03/04/2011

Quarto com vista para a alma [Edward Ka-Spel]

26 de Novembro 1999

Edward Ka-Spel abre a porta de “The Blue Room”

Quarto com vista para a alma

Com “The Blue Room”, Edward Ka-Spel, vocalista dos Legendary Pink Dots, deu início a uma trilogia em torno da demanda da alma. A caminho de um estado de consciência mais elevado, com ou sem o recurso a cogumelos alucinogéneos e segundo a máxima de que “ninguém pode tocar nas nuvens se não trepar primeiro a montanha”.

Apocalíptico, explorador dos estados alterados da consciência, admirador incondicional de Peter Hammill e dos King Crimson, Edward Ka-Spel explicou ao PÚBLICO alguns dos caminhos que dão aceso ao “quarto azul”, átrio de entrada do seu templo pessoal.

PÚBLICO – “Sing while you may” é a frase que costuma acompanhar todas as edições, suas e dos Legendary Pink Dots. Até quando?

EDWARD KA-SPEL – Na verdade, não creio nem em princípios nem em fins, porque a única coisa que ninguém pode conceber é a não-existência. Mas é ela que faz da imortalidade uma realidade. Não, não creio que o mundo acabe a 31 de Dezembro… Há um mundo sem fim, assim foi e assim será sempre.

P. – Mas o Apocalipse é um tema recorrente na sua obra…

R. – O planeta está a experimentar um processo de aceleração que pode ser sentido por toda a gente que vive nele. Chame-lhe Apocalipse, se quiser. Uma aceleração que conduz à saturação. O mundo terá um aspecto inteiramente diferente daqui a dez anos.

P. – … Bem como as temáticas religiosas em geral, em álbuns como “The Maria Dimensions” ou numa faixa de “The Blue Room” como “Supper at J’s”…

R. – Acredito na predestinação. Numa mão que nos guia. E que todas as coisas acontecem porque têm de acontecer. Nos próximos tempos a raça humana passará para um estado de consciência mais elevado, mas, para usar uma analogia, “ninguém pode tocar nas nuvens, se não trepar primeiro a montanha”.

P. – A Internet, como aparece no novo álbum dos LPD, “Nemesis on Line”, parece ser outra das suas preocupações. Vê na Net a rede ideal de comunicação global ou um gigantesco curto-circuito?

R. – Acho que dependemos em demasia dos computadores, o que se pode tornar perigoso. Neste aspecto sou tão culpado como toda a gente. A comunicação global nunca foi tão perfeita como hoje, mas também um colapso, caso aconteça, não poderia ser mais catastrófico.

P. – Os Legendary Pink Dots (LPD) deveriam chamar-se antes Legendary Sink Dots (LSD)?

R. – Raramente tomo drogas hoje em dia, embora algumas substâncias alucinogéneas continuem a fascinar-me, especialmente os cogumelos. Ingerir cogumelos desta espécie é um assunto sério, foi graças a eles que aprendi a conhecer-me melhor.

P. – É, a par de Julian Cope, um dos verdadeiros psicadélicos dos anos 90. Não acha perigoso viajar nos anos 90 pelos planos astrais?

R. – É menos perigoso quando permanecemos ligados a nós mesmos.

P. – As cores da capa de “The Blue Room” são as mesmas de “In the Court of the Crimson King”, dos King Crimson. Mera coincidência?

R. – Bem, os King Crimson são a minha banda preferida…

P. – Já agora, tem algo a dizer sobre Peter Hammill? As vossas duas visões poéticas aproximam-se nalguns pontos…

R. – Peter Hammill é simplesmente um dos maiores! Ouvi os Van Der Graaf Generator quando era ainda muito novo e continuo a ouvi-los hoje. Nunca se desviou do seu caminho, algo que eu admiro muito. Além de que ele próprio é tão bom como os seus discos. Encontrei-me com ele uma vez: é uma pessoa fantástica.

P. – Que ideias procurou explorar em “The Blue Room” que não cabiam nos Legendary Pink Dots?

R. – Os discos a solo devem aventurar-se por territórios mais obscuros. “The Blue Room” é a primeira parte de uma trilogia da qual já terminei a segunda, cujo título será “The Red Terrors”. Serão três álbuns que sintetizam uma demanda da alma.

P. – Uma das características mais estranhas da sua música é o contraste entre a suavidade e a quase inocência da voz e as temáticas que canta – quase sempre inquietantes. Trata-se de uma estratégia deliberada para melhor penetração na mente?

R. – O mundo é um lugar multicolorido e multitexturado e eu nunca tive pretensões de ser perfeito…

Como um farol [Rão Kyao]

19 de Novembro 1999

Rão Kyao lança “Junção”
Como um farol

Quando no próximo mês se processar a transferência de poderes do território de Macau, de Portugal para a China, fará todo o sentido escutar o último álbum de Rão Kyao, “Junção”, gravado com a Orquestra Chinesa de Macau. Um sonho sobre a “integração”. Não política mas a que decorre de uma união espiritual

“É como um gajo que tivesse tido um sonho”, assim define o seu autor a história de “Junção”, um álbum que, uma vez mais, demonstra a cumplicidade de Rão Kyao com a filosofia e a música orientais: “Um sonho sobre Macau”. O sonhador é um macaense “imaginário”. Sonha em várias etapas, correspondentes aos 12 temas de “Junção”. A viagem onírica tem início em Coloane, “uma ilha afastada que seria a parte mais selvagem, com mais impacto da natureza no seu estado bruto”. Segue-se “Taipa”, outra ilha, “já com mais movimento”, antes de se entrar em Macau, no “sítio das tendas, dos mercados”. Há um lado romântico, como acontece em todas as boas histórias, sonhadas ou não, “com a entrada de uma rapariga chinesa que simboliza a beleza”. Começa então a parte correspondente “às coisas que os homens fizeram, a parte cristã”. Há Surge o templo de S. Paulo, cuja fachada é um ex-libris de Macau. “Quis associar essa fachada mais a S. Paulo em si, um santo por quem tenho uma grande admiração”, confessa o flautista. “A-Má” é outro templo, neste caso dedicado à deusa do mesmo nome.
Corresponde à “parte budista dos chineses”. A partir daqui o sonhador entra numa fase do sonho em que “começa a haver uma integração dos portugueses e os chineses”. Aparece a guitarra portuguesa, entrelaçando-se com elementos chineses. Ele vê os “portugueses e os chineses a viverem juntos”. Nostalgia, saudade, sentimentos portugueses que, finalmente desembocam na festa, numa “espécie de um vira, mas tocado com o timbre dos instrumentos chineses”.
Chegados a esta fase do sonho convém explicar que “Junção” foi gravado em Cantão com a Orquestra Chinesa de Macau, dirigida por Wong Kin Wai, também autor dos arranjos e compositor do tema “A-Má”.
O sonho prossegue com “Farol da Guia”, “outro tema de integração” (não integração política, como Rão Kyao faz questão de esclarecer -“não pensei na passagem política do território. O que me interessa é o lado mais espiritual”). “É acerca de um farol, algo que, para mim, sempre teve um simbolismo muito grande, algo de imutável que, ao mesmo tempo, indica a direcção às pessoas. As coisas passam mas o farol está sempre lá”. Há imagens de um barco chinês e de um barco português. “Com o farol no meio, a significar a existência de paz no meio disto tudo”. Segue-se a celebração chinesa e os dois elementos que se festejam em “Junção”, o amor, “tomado no seu sentido genérico e universal” e a celebração da paz, afinal o principal motivo que leva
Rão Kyao idealizou todo o guião. Antes, em 1984, Macau já surgira na sua discografia, através do álbum “Macau, o Amanhecer”. Mas o desejo de há muito acalentado era mesmo o de “usar os timbres chineses”. Rão fez uma maqueta com os temas e enviou-a, juntamente com as pautas, para o maestro chinês. As sessões de gravação decorreram “em directo, gravadas de forma clássica, sem qualquer espécie de overdubs”. “É tudo natural”, explica com orgulho o flautista.
“Junção” vai ter apresentação ao vivo, com a mesma orquestra, embora com uma formação um “bocadinho mais reduzida”, que esteve presente no disco, nos próximos dias 26 (no Coliseu do Porto), 27 (no Teatro Gil Vicente, em Coimbra) e 29 (na Aula Magna, em Lisboa).

01/04/2011

Discmen - Part Human Part Simpson

19 de Novembro 1999
PORTUGUESES

Discmen
Part Human Part Simpson (8)
Microwave/Staalplaat, distri. Ananana


Os homens-disco são apenas um, José Moura, que depois de uma estreia auspiciosa com produção nacional regressa com um álbum distribuído internacionalmente pela prestigiada editora holandesa de “new music” Staalplaat. Adepto do erro controlado enquanto sistema gerador e catalisador/reconversor da prática musical, confesso admirador dos Oval, Discmen (vamos chamar-lhe assim) usou no seu trabalho anterior discos compactos danificados para a criação de grooves descontínuos e agrestes que evocavam, de facto, as “malfunctions” digitais do grupo de Markus Popp. Em “Half Human Half Simpson”, se não mudou a matéria-prima, terá mudado por certo o aproveitamento e manipulação da mesma, já que a música evoluiu para sonoridades cíclicas mais fluidas que lembram “Idioglossia” de Chris Burke mas, sobretudo, um tipo de colagem usado pelos Negativland. 25 segmentos electrónicos de curta duração, com montagem e desmontagem de batidas, drones, timbres e ciclos capturados do leitor de CD, combinam automatismo e emoção digital. Artesão com corpo de homem e espírito de Simpson, Discmen soube tirar o melhor partido dos materiais utilizados, qual demiurgo de um universo de microssistemas autónomos produtores de sinais de comunicação eternamente rolando em sistemas fechados. Imagens bloqueadas de um filme de animação que, à força de repetir os mesmos “gags”, se transforma em ameaça.
19 de Novembro 1999
PORTUGUESES

Quadrilha
Quarto Crescente (6)
Vachier & Associados, distri. MVM


Há anos a jogar na segunda divisão dos grupos de música de raiz tradicional, os Quadrilha têm tentado de várias formas ascender ao escalão principal. Demasiado tempo abrigada à sombra dos Romanças, a banda liderada por Sebastião Antunes persegue uma fórmula relativamente virgem no panorama nacional: o folk rock, sem grandes pretensões de autenticidade etnográfica e voltado para a simplificação e estilização de ritmos e melodias que apenas remotamente cultivam o respeito pela tradição. “Quarto Crescente” denota influências várias que vão dos Romanças e Luís Represas, em Portugal, aos Fairport Convention, em Inglaterra. A instrumentação é mais rica do que em álbuns anteriores e inclui violino, gaita-de-foles, harpa e sanfona. Não chega para fazer de “Quarto Crescente” um álbum essencial, mas tem a virtude de refrescar um som que, uma vez mais, se revelou incapaz de ultrapassar as limitações do costume: pobreza rítmica, leitura redutora da música tradicional, mas também ausência de um verdadeiro espírito de ruptura. Contudo, há momentos em “Quarto Crescente” a merecer alguma atenção, como “Ninguém é dono do mar”, o canto das ondas de “Canto do quarto crescente”, o introspectivo “Lágrima de lobo”, “Má sorte teres sido tu” (daqui poderia nascer um caminho seguramente mais interessante para a Quadrilha), uma “Aninhas” devedora dos Vai de Roda e uma “Valsa da bailarina” que cruza os Ad Ville Que Pourra com Jorge Palma. Ainda não é desta que os Quadrilha subirão à primeira divisão, mas a verdade é que dela já estiveram mais longe.

Sob a luz de um vitral [World]

19 de Novembro 1999 WORLD

Sob a luz de um vitral

Tenho de Loreena McKennitt a melhor das impressões. Há anos tive oportunidade de a entrevistar. Como mulher, irradia uma luz difícil de encontrar nos tempos de escuridão que estão a tomar conta do mundo. Esta loura com ar de princesa medieval que há anos actuou em Portugal está verdadeiramente apaixonada pela música que faz, uma música que procura trazer para o presente uma magia e um mistério que se perderam algures numa das engrenagens da razão. Estrategicamente apoiada numa editora própria, a Quinlan Road, a cantora canadiana começou por gravar uma série de álbuns como “Elemental” ou “Drive the Cold Winter away” onde a faceta céltica e a new age se combinavam em doses razoavelmente equilibradas e trabalhadas de modo a não se confundirem com simples murais decorativos. Com “The Visit” abriram-se-lhe as portas de um mercado mais alargado. Coincidindo com o aprofundamento de um trabalho de estudo e de aproximação entre músicas e épocas como a Idade Média, a música indiana e as sonoridades árabes, sempre com a tapeçaria e a harpa céltica como pano de fundo, “The Visit” mostrou, por outro lado, os limites da visão musical de Loreena McKennitt. Nesta canadiana dificilmente o bonito se tornará, algum dia, Belo. O seu novo álbum, “Live in Paris and Toronto”, um duplo gravado ao vivo, confirma tudo o que se disse até aqui. Loreena possui uma voz extremamente doce e melodiosa, toca harpa com mãos de fada mas falta à sua música profundidade e um lado escuro que lhe permitisse tirar partido do contraste. Assim, é tudo luminoso, mas de uma luminosidade que de tão suave acaba por se perder numa névoa de manchas sonoras que distraem sem desafiar. Há canções que são um afago, percussões étnicas qb, melodias “célticas”, medievais ou orientalizantes recortadas de folhetos turísticos e, acima de tudo, uma sensação geral de um jardim sem recantos escondidos por descobrir. Fica a imagem do postal da promoção, com Loreena na típica pose de princesa, tocando solitária a sua harpa na nave de uma catedral banhada pela luz azul de um vitral. Um postal, pois… (2XCD, Quinlan Road, distri. Megamúsica, 6).

Pior, muito pior, para não dizer senil, está Alan Stivell. O ex-mago da Bretanha há muito que se perdeu nos meandros de uma “world music” rendida ao império dos dólares mas à época em que foram gravados os três álbuns agora reempacotados e remasterizados em conjunto numa caixa – que, diga-se de passagem, não oferece qualquer dado novo relativo às anteriores edições para além da remasterização – a sua fama e criatividade encontravam-se no auge. “Renaissance de la Harpe Celtique” (1972), “Olympia Concert” (1972) e “Symphonie Celtique – Tir na Nog” (1979) representam três momentos marcantes na carreira do harpista bretão. O primeiro constitui o manifesto orgulhoso de uma cultura e de um instrumento, a harpa céltica, reapossados da sua dignidade e dotados de uma voz que do passado cantava para o futuro. Num lance de magia, a herança céltica subia em maré viva pela folk francesa, abrindo caminho a novos projectos que fariam do hexágono um dos mais sólidos bastiões da folk na Europa. “Olympia Concert” (no original “Alan Stivell à l’ Olympia”) mostrava ao mundo, de forma exuberante, uma música onde o legado tradicional se impunha e exclamava através de uma linguagem eléctrica colhida do rock. Nesse espectáculo (transmitido há muitos, muitos anos pela televisão portuguesa, naquele que foi o meu primeiro e deslumbrado contacto com Stivell) a França espantou-se com a pujança, a originalidade e a ousadia de um jovem músico que viria a tornar-se num dos principais embaixadores da música francesa, mesmo reclamando a diferença das raízes bretãs. Ao lado de Stivell estiveram nesse espectáculo mítico alguns dos músicos que dariam origem a novos e importantes desenvolvimentos da folk francesa. Como Gabriel Yacoub, que viria a fundar os Malicorne, Rene Werneer (L´Habit des Plumes) e Dan Ar Braz hoje, multimilionário com a sua Héritage des Celtes. Culminando um trajecto de fusão da folk bretã com o rock, “Symphonie Celtique – Tir na Nog” alarga este conceito até dimensões planetárias. Alan Stivell atingia o zénite da sua arte, compondo uma sinfonia que reunia num objecto totalitário todas as culturas, sons e línguas conotadas, ou não, com o celtismo. Dezenas de músicos oriundos de diversas nacionalidades – da África à Índia, passando pelas nações celtas – juntaram-se numa gigantesca Babel, cruzamento de dialectos e instrumentos sem igual. “Symphonie Celtique” materializou de forma desmesurada a panvisão de Alan Stivell ao mesmo tempo que pareceu esvaziar em definitivo a sua inspiração. Alan Stivell, como Blake, teve a visão do paraíso mas faltou-lhe o fôlego para se aguentar lá. (Dreyfus, distri. Megamúsica, média 9).

Quem também fez escola mas tem conseguido manter-se a dar lições, são os finlandeses JPP, a mais formidável horda de violinistas oriundos da Escandinávia. Comandados por mestre Arto Jarvela o núcleo de quatro violinos do grupo faz, como se costuma dizer, miséria, ainda segundo os mandamentos de uma segunda batuta empunhada pelo discreto Timo Alakotila, garantindo terra firma com o seu órgão de foles. À semelhança de “Pirun Poolska” (na foto) ou “Kaustinen Rhapsody” o novo “String Tease” induz ao pecado da luxúria, um verdadeiro Champagne Clube do violino. Em variações em torno da tradição e do jazz os quatro violinos despem-se de preconceitos, desnudam os seus segredos e roçam nos ouvidos em danças a quatro vozes de corpo intricado mas com a leveza de borboletas. O grupo sueco Väsen participa como convidado em dois temas sem fazer pesar os pratos da balança para o lado da selvajaria. Para desintoxicar de Hedningarnas e Garmarnas nada melhor do que ouvir JPP. (Rockadillo, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

19/03/2011

Felix Kubin - Filmmusik + Oleg Kostrow - The Great Flashing Tracks From Iwona

Sons

12 de Novembro 1999
POP ROCK

Felix Kubin
Filmmusik (7)
a-Musik, distri. Matéria Prima
Oleg Kostrow
The Great Flashing Tracks from Iwona (8)
Storage Secret Sounds, distri. Matéria Prima

Felix Kubin actuou há dias em Portugal em duas memoráveis “performances” no interior de um cacilheiro, a caminho da sessão de tortura dos Pan Sonic que nos esperava do outro lado do rio. “Filmmusik”, composto por temas retirados de três bandas sonoras para filmes (de animação?) de Mariola Brillowska (“Katharina & Witt, Fiction & Reality”, “Die Contr-Contras”, “Der falsche Spieler” e “Morgenröte”, este co-realizado com o próprio Kubin), não tem o mesmo sentido de humor que Kubin evidenciou ao vivo (do alinhamento de 26 faixas, apenas “Pornodisko” foi tocado no barco), optando por fragmentos vocais dispersos, processos de samplagem aprendidos com o seu mestre e amigo Holger Hiller e ambiências electrónicas que ilustram a dedicatória de Kubin: “Long live psycho sci fi pop!” Bastante mais interessante que o álbum de Kubin é “The Great Flashing Tracks from Iowa”, do seu compatriota Oleg Kostrow. Um extraordinário trabalho de samplagem e colagem, sem costuras, de canções de filmes das últimas quatro décadas, lounge jazz, disco, psicadelismo, drum ‘n’ bass, easy listening e electrónica composto para a banda sonora da peça de teatro infantil “Iowna”, idealizada pelo artista russo Andej Bartenev, antigo colaborador de Paco Rabane e Brian Eno. Alguém definiu esta sinfonia de “flashes” da imaginação como um cruzamento de “Trip Tease”, dos Tipsy, com “Organ Transplants”, de Stock, Hausen & Walkman. Um álbum de pop electrónica leve como o vento. Esqueçam os Air.

Yes - The Ladder

Sons

12 de Novembro 1999
POP ROCK

Yes
The Ladder (7)
Eagle, distri. Música Alternativa

Nos anos 70 e na óptica dos 80, os Yes tinham um grave defeito: sabiam tocar bem os seus instrumentos. Para os punks era ofensivo, sobretudo quando se pretendia facturar recorrendo a todos os expedientes e a música passava para um plano secundário. Lançava-se o argumento da energia, mas mesmo aí a energia que os Yes produziam em dez segundos era superior ao que uma banda punk conseguia suar durante uma carreira inteira. Foi então, quando os Buggles entraram para o grupo, numa tentativa desesperada de modernização do som, que o caldo entornou. Os Yes nem eram os “velhos” capazes de satisfazer os velhos fãs, nem uma nova banda capaz de agradar às gerações mais novas. Os anos 90 assistiram à reentrada do grupo na sua música de sempre, graças à edição dos dois volumes duplos de “Keys to Ascension”. “The Ladder” prossegue o reatamento de uma via precocemente interrompida. Com a formação clássica composta por Jon Anderson, Steve Howe, Chris Squire e Alan White, neste disco aumentada por um segundo guitarrista, Billy Sherwood, e pelo teclista Igor Khoroshev, os Yes conseguiram a proeza de dar frescura a uma música que insiste em permanecer viva à entrada do novo milénio. Jon Anderson continua a cantar como um andrógino, Howe e White respiram saúde, enquanto o novo teclista se apossou do estilo dos seus antecessores, Rick Wakeman e Patrick Moraz. Longas viagens interplanetárias instrumentais, o misticismo do costume e uma homenagem a Bob Marley (“The message”) não envergonham, antes reciclam, um passado ilustre. Até a capa é de Roger Dean.