13/05/2008

Mais jovens do que ontem [The Byrds]

Pop Rock

22 de Maio de 1996
reedições poprock

Mais jovens do que ontem

THE BYRDS

Mr. Tambourine Man (9)
Turn! Turn! Turn! (7)
Fifth Dimension (9)
Younger Than Yesterday (10)
Columbia, distri. Sony Music

Hitchcock fez deles os maus da fita. Mas para um número considerável de novas bandas pop, os Byrds funcionam como uma das referências principais, na arte de conjugar a liberdade das guitarras com a sedução de uma melodia saída directamente do paraíso. O presente pacote de reedições, em separado, dos quatro primeiros álbuns da banda, sucede à anterior caixa produzida por Bob Irwin, que aqui se responsabilizou pelo trabalho de remasterização. Além da notável melhoria sonora, há a destacar ainda a inclusão de seis “bonus tracks”, extraídos na maioria das sessões de “Mr. Tambourine Man”, por álbum, e a reprodução do “design” das capas originais, acompanhado de textos de introdução à história do grupo e de comentários individuais para cada faixa.
“Mr. Tambourine Man”, de 1965, é, ainda hoje, um álbum seminal, fruto da inspiração de quatro individualidades cuja alquimia resultou no casamento perfeito entre a tradição das raízes “country” e um rock urbano simultaneamente enamorado pela melodia e pela electricidade. Dylan e Pete Seeger são os mestres revisitados e devolvidos de forma luminosa pela guitarra encantatória de Roger McGuinn e as vocalizações em órbita de David Crosby, servindo de engodo para as capacidades de composição reveladas por Gene Clark, que nesta estreia do grupo pretendeu “apenas” transcender os segredos vocais já então apresentados ao mundo pelos Beatles.
No álbum seguinte, gravado no mesmo ano e editado em 1966, os Byrds prestam tributo aos espirituais, ao “gospel” (o título do álbum e do tema de abertura, subintitulado “To everything there is a season”, deriva de uma adaptação de Pete Seeger do “Livro do Eclesiastes”), à “country music” e, de novo a Dylan, cuja leitura do texto do clássico “The times they are a-changin’” é aqui inteiramente subvertida. Gene Clark continua a transformar os seus desgostos de amor em grandes canções, enquanto se tornava num hábito o fecho numa veia satírica.
Depois de se terem despedido no álbum de estreia com uma versão da “country singer” Vera Lynn, usada no filme de Kubrick, “Dr. Strangelove”, os Byrds aceleravam e desviavam em proveito próprio a tonalidade do velho “standard” de “cowboys” “Oh! Susannah”, transformando-a numa deliciosa canção pop. Já agora, não, não são os R.E.M. que tocam em “If you’re gone”. Mas a ligação, talvez excessiva, a um certo classicismo, expresso na inteira adesão a modelos estéticos e ideológicos declaradamente norte-americanos como que normalizam “Turn! Turn! Turn!”, afastando-o da maior liberdade de movimentos e criatividade evidente nos outros álbuns.
“Fifth Dimension”, também de 1966, dá um passo gigantesco. Os Byrds descobriam e, até, antecipavam o psicadelismo. As guitarras soltam-se em estruturas cada vez menos lineares, as vozes viajam e redescobrem-se nessa maior profundidade de campo, com as despesas de composição a serem asseguradas maioritariamente por McGuinn e David Crosby, com arranjos orquestrais a cargo do mago da excentricidade, Van Dyke Parks, mas arrumados com método. O título-tema e “Mr. Spaceman” ilustram o gosto do primeiro pela ficção-científica, enquanto a realidade dura e crua se confunde com o pesadelo em “I come and stand at every door”, história da deambulação fantasmagórica de uma criança morta em Hiroxima. O onirismo atinge o auge em “Eight miles high” (vale a pena escutar a versão alternativa incluída na sequência de bónus), uma das mais inspiradas “drug songs” de todos os tempos, ainda que os seus autores a justifiquem com uma falsa inocência, dizendo tratar-se simplesmente de um voo rotineiro de avião… Não que os aviões não estejam presentes na quinta dimensão dos Byrds. O tema final, “2-4-2 fox trot”, voa ao som dos reactores de um jacto, numa curiosa antecipação de um certo “industrialismo” alucinatório, enquanto “Hey Joe (where you gonna go)” fala sem truques na manga da mentalidade “hippie”, que, mais ou menos na mesma altura, Frank Zappa arrasava pela sátira na recriação deste mesmo tema incluído no genial “We’re only in it for the Money”.
Se “Fifth Dimension” é a porta de acesso ao jardim, o álbum seguinte, “Younger than Yesterday”, editado em 1967, dá a conhecer cada canteiro dos “Mind gardens” descritos na quase “raga” vocal com este nome assinada por David Crosby. As tensões entre os vários músicos, que então ameaçavam a estabilidade do grupo, originaram um conjunto inigualável de canções, no meio das quais não é possível detectar uma única nota ou verso “para encher”. Do balanço corrosivo adornado por um naipe de sopros de “So you want to be a rock’n’roll star” até às “trips” de LSD do caleidoscópico “Renaissance fair” e “Thoughts and words”, passando pela intrusão de vozes alienígenas em “C. T. A. – 102” (a propósito do qual propomos, à laia de diversão, um jogo de adivinhas com solução em “Wolf City”, dos Amon Düül II…), “Younger than Yesterday” ergue-se como um rival de obras como “Sgt. Pepper’s”, dos Beatles ou “Pet Sounds”, dos Beach Boys, enquanto testemunho global e visionário – embora através de um discurso que não poderia ser mais personalizado – das vibrações, sonhos e inquietudes de toda uma geração.

Frank Zappa - Läther

Pop Rock

30 de Outubro de 1996
reedições poprock

Baba de vaca

FRANK ZAPPA

Läther (10)
3xCD Rykodisc, distri. MVM


O homem continua vivo. O homem e o génio. “Läther” (sem trema, significa baba…) não é apenas mais um punhado de material desenterrado do vaso de cinzas do defunto, mas, de facto, “the great lost Frank Zappa album”, a peça que faltava no imenso “puzzle” deixado para a posteridade por um dos maiores compositores deste século.
Inicialmente pensado por Zappa para ser editado em 1977 na forma de uma caixa com quatro álbuns em vinilo, apenas agora, 19 anos após a ideia original, vê a luz do dia, num triplo compacto reunindo material inédito, entre temas e versões nunca editados e remisturas alternativas, que acabaram por surgir no mercado em quatro álbuns separados, entre 1978 e 1979.
Lá dentro, é o delírio. Nada soa a requentado ou a lixo reciclado, como é costume acontecer com frequência em projectos desta envergadura. Pelo contrário, as múltiplas vertentes da música do autor de “We’re only in it for the money” adquirem aqui um relevo ainda maior, experimentando a cada momento novas hipóteses e fórmulas. Pequenos desenhos animados alternam com ridicularias vocais na fronteira da demência, solos de guitarra iluminada cedem o passo a sinfonias de complexidade quase paranóica. Está aqui tudo: as invenções e desinvenções de estilo, os contextos e a sua descontextualização, a forma e o paradoxo cultivados milimetricamente e com a distanciação dos deuses por Zappa.
Frank Zappa transformou as linguagens populares e eruditas – a “surf music”, o “hard rock”, os “blues”, a pop imbecil, o jazz, a canção de variedades, o serialismo, a música concreta, a música de câmara, a electrónica – em espectáculo, metendo-as todas no mesmo saco. Um saco sem fundo onde o seu cérebro fervilhante ia buscar alimento, moendo e deglutindo, ironizando e destruindo, desmontando e remontando de novo, até transformar toda essa matéria-prima num ser sonoro e conceptual autónomo que deixou em ruínas e sem capacidade de resposta a concorrência.
Talvez por esse motivo, Frank Zappa teve sempre a sua música arrumada num compartimento sem vizinho do lado, resguardando-se, ou protegendo-se, para construir sem entraves uma obra que até ao fim se regeu por normas que a mais ninguém se aplicavam e que apenas aproveitaram a quem tinha uma visão, pelo menos, de tão longo alcance como a sua. Frank Zappa, repetimo-lo com uma reverência aumentada e reavivada pela audição de “Läther”, era um génio.
Foram então dois grupos igualmente geniais os únicos capazes de assimilar algumas das suas regras para construírem, por sua vez, obra própria e intransmissível pelo lado das aparências: Faust e Henry Cow. Ambas as formações marcaram a música sem rótulos, mas avançada e desestabilizadora dos anos 70, fazendo escola pelas décadas seguintes (Negativland e todo um séquito de mentes bizarras, no caso dos germânicos; a imensa legião “Recommended”, no caso dos ingleses, liderada por Fred Frith e Chris Cutler).
Zappa foi o director, o professor e o contínuo da universidade. A matéria que leccionou e com a qual brincou durante toda a vida foi a música em estado puro. E é música em estado puro que percorre “Läther” da primeira à última faixa. Impossível destacar pormenores. Quando pensamos estar num lugar, já estamos sem remédio noutro. Quando pensamos poder descansar no conforto de um assento de um auditório clássico, somos abanados por uma anedota. E quando nos dispomos a rir da anedota, já o universo se modificou de novo e o cenário tanto pode ser um “blues” de alta voltagem como a visita, sem guia, pelo interior de uma construção barroca.
“Läther” exige que se lhe preste atenção. “Läther” torna banais as caganitas sonoras que, passados 20 anos, nos infestam os ouvidos a cada instante. “Läther” obriga a consultar, uma vez mais, toda a discografia do músico. “Läther” reduz a pó o tempo. “Läther” ficará, como ficou a maioria dos álbuns de Zappa (sim, porque há coisas dispensáveis, sobretudo nos anos 80…), connosco para sempre, obrigando-nos a reflectir. A capa de “Läther” é uma vaca, a mais louca das bovinas. Uma exagerada vaca de brinquedo, sobre um pasto exageradamente verde, sob um céu exageradamente azul. Porque Zappa sempre foi exageradamente Zappa.

Jean Michel Jarre - Hong Kong

Pop Rock

8 de Março de 1995
álbuns poprock

Jean-Michel JarreHong Kong
DREYFUSS, DISTRI. POLYGRAM

O velho jarreta volta ao ataque. Conhecido por ser casado com Charlotte Rampling, dar concertos para plateias com um mínimo de um milhão de pessoas e tocar harpas de luz, Jean-Michel Jarre há muito que esgotou as suas capacidades como músico, que não as de “entertainer”. Depois dos concertos na China, aproveitados por Jarre como operação de “marketing”, para divulgação de tecnologia electrónica naquele país, chegou a vez de Hong Kong ser confrontada com a pirotecnia sonora e visual que desde os últimos anos constitui a única razão de ser do jarreta. É uma chatice do princípio ao fim, escutar os sintetizadores, computadores, esquentadores e outros interruptores digitais, a despejarem sons a metro sobre as multidões embasbacadas. À música, já de si aborrecida nas versões de estúdio, de “épicos” como “Chronologie”, “Rendez-vous” e “Equinox”, juntam-se um excerto do velhinho “Oxigène” e a característica piscadela de olhos aos naturais do território, naquele registo “olhem tão amigalhaço e aberto de espírito que eu sou!”. Jarre, por sinal autor de dois bons álbuns, “Zoolook” (o tal com Laurie Anderson e Adrian Belew…) e “Waiting for Cousteau” (com o tema de 42 minutos de ambiências subaquáticas), representa na actualidade tudo o que de mais piroso e retrógrado pode dar à música electrónica uma má reputação. (2)

Hector Zazou - Chansons Des Mers Froides

Pop Rock

15 de Março de 1995
álbuns poprock

ESQUIMÓ FRESQUINHO

HECTOR ZAZOU

Chansons des Mers Froides (8)
Columbia, distri. Sony Music

Afastada a pesada cortina tecida numa lista interminável de convidados (Björk, Lightwave, Barbara Gogan, Mark Isham, Budgie, Brendan Perry, Suzanne Vega, John Cale, Sara Lee, Marc Ribot, Jerry Marotta, B. J. Cole, Lone Kent, Jane Siberry, Siouxsie, Harold Budd e Balanescu Quartet, mais, da área tradicional, Lena Willemark, Ale Moller, Angelin Tytot, Catherine Ann-McPhee e Värttina, entre outros…), o que une estas “Chansons des mers Froides” é a organização de signos e correntes musicais de sinal divergente num corpo musical que Hector Zazou define como um instrumento de “mudança do mundo”. Ou seja, dito por outras palavras, mais uma tentativa de criação de uma música global, Babilónia ou biblioteca Borgiana onde se arrumam todas as músicas conhecidas. Tarefa hercúlea na qual Hector Zazou possui no entanto já alguma experiência. Das experiências surrealizantes com os ZNR até à colagem do psicadelismo dos anos 60 com a música africana e a polifonia electrónica de “Reivax au Bongo”, passando pela etnopop computorizada de “Noir et Blanc” e o “disco” mutante de “Guilty” até ao neoclassicismo de “Géographies” e “Géologies”, Hector Zazou demonstrou sempre a mesma sede de síntese, necessariamente estabilizada a partir de um ponto de fuga situado por norma em conceitos extramusicais ou ao nível de leituras imaginárias de um pretenso folclore universal. No primeiro caso, está “Sahara Blue” numa vertente literária centrada na figura do simbolista Arthur Rimbaud, enquanto no segundo se inclui a experiência com as novas polifonias corsas. “Chansons des Mers Froides” é um projecto de trabalho, curiosamente gravado em 1992 mas só agora lançado no mercado, sobre as músicas tradicionais da Sibéria, Alasca, Gronelândia, Ilhas Hébridas, Suécia, Finlândia, e Japão, cuja matéria-prima são as canções de marinheiros, “airs” de localização e data que “se perdem na origem do tempo” e “melodias ainda vivas no quotidiano das populações tribais do Grande Norte”. Projecto do qual os posteriores “Les Nouvelles Polyphonies Corses” e “Sahara Blue”, apontados mais para Sul, seriam o contraponto “quente” deste novo lote de canções agora editado em conjunto com uma colecção de gravuras fotográficas alusivas às regiões frias. Claro que há uma dose enorme de humor em tudo isto e que tanta teorização pode ser encarada como uma monstruosa “boutade”, já que Zazou se diverte a confundir as pistas e a jogar em vários tabuleiros ao mesmo tempo. “Chansons des mers Froides” é uma hidra de múltiplas cabeças que se agitam em várias direcções, da música de dança às colisões industriais, do ritualismo ao jazz, do canto étnico à cançoneta, da electrónica ambiental ao concretismo bem comportado. Um truque de prestidigitação com as cores de uma aurora boreal.

Lisa Germano - Geek The Girl

Pop Rock

16 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

JÓIAS NO FUNDO DO POÇO

LISA GERMANO

Geek the Girl (9)
4AD, distri. MVM

“Happiness”, o anterior álbum da cantora, editado já este ano, tem quanto a nós lugar assegurado na lista dos melhores de 1994. O novo “Geek the Girl” recupera a mesma fórmula, eliminando os (poucos) pontos menos conseguidos do seu antecessor, concretamente certas inflexões acústicas na balada “country” que, funcionando com intervalos de pausa, provocavam contudo uma quebra de intensidade emocional (e eléctrica) prevalecente. “Geek the Girl” depura esse e outros aspectos de “Happines”. Musicalmente, o álbum pauta-se por uma toada de transe, por uma vibração perturbante de dolência magoada de alguém que se refugiou num mundo ao mesmo tempo perverso e infantil, um mundo a fingir introduzido logo de início pela melodia ao estilo carrocel-mágico de “My secret reason”, em que os medos se transformam em bonecos de brinquedo e os tabus são trucidados pelas rodas de um comboio eléctrico. Numa canção como “Câncer for everything” ou no instrumental “Phantom love”, o mesmo tipo de vibração, hipnótica e arrastada, mas agora mais complexa e ornamentada, que os Velvet Undergound inauguraram no álbum da banana no tema “Venus in furs”.
O sexo, o sentimento de culpa, a fragilidade emocional aliada a uma lucidez extrema servem de novo a Lisa Germano para desnudar o seu universo interior de mulher ferida. Suspeita-se de que com algum artificialismo, ao lado de uma dose bem medida de teatro, de tal forma os diversos quadros mentais e emocionais são burilados ao pormenor. Neste aspecto, “Geek the Girl” vai ainda mais longe do que “Happiness”, retocando melodias que ainda ecoam do disco anterior, acentuando cada imagem com uma variedade maior de cores e tonalidade (um dos temas tem por título, precisamente, “…Of love and colors…”). Também como em “Happiness” não faltam as “punch lines” poéticas e as quase lengalengas em constante transmutação interior, que colocam o auditor num estado de total dependência, aqui representadas por “Sexy little girl princess” ou o tema final, “Stars”, que se diria arrancado da mesma galáxia onde orbita Lou Reed. A história de “Geek the Girl” é a “história de uma rapariga que se sente confusa sobre como ser, ao mesmo tempo, sexual e controlada neste mundo, mas que afinal chega à conclusão de que não é controlada e constantemente abusam dela sexualmente, fica como que doente e tem tendência para desistir e, apesar de tudo, tenta acreditar em qualquer coisa maravilhosa e sonha em amar um homem, na esperança de que este a salve da sua vida de merda”. Uma história triste, que Lisa Germano termina com uma gargalhada cruel e sem esperança: “Ah, ah, ah, que traste!” (“geek”). Um álbum escuro, húmido e fundo como um poço. (9)

Dead Can Dance - Toward The Within

Pop Rock

7 de Dezembro de 1994
ÁLBUNS POPROCK

Dead Can Dance
Toward The Within
4AD, distri. MVM

Um disco ao vivo dos Dead Can Dance não parece muito apropriado. Mas é o que acontece em “Toward the Within”, gravado este ano no Mayfir Theatre, em Santa Mónica, na Califórnia. A primeira conclusão a tirar é que ou os Dead Can Dance estão a tocar como gente grande ou o engenheiro Guy Charbonneau teve uma trabalheira para fazer a coisa soar como um disco de estúdio. Seja como for, os Dead Can Dance estão cada vez mais étnicos e góticos. E chiques. Lisa Gerrard canta a preceito nos temas “étnicos”. “A capella” em “Persian love song”, como estivesse no túmulo, no tradicional irlandês “The wind that shakes the barley”, demoníaca, qual uma Diamanda Galas indiana, em “Cantara”, mostrando que andou a ouvir as grandes vozes da “antiga”, no tradicional catalão do séc. XVI, “Song of the sibyl” (de que recordamos a exponencial interpretação de Monserrat Figueras com os Hesperion XX), soleníssima em “Tristan”, magnífica e trágica em “Sanvean”. Brendan Perry vocaliza em esforço as canções mais convencionais, como o ultragótico “I am stretched on your grave”, “I can see now” (um “American dreaming” certamente composto em homenagem ao local da digressão) e o tema final “Don’t fade away”. Nos temas exóticos, surpreende a ousadia com que imita certas técnicas vocais árabes, em “Rakim”. “Yulunga” é um cântico tétrico, na linha do que fizeram os SPK em “Zamia Lehmani”, e um sinal de que a luz que ilumina os Dead Can Dance, por muito religiosa que a sua música aparente ser, está longe de ser a do sol. (6)

David Byrne - David Byrne...

Pop Rock

18 de Maio de 1994
ÁLBUNS POPROCK

NU NO FIM DA ESTRADA

DAVID BYRNE
David Byrne...
Luaka Bop, distri. Warner Music

Apenas um nome a encabeçar um conjunto de canções que nas palavras do próprio Byrne são as suas mais intimistas de sempre. Mesmo levando em conta que com ele nunca se sabe onde termina a sinceridade e começa a simulação. Tenha-se em consideração as reticências!... No início de “David Byrne…” – primeiro álbum de título homónimo na carreira de Byrne, com o carimbo na produção de Arto Lindsay e Susan Rogers (Prince, Michael Jackson…) –, um cowboy desce das nuvens. Entre brumas, num quase sussurro. O ritmo instala-se logo de seguida, abrupto, à boa maneira dos Talking Heads, com Byrne a cantar, a gritar, a declamar e a auto-estimular-se, em “Angels”. Recuo aos anos 50 em “Crash” que poderia ser um bom complemento para o álbum de estreia dos Roxy Music. O vibrafone de Mauro Refosco, um dos elementos da nova banda de Byrne, juntamente com Todd Turkisher na bateria e Paul Socolow no baixo, introduz e dá o mote ao longo de todo o tema seguinte, “A self-made man”, possuidor de um balanço que prende de imediato a cabeça e o espírito. O sinal de alarme soa no tema seguinte, “Back in the box”, na guitarra do ex-cabeça falante cujas canções falam, segundo o seu autor, de “sexo, nudez, amor, violência, inocência, morte, fuga, da América e do mundo – depois da vida, depois do medo”, sobre o ritmo sincopado que desde sempre caracterizou os Talking Heads. “Sad song” vem a seguir e confirma o regresso à pureza das linhas melódicas de “Talking Heads’ 77”. Neste caso já infiltrada pela influência da batida sul-americana que Byrne aprendeu a dominar a partir da voragem carnavalesca de “Rei Momo”. O Brasil e a bossa-nova emergem na introdução de “My love is you”, outro tema em que a simplicidade predomina, derivando para os lugares para onde a vocalização imprevisível de Byrne o leva.
O segundo lado (nas versões vinil e cassete, claro) abre com nova semideclamação sobre um ritmo ultra “cool”, em “Nothing at all”. Confirma-se a tendência para um som mais depurado que dispensa o alarido de secções de metais ou de harmonias vocais complexas. Percebe-se agora que o álbum anterior, “Uh-Oh”, era um momento de transição para a desaceleração e o intimismo desta nova fase do compositor nova-iorquino. Nova história, novo “puzzle” de recortes e retalhos do quotidiano. Só que agora com a focagem regulada. “Penso que este disco, considerado como um todo, tem algo para dizer. Ele fala de mim, da minha vida, de como vivo e de como me relaciono com as pessoas”. O quebrar dos espelhos e das muralhas. A estrada de “True Stories” que parecia terminar sempre além do horizonte deixa de funcionar como limite paralisante para passar a ser lugar de encontro. Não há dúvida que as imagens e a mensagem são agora mais directas. Como directo é, por exemplo, o terrível solo de vibrafone que vai ao fundo da questão, que é como quem diz, à essência do “swing”, no fecho de “Lillies of the valley”. Ao David Byrne conceptualista dos três primeiros álbuns a solo, “Songs from the Brodway Production of ‘Catherine Wheel’”, “Songs from the Knee Plays” e “The Forest”, ao explorador das músicas do terceiro mundo de “Rei Momo” e após o intervalo de espera algo inconsequente de “Uh-Oh”, segue-se o David Byrne compositor que se redescobriu a olhar o mundo (mais ou menos) de frente. Sob este aspecto, “David Byrne…” consegue reunir um naipe de canções apenas comparável ao dos quatro primeiros discos dos Talking Heads, correspondentes ao período dourado compreendido entre a estreia “77” e “Remain in Light”. A euforia da América do Sul, embora filtrada por uma sensibilidade declaradamente pop, regressa em força em “You & eye”, um dos temas mais vocacionados para a dança de “David Byrne…”. “Strange Ritual”, a composição mais longa, remete para a respiração de sombras e claustrofobia de “Fear of Music” enquanto o tema final “Buck naked” – o único do novo disco que integra a compilação vídeo de longa duração “Between the Teeth” – não anda longe de soar em certas alturas como uma “pastiche” de Lou Reed. Um final estranho mas onde as palavras, por uma vez e num instante de iluminação, não se escondem atrás de segundos sentidos. Num disco em que David Byrne procedeu a uma operação de limpeza e depuração até hoje sem precedentes na sua carreira: “Estamos todos nus (…) nus por dentro (…) estou nu coração, nu na minha alma (…) não há nada a recear, nada que possas fazer”. Um longo adeus a Nova Iorque, à América e ao mundo, vistos de longe, vistos do alto, “depois da vida e do medo” – “na casa do Senhor”. Os anjos que no início desceram à terra para mostrar a David Byrne a realidade vista ao nível do solo em vez da perspectiva aérea em que se refugiava antes, cumprida a missão, voltam a casa. O “gospel”, novamente e sempre como ponto de fuga e de chegada de um artista que parece ter encontrado em Deus o último dos interlocutores. (8)