17/09/2025

Jon Hassell - City: Works Of Fiction

 

Pop

 

O INTRÉPIDO EXPLORADOR

 

JON HASSELL
City: Works of Fiction
LP e CD, Land













            Cada dia que passa, o planeta Terra torna-se mais pequeno. A aldeia global de que falava McLuhan deixou de ser uma utopia (ou antiutopia, consoante a perspetiva...), para se tornar uma realidade insofismável. Apesar disso, permanecem invioláveis (até quando?) culturas e costumes desalinhados da grande metrópole totalitária em que se vai tornando o monstro ocidental. Ao Terceiro Mundo e às regiões exóticas do globo vai uma certa classe de músicos buscar inspiração e orientação para a feitura de complexas síntese formais e conceptuais. Às músicas das diferentes culturas regionais, únicas nas suas particularidades intrínsecas, justapõe-se uma música do mundo, que, justamente, daquelas se serve para a criação de unidades multifacetadas e surreais, o todo transcendendo as partes que o integram. Música universal, juntando na mesma viagem a eletrónica e o artesanato étnico, a emoção primitiva e o racionalismo contemporâneo.

            A partir da massa primordial e informe das pesquisas iniciais, surgiu uma elite de compositores, capaz de filtrar a imensidade de influências e fontes sonoras disponíveis e, de uma forma coerente, produzir uma música para a qual a designação de “nova” não soa despropositada. Roberto Musci & Giovanni Venosta, O Yuki Conjugate, Lights in a Fat City e Jon Hassell encontram-se em fase avançada no processo de análise/síntese seguido na concretização dessa “World Music” englobante e planetária.

            “City: Works of Fiction” é exemplar quanto às intenções e aos métodos de trabalho. A cidade, lugar de concentração e pluralidade cultural, simboliza neste caso o ponto de convergência, cruzamento, feito de sínteses, deslocamentos e desfocagens, transcendente e imanente na medida em que formaliza um impossível folclore universal, retirando (graças às proezas técnicas do sampler) sons e pormenores de um espaço tempo concretos para os reinserir em novos e diferentes contextos. Trabalho de ficção, como o título alude.

            Com este álbum, Jon Hassell aventura-se bem mais longe do que em anteriores trabalhos, por direções e atalhos virgens. Cada tema é acompanhado por um texto, também ele ficcional, inventando história e mitos para uma civilização existente somente nos mapas da imaginação, e desenvolvido musicalmente segundo lógicas que aliam o rigor matemático ao tribalismo tecnológico. O computador surge transfigurado em ícone primitivo, simulando sonoridades étnicas e ambiências naturais traficadas. Mais do que nunca, as sinuosidades em surdina do trompete são uma espécie de vento que passa sobre a selva, visão aérea das cidades dos prodígios. Tal qual a torre de Babel, “Works” combina uma profusão de linguagens díspares, como o funky, a música ambiental, o jazz, a eletrónica, o concretismo e folclores vários, num discurso complexo mas sempre articulado, sem que diversidade das fontes e dos meios resulte qualquer perda de unidade ou coerência. Ao contrário das “Possible Musics” dos primórdios em que o som do quarto mundo se quedava ainda como simples possibilidade, Jon Hassell encontra, com “City: Works of Fiction”, a chave e a passagem que permitem a entrada no novo universo a explorar.

 

VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 15 AGOSTO 1990

"Tommy": a ópera de quem? [The Who]

 

CULTURA SÁBADO, 11 AGOSTO 1990

 

CULTURA

 

Hoje às 21h25 na RTP 2

 

“Tommy”: a ópera de quem?

 

A ópera-rock “Tommy”, de Pete Townshend, volta de novo à cena, comemorando o 25º aniversário dos The Who. À semelhança de “The Wall”, de Roger Waters, é a grande atração pelo espetáculo megalómano, celebrando a ressurreição dos dinossauros.

 


Eles prometem mas não cumprem. Roger Waters afirmara a pés juntos que o caso “The Wall” estava definitivamente encerrado e arquivado. Onze anos depois, em Berlim, foi o que se viu. Que se saiba, Pete Townshend não se mostrou tão radical no renegar do seu herói ceguinho e ás dos “flippers”. Mas foi preciso esperar 21 anos e fracos resultados em termos de vendas discográficas, para que o guitarrista resolvesse também optar pela fórmula “obra magistral – mal compreendida na época – transformada, pelo menos uma década depois, em mega-concerto cheio de artistas amigalhaços convidados, de preferência com Phil Collins, se puder ser”, que tão bons resultados deu com Roger Waters. Que nunca se diga, pois, “desta água não beberei”.

 

Obra conceptual

 

            “Toomy”, o disco, inaugurou a era das óperas-rock. Nestas, narra-se geralmente a história do herói desvalido a quem a vida não poupou, desde os martírios da infância até ao triunfo final. Seja nos traumas provocados pela educação, pais, instituições, enfim, pela sociedade inteira (como os de Pink, em “The Wall”) ou nas enfermidades físicas. Como nos filmes, há sempre um princípio infeliz, cheio de contrariedades e incompreensões; um “intermezzo” em que o herói luta contra inimigos, consigo próprio e o destino, e finalmente a vitória e os louros de um “happy end” afagador das consciências intranquilas. Tommy é cego, surdo e mudo, mas possui um dom inato: é um génio dos “flippers”, dominando a máquina sem fazer “tilt” e elevado pela concorrência ao estatuto de profeta. Pelo meio aparecem uns vilões para dar sal à narrativa, antes do epílogo feliz. Retenham-se do disco a música e canções que o tempo entronizou em clássicos como “See Me, Feel Me”, “Pinball Wizard” ou “I’m Free”.

            Curiosamente, tanto “Tommy” como “The Wall” começaram por ser duplos-álbuns conceptuais, passados para o cinema e editados nos anos derradeiros das respetivas décadas – 1969 e 1979, e finalmente reabilitados este ano, através da realização de mega-concertos.

 

Desfile de vedetas

 

            Ken Russell pegou na história e a partir dela cozinhou um espetáculo espampanante, pretexto para treinar os habituais exageros visuais e fazer desfilar pela tela um cortejo de celebridades pouco à vontade nas respetivas personagens, como Roger Daltrey (no papel principal), Ann-Margret (a mãe ruim – a propósito, para quando o ensaio sobre o papel da mãe castradora, na geração das estrelas de rock?), Oliver Reed (o padrasto), Elton John (o jogador das botas gigantescas), Eric Clapton, Keith Moon (o lendário e já falecido baterista dos The Who, para quem divertir-se consistia em emborcar quilolitros de álcool misturados com tranquilizantes para cavalo, ou em destruir hotéis), Robert Powell, Tina Turner (a “acid Queen”) e Jack Nicholson.

            A história do novo Pinball Wizard volta agora à cena, comemorando os 25 anos do atual trio constituído por Pete Townshend, Roger Daltrey e John Entwistle, num espetáculo com a duração de três horas que conta com a participação de Phil Collins (quem mais?), Billy Idol, Elton John (o único do “cast” original além de Roger Daltrey), Patti LaBelle e Stevie Winwood. Será interpretada a totalidade da ópera-rock, a par de outros êxitos da banda. Prestes a atingir-se o ano 2000, o rock transformou-se na música da terceira idade.

Andrew e a música Poppy [Andrew Poppy]

 

SEXTA-FEIRA, 10 AGOSTO 1990 cultura

 

Compositor heterodoxo em entrevista ao PÚBLICO

 

Andrew e a música Poppy

 

Andrew Poppy é inglês e pertence a uma nova geração de compositores que, partindo das premissas da escola minimalista, enveredou por vias mais heterodoxas e menos dogmáticas – entre o rock e o clássico. Esteve mais uma vez em Portugal e compôs a banda sonora do filme “Nuvem”, da cineasta Ana Luísa Guimarães.

 


PÚBLICO – Não é a primeira vez que visita Portugal e que trabalha com cineastas portugueses.

            Andrew Poppy – Visito Portugal pela sexta vez. Gosto do país e dos portugueses e, sobretudo, de estabelecer relações de trabalho com pessoas interessantes. Há cinco anos, o realizador de cinema Vítor Gonçalves telefonou-me perguntando se podia utilizar o tema “32 Frames”, do álbum “The Beating of Wings”, no seu filme “Uma Rapariga no Verão”. Acedi.

            P. – Tem algum método especial para compor partituras de filmes?

            R. – Não tenho um princípio rígido. Uma das coisas que me interessa é a relação entre o som e a imagem, e as diferentes maneiras de trabalhar esta última. No caso de “Meia-Noite” – também de Vítor Gonçalves – tinha vários “bocados” de música gravados em cassette que se adaptavam às imagens. Já em relação a “Nuvem”, de Ana Luísa Guimarães, a música foi composta especialmente para o filme, tendo para tal utilizado dois estilos diferentes: um mais contemporâneo, com uma batida pop dançável, para as partes de maior ação, aquelas em que aparecem os elementos dos “gangs” de rua; outro mais romântico, em que idealizei uma peça com cerca de 12 minutos que se adapta ao tom geral do argumento. Em qualquer dos casos, dei inteira liberdade à realizadora de escolher as partes que quiser.

 

Lobo minimalista

 

            P. – Incluem-no geralmente no grupo dos minimalistas, ao lado de nomes como Nyman, Glass ou Reich. Concorda com esta classificação?

            R. – Eu e os músicos que referiu pertencemos a gerações diferentes. Temos em comum apenas a utilização de técnicas designadas como “repetitivas”. Nos finais da década de 70, toquei peças de Reich e Glass, com os Lost Jockey. Gosto bastante da música de Glass, atualmente transformada em moda.

            P. – É verdade que trabalhou com os Psychic TV, preocupados com assuntos como a manipulação mental e a magia negra?

            R. – Trabalho em projetos com os quais tenho diferentes graus de identificação. Colaborei com os Psychic TV por volta de 1982, mas não tenho nada de comum com Genesis P. Orridge. Gosto de algumas das suas colagens, em termos visuais, mas não nutro qualquer interesse pela sua música.

            P. – Em “The Beating of Wings”, um dos temas intitula-se “The Object is a Hungry Wolf”. Pode especificar do que se trata?

            R. – De certo modo o lobo sou seu. Só o título dava para um debate interminável, que do ponto de vista jornalístico soaria pretensioso. Tudo parte do trabalho de John Cage, do seu conceito de música considerada como um objeto e da tentativa de minar o facto de ela ser considerada como tal. Nesse tema, procuro situar a minha música e a dos minimalistas sediados em Nova Iorque, que se têm progressivamente afastado das visões extremistas e utópicas de Cage. É um músico que me influenciou bastante. Vejo na sua obra um “corpo de trabalho intelectual”, perfeitamente coerente.

            P. – Na contracapa de “The Beating of Wings” pode ler-se: “A tarefa tradicional do profeta é denunciar os sistemas de vida e de poder que negam a liberdade da carne e da imaginação”. Quer comentar?

            R. – A citação não é minha. Refere-se a Paul Morley, da ZTT, e aparece em todos os discos da editora. Penso que é um pouco pretensioso mas ele não quis retirá-la. Não sou nenhum profeta! Esse tipo de convencimento é uma fraude. Se as pessoas ouvirem a música e gostarem, tudo bem.

            P. – Por que razão convidou a cantora Annette Peacock para participar no álbum “Alphabed (a Mystery dance)”?

            R. – Admiro o seu trabalho. O seu carisma, modo de interpretação, entoação, sensualidade são muito especiais, ligando muito bem com a voz masculina que também aparece no tema.

 

A força da palavra

 

            P. – A propósito desse tema: quem é o misterioso Sr. G?

            R. – Gosto de jogar com o léxico (“The Beating of Wings” = “The Cheating of Things”, “Alphabed” = “Alphabet”…). A minha música pode considerar-se um jogo na medida em que trata de permutas, de interações, não no sentido pejorativo do termo “game” (brincadeira).

            P. – Tem projetos para a gravação de um terceiro álbum? O que se passa com a anunciada composição “Songs of the Clay People”.

            R. – A peça que refere está um pouco posta de parte. Foi acrescentada com mais música e texto, mas não tem ainda forma definitiva. Compus uma ópera que faz parte de uma série encomendada mas, de momento, não tenho planos para a gravar. Há outras peças escritas em diversos estilos que quero retrabalhar, de modo a sintetizá-las numa espécie de “concerto”. Para já, não me encontro ligado a qualquer editora. As companhias de discos não se querem envolver com o que não dá dinheiro e essa parece ser a sua única finalidade. No meu caso, tem sido difícil convencê-las de que a minha música é comercialmente viável. Com a ZTT foi diferente, tinha um estatuto especial. Não me preocupava o facto de ser apresentado ao lado dos Frankie Goes to Hollywood. Acho até divertido que considerem a minha música “poppy”.

Billy espertalhão [Billy Joel]

 

QUINTA-FEIRA, 9 AGOSTO 1990 local

 

RTP

 

Billy espertalhão

 

O ENORME sucesso alcançado por Billy Joel em terras americanas prova até que ponto o mau gosto e a pirosice são apreciados na grande e gorda nação. O “artista” em questão consegue aliar letras de teor literário equivalente às fotonovelas. “Capricho”, a uma música que se estica toda sem conseguir no entanto chegar aos calcanhares de Elton John. Se tivermos em conta que o dito Elton se encontra, em questões de qualidade musical, ao nível da subcave ou talvez mais abaixo, estamos conversados quanto ao lugar que Joel ocupa na hierarquia. Os americanos, contudo, não se deixam enganar por estes preciosismos de índole intelectual e, por isso mesmo, perniciosos. Engolem deliciados a “mensagem” de Billy, como engolem a querida Coca-Cola, como engolem afinal tudo. Criancinhas endinheiradas que correram a comprar “The Stranger”, “52nd Street”, “Glass Houses”, “An Innocent Man”, enchendo os bolsos a um espertalhão, entre muitos outros, que sabe tirar partido das infinitas possibilidades oferecidas pela “Big Apple”.

            Canal 1, às 14h40

25/08/2025

Música da terra [Folk]

 Folk

A DISCOTECA

 

MÚSICA DA TERRA

 

Rock, pop, o estardalhaço, a rádio sempre aos guinchos, as banalidades semanais, acabam por cansar. Saturam-se os ouvidos, esgota-se a paciência e procura-se avidamente o refrigério. Vasculham-se os arquivos e de repente, coberto de poeira, encontramos o rótulo já esquecido: “Folk”.

 

Sorrimos e recordamos, nostálgicos, os anos passados. Era na passagem de uma década para a seguinte. Há vinte anos, mais ou menos. Vivia-se a época da música progressiva. Considerava-se progressiva toda a música que incluísse flautas, cítaras, Mellotron e o obrigatório “Moog synthesizer”. O rock atravessava um momento de descrédito. Na Inglaterra, um grupo de jovens a quem os ritmos urbanos não diziam grande coisa, resolveu olhar para o passado e reviver a tradição da sua terra. De fora, chamaram ao movimento “folk revival”. Fairport Convention, Steeleye Span, Trees, Tudor Lodge hesitavam entre o folclore e o rock, logo, praticavam “folk rock”. Foram aceites como mais um bando de malucos, que outro nome se podia dar a quem se preocupava com os costumes dos “velhotes”, coisas antigas, névoas e lendas ancestrais? O movimento foi moda e, como todas as modas, passou. Esgotado o tempo a que tinha direito, a corrente fluiu, subterrânea. Na nova década em que entrámos, de novo a cíclica explosão. Por cá chegam constantemente novos discos e aumenta a legião dos “maluquinhos da folk”. A Nébula foi pioneira, no capítulo das importações. Seguiram-se-lhe a VGM, a Mundo da Canção, do Porto, a cooperativa Etnia, de Caminha, e agora também a Contraverso entra na corrida, dispondo já em stock de preciosidades do catálogo “Topic”, dos mais antigos e prestigiados das Ilhas Britânicas.

 

Sons rurais

 

            Martin Carthy, conhecem-no os mais sabedores destas antiguidades musicais, dos Steeleye Span, onde cantava e tocava guitarra. Mas talvez se desconheça que gravou inúmeros álbuns a solo ou acompanhado pelo violinista, ex-líbris dos Fairport Convention, Dave Swarbrick. “Second Album”, “But Two Came by” e “Prince Heathen”, estes com a participação do homem do arco que consegue tocar em quinta velocidade com o cigarro aceso ao canto da boca, sem se atrapalhar, e “Byker Hill”, “Crown of Horn”, “Out of the Cut” e “Right of Passage”, de Carthy a solo, os dois últimos anteriormente já importados pela Nébula. A voz de entoações ligeiramente nasaladas como convém neste tipo de música e a mestria guitarrística do ex-Steeleye Span encontram na versatilidade e virtuosismo de Swarbrick o contraponto ideal na interpretação de um reportório constituído principalmente por baladas do cancioneiro rural inglês ou (em menor escala) da tradição medieval palaciana. Recente e abordando a matéria de forma original, o quinteto Brass Monkey, de que faz parte e que integra também John Kirkpatrick, utiliza instrumentos de sopro no desenvolvimento das jigas e “reels” tradicionais. Se soubessem, os colegas do jazz corariam, pela heresia do gesto, pela profanação do saxofone sagrado, nascido com o destino traçado – espelhar e cantar a alma negra através de uma música que, por direito e origem, lhe pertence.

            Kirkpatrick, especialista da anglo-concertina e do acordeão de botões, fez parte dos Albion Band e colabora desde longa data com a cantora Sue Harris, que também toca oboé e saltério. Imprescindíveis são os álbuns “Facing the Music” (só de instrumentais), “Shreds & Patches” e “Stolen Ground”, outras tantas corridas por montes e vales no tempo que medeia entre a magia do meio-dia e o piar do mocho no campanário da igreja, prenunciando a meia-noite.

 

Nos lagos

 

            Robin Dransfield, outrora metade do duo formado com o seu irmão Barry, é outro vocalista de inegáveis talentos, acrescidos aos de arranjador e intérprete. Provam-no as canções de “Tidewave”, antigas, sentidas, vibrantes nas cordas da guitarra esquecida do presente, no poder evocativo de uma sanfona trazida do reino da França. Peça indispensável na coleção de um apreciador que se preze.

            Mais ocidental, a Irlanda assombra pelo mistério de castelos perdidos no meio de escuras florestas, das rochas com histórias para contar, do mar infinito de cujo fundo emergem lendas de sereias e pescadores unidos por inconfessáveis laços. E de muitos lagos, sem “Nessies”, mas encantados por elfos, duendes e fadas, seres que a imaginação tece e por isso são reais. Os Boys of the Lough, ao lado dos Chieftains, afirmam-se como um dos mais antigos e conceituados mestres do “irish folk” e o violinista Aly Bain, um dos seus nomes lendários. “In the Tradition” e “Open Road” são a um tempo conservadores e inovadores no modo como interpretam o folclore irlandês, recorrendo exclusivamente à instrumentação tradicional e à clássica combinação violino/”tin whistle”/flauta, para criar sequências respeitadoras dos cânones, na alternância entre as danças e as baladas vocalizadas. Mais tarde entraria em cena a gaita-de-foles de Christy O’Leary, enriquecendo ainda mais o som dos Boys.

 

Tradição presente

 

            Os House Band não serão tão ortodoxos, mas talvez até por isso a sua música revela-se ainda mais excitante. Os álbuns “Pacific” e “Word of Mouth” divergem na apreciação das temáticas originais, no primeiro caso vogando na serenidade dos “airs” interpretados pelo tin whistle e pela flauta, no segundo soltando-se em extroversões instrumentais e vocais em que a gaita-de-foles e a bombarda fazem a festa. Refira-se por último “Fire in the Glen”, do trio composto por Andy Stewart, Phil Cunningham (dos Silly Wizard) e Manus Lunny, semelhante aos Planxty nas vocalizações do primeiro, despreconceituado na utilização do sintetizador e dos teclados eletrónicos apostados em construir uma música que, embora mais sofisticada, não perde de vista as origens que lhe estão na base.

            A audição de qualquer destes discos constitui uma oportunidade única para todos aqueles interessados em conhecer as diferentes vias e ramificações de um género que constantemente se renova e enriquece, apostado, pelo espírito, o sal e a pedra, na edificação do templo dos celtas, de paredes sólidas, totalmente transparentes. Como um prisma de cristal refractando a luz branca nas sete cores do arco-íris.

 

QUARTA-FEIRA, 8 AGOSTO 1990 VIDEODISCOS

Música para camaleões [David Bowie]

 

SEXTA-FEIRA, 3 AGOSTO 1990 local

 

RTP

 

Música para camaleões

 

DAVID ROBERT JONES, aliás, David Bowie, muda de personalidade como quem muda de roupa. Ziggy Stardust é a máscara mais conhecida mas devemos procurar na própria música os genes das constantes metamorfoses. Salta com a agilidade que só a distanciação permite do “glam” para a “soul”, do “rock” para as experimentações eletrónicas mais radicais. É  alienígena, o homem que veio do espaço. Só “major Tom” lhe faz frente, quando indefeso retira a maquilhagem, frente ao espelho. Adolescente, vindo das estrelas armado de guitarra elétrica, toca num bar em Marte. Inquilino da loucura. Palhaço a chorar na praia, na noite americana. Os astros são assim, mudam constantemente, não sofrem, do alto do Olimpo. De vez em quando, raramente, vem a notícia nos jornais: “Rock ‘n’ roll Suicide”. São loucos, os artistas – comentam aliviados os medianos – e correm a comprar o disco póstumo acabado de editar.

            Com David Bowie é assim, tudo a fingir – camuflagem. A visão do conjunto é possível somente através da fotografia aérea.

            A atração pela loucura ganhou-a do irmão Terry, a quem dedicou “All the Madmen”. “Bewlay Brothers”, ele o são, “Alladin Sane”, budista, de rosto raiado e corpo sem sexo. Ao outro deixem-lhe os Valium e o recetor de TV. Mas podem trocar-se os papéis, como ele gosta, e partir para o azul escuro, depois negro, das profundezas do céu. Contagem decrescente e lá vai o major para nunca mais voltar. “Space Oddity”, dele e de Kubrick.

            O duplo da carne e osso das imagens vendeu o mundo, disfarçado de mulher, vestida de noite, recostada no sofá, dama proibida na capa que teve de mudar. “Hunky Dory”, andrógino ainda, em dedicatórias surreais a Dylan, Warhol, Velvets, “Oh you Pretty Thing”, estavas demasiado à frente para te conseguirem ver de frente, apenas seguiam o teu rasto. De poeira de estrelas, “stardust”, “Starman”, sempre as estrelas e tu Ziggy sempre a olhares para o seu brilho refletido nas latejoulas do fato com que iludes as multidões. Enganaste-os a todos, até D. A. Pennebaker que pensou que era tudo a sério e fez um filme do espetáculo onde já não participavas. “Ziggy Stardust – The Motion Picture” soa a Hollywood, parece condizer, mas em ti nada condiz com o que parece. Deixemo-lo cantar “Jean (Genet) Genie” e imitar os seus iguais nas versões de “Pin Ups”: Who, Yardbirds, Pink Floyd, com Angie imitando o anjo, na pose da capa.

            O cinema sim, sempre, mas também a literatura. “1984”, de Orwell. Bowie antiutópico, violento, “Rebel Rebel”, corpo de cão maldito, “Diamond Dogs” raivosos, exigindo carne fresca e eles, os fãs, obedecem e dão-se em sacrifício, em troca do prazer. Fingiu tornar-se jovem e humano, com a alma que os amrecianos gostam, em plástico. “Young Americans”, “Plastic Soul”, finalmente a “Fame”, com ajuda de John Lennon. “Golden Years”, tempo para regressar à terra pela mão de Nicolas Roeg.

            Diz-se que quando chegou a Londres, à estação Vitória, saudou como os nazis. Ele negou e partiu para outras estações, “Station to Station” até Berlim. Esperavam-no Robert Fripp e Brian Eno. Mutante cibernético, converteu-se à fidelidade matemática da máquina, tornando-se ele próprio mecanismo na trilogia do demonismo sintético: “Low”, “Heroes” e “Lodger”, tratado na arte da despersonalização. Assassino da alma, “yassassin” da emoção piegas do mundo pequeno, super-homem de olhar azul gelado de vidro que ganhou o brilho da pantera em “Cat People” de Paul Schrader. Fera devoradora, Bowie trabalha, toca e canta com Pat Metheny, Giorgio Moroder, Lou Reed, Tina Turner, Bing Crosby. Torna-se “gigolo”, soldado inglês de quem o oficial japonês gosta e homem-elefante, como os monstros de “Scary Monsters, Super Creeps”, o mais terrível de todos é “Baal” de Bertolt Brecht. Mas também figura real entre os bonecos de “Labyrinth”. Dança na rua com Mick Jagger como um “Absolute Beginner”. E quando o rodopio acaba, pega no braço da rapariga e diz-lhe simplesmente: “Let’s Dance”, de preferência “Tonight”.

            Canal 1, às 14h50

Roy Harper - Once

 Pop

 

A SOMBRA DO GUERREIRO

 

ROY HARPER
ONCE
LP e CD, Awareness



















 

           A época da canção de intervenção atingiu o auge na década de 60. Bob Dylan foi o seu profeta e teve seguidores. Em Inglaterra, Billy Bragg não se cala e espeta o dedo em todas as feridas. Roy Harper é um senhor já de certa idade, mas nem por isso deixa de incomodar o “establishment”. “Once” é daqueles discos em que as palavras valem mais do que a música. Há uma mensagem a propagar, valores a defender, podres a denunciar.

            Segue um esquema simples, mas eficaz. O habitual neste campo de guerrilha musical: voz, guitarra a acompanhar, e os arranjos para lembrar que o artista também não descura o aspeto formal da embalagem. Roy Harper não é um cantor qualquer. O seu nome é respeitado, tem currículo. Apesar disso, e de ter já gravado qualquer coisa como vinte álbuns (entre os quais os clássicos “Folkjokeopus”, “Flat, Baroque and Bersek” e “Stormcock”, ou o mais tardio “Bullinamingvase”), afirma que se lhe torna “cada vez mais difícil reconciliar-se com o negócio”. Insistiu em que este disco não fosse gravado nem distribuído por qualquer das grandes companhias.

            Das dez canções que o integram, só três não criticam qualquer coisa. A questão que à partida se levanta é a mesma de sempre: até que ponto funciona e vale a pena uma atitude deste tipo, em que a música popular se arvora como arma, quando as pessoas o que procuram cada vez mais é a evasão. Roy Harper, idealista, acha que sim e que “por vezes é importante ser guerreiro”. Está farto de “assistir ao espetáculo da megalomania fascista” e de “respirar o mesmo ar que o dos políticos, que condenam os desprotegidos, exploram os necessitados e poluem tudo aquilo em que tocam”. Há uma fúria sincera neste disparar de acusações. Vê-se pela cara de mau que ostenta na capa.

            Coloca-se o problema de que, concorde-se ou não com as posições assumidas, se é confrontado com a evidência de que, para além das palavras, o álbum não é particularmente exaltante. Limita-se, na maioria dos temas, ao acompanhamento da guitarra e, nalguns deles, os nomes de David Gilmour e Kate Bush funcionam como chamariz.

            Os poemas são duros, claro, as palavras incisivas e agrestes. Referem-se explicitamente os nomes de Dung, Margaret, Helmut e Mikhail. Em “The Black Cloud of Islam”, o mais violento de todos, que o próprio Harper hesitou em gravar, temendo ser acusado de racista e anti-islâmico, a metáfora em que se tornou hoje a condenação de Salman Rushdie serve como ponto de partida para a denúncia radical das atrocidades cometidas no seio da sociedade dirigida pelo Ayatollah, em nome de uma divindade sanguinária.

            A acusação contra o fanatismo e a intolerância religiosa constitui, de resto, a pedra de toque do disco. Encontra o seu contraponto na homenagem, em “Berliners”, a todos aqueles que, nos últimos 50 anos, combateram em prol da construção da paz e do definitivo irradiar das guerras civis no Velho Continente. E aproveita, como já era de esperar, a deixa que agora a queda do Muro sempre proporciona, para celebrar “a demolição de todas as barreiras e a passagem pacífica dos tempos escuros para um futuro brilhante”. Não há dúvida de que o homem, além de idealista, é ingénuo. Aplauda-se, no entanto, o otimismo e o empenhamento que denota em ajudar a construir um mundo melhor. Se não fossem os discos, o que seria de nós?

 

VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 1 AGOSTO 1990