do que preconceitos. Se é verdade que os seus 45 rotações (semeados, na totalidade, ao longo dos álbuns) sempre foram pródigos em refrescar o mercado com pequenas peças pop de um barroquismo e refinamento que de disco para disco se acentuavam, tal deveria apenas servir de indicador de que “o melhor” do grupo sempre esteve guardado nos longas-durações.
Aconteceu que a preguiça terá impedido muita gente de penetrar além da porta de entrada. “Fossil Fuel”, embalado numa caixa com o molde, em alto-relevo, de uma amonite, não deixa, por todas estas razões, de ser o documento ideal para quem passou ao lado da discografia de álbuns do grupo, na mesma medida em que apresenta uma colecção com um número impressionante de algumas das melhores e, porque não dizê-lo, excêntricas canções alguma vez nascidas do outro lado da Mancha.

Orchestral Manoeuvres In The Dark - Universal

Pop Rock

16 de Outubro de 1996
poprock

Orchestral Manoeuvres in the Dark
Universal
VIRGIN, DISTRI. EMI-VC

Para os registos ficarão, provavelmente, apenas os dois “hits” do grupo da época dourada do electro pop, “Electricity” e “Enola Gay”. Mas os OMD sempre foram algo mais, conseguindo sobreviver à passagem dos anos com inflexões de estilo que lhes permitem não passar demasiado ao lado das correntes dominantes. Se “Organization” (uma homenagem aos mestres Ralf Hutter e Florian Schneider, através da referência à sua primeira banda, anterior aos Kraftwerk, os Organisation) e “Architecture & Morality” ainda hoje se deixam ouvir fora da estética então dominante, a verdade é que as linhas de electrónica suave dos OMD se foram progressivamente descaracterizando, ora numa tentativa de levantamento do que poderia designar-se por “soul cibernética”, ora confinando-se aos domínios da pop pura. “Universal” celebra a síntese de todos os malabarismos sónicos que moldaram a alma do grupo naquilo em que hoje se transformou, uma girândola barroca de extremo requinte, onde pululam moléculas de sintetizador e naves espaciais forradas a veludo trespassam os céus e deixam rastos de baunilha no azul. Uma produção esmerada e anos de experiência acumulada transportaram os OMD para um limbo caleidoscópico – onde cabem “sitars” cósmicas e o gospel – sem fronteiras definidas e onde bandas como os Tears for Fears ou Depeche Mode jamais se atreveram a entrar. Psicadélicos e plásticos, mais do que nunca apaixonados pela melodia descarada e pelo modelo dos Beatles, os OMD fragmentaram-se numa deliciosa confusão universal. (6)