29/06/2008

Progredir de A a Z

Pop Rock

5 de Junho de 1996

“Work in progress”

Progressivo. O termo seduz muitos e assusta alguns. Hoje, porém, já há quem escreva, sem vergonha, coisas como “progressive house”, “progressive techno”. Mais do que uma estética ou um estilo, o Progressivo foi – é -, antes de mais, uma atitude que vingou em Inglaterra, entre 1970 e 1975. Todas as modas que atravessaram a década seguinte não foram suficientes para apagar aquela que foi uma das épocas mais originais e produtivas da música popular. É assim que 1996 assiste à consagração de velhos dinossauros como os Jethro Tull, este ano nas comemorações do seu 30º aniversário, mas também ao ressurgimento de fenómenos como “rock alemão”, ou Krautrock, na expressão agora recuperada por Julian Cope, no seu livro “Krautrock Sampler”, tornado bíblia do Progressivo. Grupos como os Faust, Amon Düül II, Can e Neu! voltaram a gravar e a tocar ao vivo, com os primeiros a assinarem um dos grandes álbuns do ano passado, “Rien”. O facto ganha maior relevância quando se sabe que bandas recentes como os High Llamas ou Stereolab reivindicam os papas do rock alemão como uma das suas principais influências. Quem se aproveitou do período de sombra que cobriu o Progressivo, em Inglaterra, ao longo da década de 80, foram os chamados “neo progs”, aprendizes bem-intencionados mas de magros recursos no que respeita a criatividade e personalidade próprias, que copiaram sem moderação os modelos antigos. “Neo progs” como Marillion, Twelfth Night, Pallas, I. Q. ou Pendragon. Pelo contrário, editoras como a Cuneiform ou Recommended, mantiveram acesa a chama, com muitos dos seus artistas a passarem por uma quase clandestinidade sob o caudal das modas, enquanto outras, como a francesa Musea, a Si-Wan coreana ou a Repertoire alemã, se têm dedicado sobretudo à reedição tanto de clássicos como de trabalhos mais obscuros do Progressivo, preenchendo um mercado em franca ascensão. Os verdadeiros “progressivos”, posteriores aos anos 70, de um e do outro lado do Atlântico, davam por nomes tão estranhos como Univers Zero, Art Zoyd, Birdsongs Of The Mozosoic, Aksak Maboul, 5 Uu’s ou Motor Totemist Guild. Por outro lado, a implantação das chamadas “músicas do mundo” provocou um interesse renovado pelas bandas pioneiras do folk “progressivo”. Numa altura em que cada vez mais bandas novas descobrem as virtudes da electrónica analógica, o PÚBLICO apresenta o seu manual de orientação, de A a Z, do Progressivo.


PROGREDIR DE A A Z

Americanos – Foram eles que deram má reputação ao Progressivo, conotando-o com o “rock sinfónico”. Mas a decadência vingou, nos Boston, Kansas, Journey e quejandos.

Bandas – Na década de 70, o colectivo sobrepôs-se ao individual. Foram os grupos que ficaram para a História. Era difícil a uma pessoa só tocar 40 instrumentos ao mesmo tempo… Personalidades, houve Robert Wyatt, Kevin Ayers, Daevid Allen (os excêntricos de Canterbury), Brian Eno, John Martyn, Nick Drake, Neil Ardley, Mike Oldfield e o seu parceiro das orquestrações David Bedford, Roy Harper, Robert Fripp. E David Bowie e Peter Gabriel, mundos à parte. E Peter Hammill, um mundo ainda maior e mais à parte.

Canterbury – Em 1961, um grupo de estudantes de arte – Robert Wyatt, Mike Ratledge, Kevin Ayers e Daevid Allen – formava na pequena localidade de Canterbury, no Sul de Inglaterra, um grupo, os Wilde Flowers, que estaria na origem do subgénero mais importante e “cool” do Progressivo e ficaria para sempre designado pelo seu local de origem. O som “canterbury” caracterizava-se por vocalizações pastoris, experimentalismo pop, jazz diletante e um órgão electrónico saturado de “fuzz”. Soft Machine, Gong, Egg, Caravan, Hatfield and The North, Gilgamesh, Matching Mole, os primeiros Camel, National Health, Soft Heap, Khan são nomes de ponta de um movimento que nos Estados Unidos se prolongou pelos Happy The Man, However e Muffins. No Japão, os Ain Soph são os representantes oficiais de Canterbury. Na Internet, existem pelo menos dois sítios que lhe são dedicados – Calyx e Musart.

Dean, Roger – Não se falava em crise e as capas dos álbuns desdobravam-se em metros e metros de papel. Álbum “progressivo” digno desse nome era obrigado a ter uma capa de abrir. Entre os desenhadores de capas que fizeram escola, Roger Dean distinguiu-se pelo onirismo e originalidade dos seus traços, criando um estilo inconfundível que outros, depois dele, copiaram. Ficaram célebres as capas dos Yes, mas também os Budgie, Greenslade, Gentle Giant, Uriah Heep e Osibisa tiveram a sua música embrulhada nos sonhos gráficos de Roger Dean. A capa do “Mellon Collie”, dos Smashing Pumpkins, é “progressiva”.

Electrónica – Fez escola na Alemanha, mas também em Inglaterra (David Vorhaus/White Noise, Seventh Wave, Ron Geesin, Tonto’s Expanding Head Band), Itália (Franco Battiato, Pierrot Lunaire), Estados Unidos (Ned Lagin, Beaver & Krause) e, sobretudo, em França, sob a tutela de Pierre Henry (Pôle, Heldon, Lard Free, Bernard Szajner, Alan Markusfeld). A parafernália electrónica posta à disposição dos músicos favoreceu igualmente o aparecimento de monos como os de Hot Butter, primeiro grupo a levar a pop electrónica ao 1º lugar do “top” de singles britânico, com “Popcorn”.

Folk “progressivo” – Nasceu da fusão do psicadelismo com a folk tradicional, casando bem com a inventividade do Progressivo. Steeleye Span, Fairport Convention, Pentangle e Strawbs inventaram o “folk rock”, deixando para as bandas “menores” a missão de se perderem em sons menos catalogáveis. Trees, Dando Shaft, Spirogyra, Mellow Candle, Dr. Strangely Strange, Tudor Lodge, Magna Carta, Trader Home, Forest, C.O.B., Fuchsia… Os Incredible String Band constituem uma lenda à parte. Na altura eram “hippies” e loucos. Em 1996, começa-se a compreendê-los.

Gentle Giant – Os estetas do movimento. Fizeram a síntese da música contemporânea, das polifonias medievais, no minimalismo, da “folk”, do “hard rock”, do psicadelismo, de tudo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Os manos Shulman e o teclista Kerry Minnear tocavam todos os instrumentos e todas as culturas, “Gentle Giant”, “Acqiuring The Taste”, “Three Friends”, “Octopus” e “In A Glass House”, os cinco álbuns da fase inicial, são obras-primas do Progressivo que ainda hoje se escutam como se fossem novidades.

Harvest – Selo célebre, dos poucos a poder competir com a Vertigo. O seu maior troféu são os Pink Floyd e as capas da Hypgnosis, que se juntaram no marco do Progressivo, “Atom Heart Mother”. Albergou uma chusma de lunáticos: Tea & Symphony (“Na Asylum For The Musically Insane” deve ser o álbum mais esquizofrénico de todo o Progressivo ou lá o que for…), Battered Ornaments, Pete Brown & Piblokto, Quatermass, The Greatest Show On Earth, Third Ear Band, Forest…

Italianos – Em Itália, os “progressivos” liam pela pauta, não desdenhando a sua herança clássica. Van Der Graaf Generator, King Crimson e Emerson, Lake & Palmer foram os modelos eleitos por grupos como Premiata Forneria Marconi, Banco, Celeste, Le Orne e Il Balletto di Bronzo. Bastante mais interessantes são as propostas radicais dos Area, Arti & Mestieri, Dedalus, Stormy Six ou Picchio Dal Pozzo, que preferiram expor-se à audição de Zappa e dos Henry Cow.

Jazz – Miles Davis aproximou-se do Progressivo em “Pangaea”. E Sun Ra, nos álbuns com lados inteiros com solos de Moog, como a gravação ao vivo “Nuits de la Fondation Maeght” e “It’s After the End of the World”.

Krautrock – Julian cope recuperou para a actualidade um termo que designa uma infinidade de propostas musicais originárias da Alemanha. A “kosmische Muzik” de Klaus Schulze, Ashra e Tangerine Dream. O rock anarquista dos Guru Guru, Grobschnitt, Amon Düül II e Floh de Cologne. O romantismo dos Wallenstein, Hoelderlin e Parzival. O tribalismo dos Can e Embryo. O jazz-rock híbrido dos Release Music Orchestra, Annexus Quam e Kraan. O misticismo dos Popol Vuh e Yatha Sidhra. O industrial “avant la lettre” dos Cluster e Kraftwerk. O minimalismo dos Neu!, Harmonia e La Dusseldorf. A revolução total dos Faust. Pete Namlook, Jeff Greinke, Peter Frohmader, Holger Hiller e Asmus Tietchens são alguns dos seus actuais sucessores.

LSD – Lucy desceu do céu e trouxe diamantes. O consumo baixou, em comparação com a gulodice dos psicadélicos que na década anterior provocaram a ruptura de “stock”. Os “progressivos” também tomaram a pastilha mas a necessidade de rigor não se compadecia com as desbundas do “acid rock”. Os filósofos “sérios” e a literatura fantástica e de ficção científica foram dissecados enquanto Timothy Leary ficou guardado para os feriados. Era preciso ter a cabeça no lugar, para juntar o onirismo a um perfeccionismo por vezes quase maníaco. Os Gong nunca tiveram esse problema…

Moog – Durante o Progressivo, o reinado das guitarras cedeu ao dos teclados electrónicos. O sintetizador Moog e o “mellotron”, um órgão de cassetes que reproduz sonoridades orquestrais, funcionaram como símbolos da aventura sonora de uma época. Actualmente, assiste-se à recuperação destes dois instrumentos. Nenhum “sampler” conseguiu igualar o calor do LFO (Low Frequency Oscillator) do velhinho Moog analógico. É preciso ouvir “Lucky man”, dos Emerson, Lake & Palmer.

Nórdicos – Apanharam a tempo o comboio. Jazz, pop transviada, folk, minimalismo. Wigwam, Tasavallan Presidentti, Burnin’ Red Ivanhoe, Sammla Mammas Manna, Day of Phoenix, Bo Hansson. Lars Hollmer e Pekka Pohjola são dois dos maiores compositores europeus da actualidade. A Resource tem estado atenta no capítulo das reedições.

Orquestras – Nunca casaram bem com o Progressivo, paradoxalmente um movimento que muitos, de forma errada, definiram como “rock sonfónico”. As experiências dos Moody Blues, Procol Harum, Deep Purple e Rick Wakeman ficaram como curiosidades.

Peel, John – O papa do éter britânico. Passou no mítico Top Gear da Radio One (vencedor crónico dos “polls” da imprensa musical na década de 70) os grupos todos. Criou a sua própria editora, Dandelion. Algumas das suas “Peel sessions”, gravadas ao vivo no estúdio, são pérolas do Progressivo, como as dos Can e Soft Machine.

Quantidade – De instrumentos, de cartão para as capas, de títulos incríveis, de tendências absurdas, de palavras incompreensíveis, de golpes de génio. O Progressivo foi o reino da quantidade e do excesso. Uma cornucópia a jorrar para os anos 90.

Recommended Records – A editora mais “progressiva” dos anos 80, fundada pelo baterista e teórico dos Henry Cow, Chris Cutler. Nela estão registadas algumas das propostas mais arrojadas deste período: Art Bears, Cassiber, Wha Ha Ha, After Dinner, Steve Moore, Biota, Jocelyn Robert, Univers Zero, Negativland, Charles W. Vrtacek. Tem editoras irmãs espalhadas pela Europa: Rec Rec, Woof, These, No Man’s Land, Points East (dedicada à música do Leste)…

Segunda linha – Se os grupos principais, ingleses, do movimento, Genesis, Camel, Gentle Giant, King Crimson, Van Der Graaf Generator, Yes, Jethro Tull e Gryphon, foram aqueles que ficaram nos registos, outros houve, com menor projecção mediática, que definiram as linhas menos ortodoxas do Progressivo. É por estes que o coleccionador se interessa, idiossincrasias às quais o tempo conferiu uma aura de mistério. East of Eden, Ben, Tea & Symphony, Secondhand, Gracious, Gnidrolog, T. 2, Stackridge, The Greatest Show On Earth, Clarck Hutchinson, High Tide, Comus, Spirogyra, entre muitos outros, mais do que os consagrados, sustentaram a mística do Progressivo.

Tantra – A banda de Manuel Cardoso foi a única, em Portugal, a levar o progressivo às últimas consequências, juntando o profissionalismo e a teatralidade em álbuns como “Mistérios e Maravilhas” e “Holocausto”. José Cid gravou “Dez Mil Anos depois, entre Vénus e Marte”, muito considerado nos meios coleccionistas internacionais. Os Petrus Castrus ficaram-se por “Mestre” e os GNR desistiram, depois de “Avarias” de “Independança”. Os Beatnicks nunca chegaram a gravar o épico “Cosmonicação”. Ainda hoje se segreda aos ouvidos o nome dos Ephedra.

Uma vez – Era uma vez uma palavra que se julgava enterrada para sempre. Não estava porque a atitude que lhe estava subjacente nunca morreu. Venham de lá os que nos anos 90 primeiro se aproximaram do Progressivo, embora deixando cair a alma pelo caminho. Main, My Bloody Valentine, Spacemen 3, A. R. Kane.

Vertigo – A editora clássica da primeira fase do Progressivo. Foi a primeira editora a apostar em exclusivo no mercado dos longas-durações. As reedições excelentes, têm estado a ser efectuadas de forma metódica pela Repertoire. Gentle Giant, Nucleus, Ben, Cressida, Fairfield Parlour, Affinity, Beggars Opera, Catapilla, Gracious, Tudor Lodge, Bob Downes Open Music, Manfred Mann Chapter Three, Keith Tippett Group, os melhores. E coisas raras, esquisitas e valiosas como Still Life, Hokus Poke, May Blitz, Nirvana (não confundir com…), Dr. Z, Clear Blue Sky, Warhorse, Legend…

White Noise – Reparem bem neste nome. “An Electric Storm”, álbum de 1969, é um dos maiores rasgos de futurologia que se conhecem. Pop saturada de LSD, electrónica espacial, surrealismo “bubblegum”, vozes astrais, risos de pulgas e uma missa negra, debaixo de trovoada, celebrada no Inferno.

X – “Mister X Gets Tense” e “Saculty X”, de “Get Tense Ph7”. “Xmy Heart”, o álbum mais recente. Até quando Peter Hammill terá a energia necessária para se manter como porta-voz da voz mais profunda e perturbada do Progressivo dentro de uma cabeça só? A incógnita…

Yes – Sim… Talvez… Não… Nenhum outro grupo congregou em igual percentagem o ódio e a veneração como os Yes. Simbolizam em simultâneo o lado melhor e pior do Progressivo. Em termos de virtuosismo instrumental, eram imbatíveis. Os excessos, praticaram-nos todos. O duplo “Tales Of Topographic Oceans”, com os seus quatro longuíssimos temas, é para alguns uma obra-prima, enquanto para outros representou o pior pesadelo do Progressivo. Sobre a voz andrógina de Jon Anderson, há quem, só de a ouvir, jure que sobe ao céu, e quem vomite.

Zeuhl – Termo que designa o universo estético e ideológico criado em França pelos Magma. Antes deles eram os Ange que lideravam o Progressivo em França, mas foi a banda de Christian Vander a definir a linha mais forte e original do movimento. Deixaram uma legião de discípulos “zeuhl” como os Zao, Weidorje, Xalph, Eskaton, Shub Niggurath, Musique Noise, cuja característica comum era a paixão por Nietzsche, Wagner e Coltrane. Em oposição a tudo andaram os Etron Fou Leloublan e Albert Marcoeur.

Moving Gelatine Plates

Pop Rock

1 de Novembro de 1995
Álbuns pop rock - Reedições

Hans bezerro “versus” Henry vaca

MOVING GELATINE PLATES

Moving Gelatine Plates (8)
The World of Genius Hans (9)
Musea, distri. Planeta Rock

Faça-se continência a dois discos históricos aos quais a história não soube fazer justiça. Atribui-se aos Henry Cow a responsabilidade e a glória de terem feito a transposição do “progressivo” para os anos 80 e introduzido no rock a atitude e a estética, simultaneamente literária e anarquizante, de uma música cujos alicerces apresentavam a mesma solidez do jazz e da música erudita, personificada por nomes como os Faust, Frank Zappa ou Art Ensemble of Chicago. A curiosidade está em que os Henry Cow lançaram o seu primeiro manifesto em 1973, enquanto os Moving Gelatine Plates se estreiam com o seu álbum homónimo em 1970, sendo que tudo o que foi dito sobre a banda de Fred Frith e Chris Cutler já antes se aplicava a este grupo francês.
Inclassificável, o som dos Moving Gelatine Plates – designação retirada de um romance de Steinbeck – passado um quarto de século sobre a data de edição do primeiro álbum, mantém intactas a sua frescura e originalidade. Os MGP não seguiam qualquer escola. Tinham ideias próprias, na maior parte das vezes delirantes, e a capacidade de as ordenar musicalmente de forma superlativa. O conceito de “improvisação” estruturada fazia parte da sua filosofia, nas alterações rítmicas e de compasso constantes, nas melodias ao mesmo tempo “free” mas de grande rigor e destituídas de hermetismo, no humor dadaísta e na convicção de que a criatividade passa pela reavaliação constante de cada nota, de cada intuição harmónica, de cada desenvolvimento melódico. O disco consequente leva estes pressupostos às suas últimas consequências. Construído sobre uma lógica de fragmentação e sequenciação de 450 (!) módulos musicais deferentes, “The World Of genius Hans”, gravado em 1971, põe em evidência o conceito e que “o génio reside na loucura e na criatividade, sendo parcialmente estimulado pela neurose”. O bezerro da capa não nos diz outra coisa. Obra de uma modernidade assombrosa, antecipa em vários anos o movimento “Rock in oposition” – lançado pelos Henry Cow, os suecos Sammla Mammas Manna, os franceses Etron Fou Leloublan e os italianos Stormy Six -, que se viria a revelar decisivo na criação e desenvolvimento de uma nova música europeia, cujas ramificações se tornaram até hoje incontáveis, “The World of Genius Hans” bem merece ser arrancada ao esquecimento. O compacto inclui cinco temas extraídos de um terceiro álbum, “Moving”, de 1980, ainda por reeditar.

Gong - Continental Circus

Pop Rock

18 de Janeiro de 1995
álbuns poprock

Gong
Continental Circus
MANTRA, IMPORT. MC-MUNDO DA CANÇÃO

Os Gong não eram ainda os “pot head pixies” da fabulosa trilogia do haxe e dos bules voadores, “Radio Gnome Invisible”. Mas já pouco faltava. Corria o ano de 1972 e corriam as motos no seu circuito de grandes prémios. “Continental Circus” é a banda sonora de um filme de Jérome Lapperrousaz sobre o “circo” de motos, no tempo de um dos seus maiores heróis, Giaccomo Agostini. Gilli Smyth assina a totalidade dos temas – quatro –, diferentes de tudo o que os Gong tinham feito para trás, “Banana Moon” e “Magick Brother, Mystic Sister” (existem por aí alguns exemplares espalhados...) e iriam fazer no futuro. “Blues for Findlay” é rock Kawasaki, directo e sem aditivos psicotrópicos, e “Continental circus world”, uma montagem sobre sons do “circo”, partidas, ruído de motores, som das boxes, etc. “What do you want” e a versão instrumental de “Blues for Findlay” são rock psicadélico numa linha idêntica à dos Hawkwind de “In Search of Space” ou de um disco estranho, “Obsolete”, lançado, nessa época, na Shandar por um dos parentes loucos da família, Dashiell Hedayat. Aqui, a loucura acelera sobre duas rodas. (7)

John Cale & Terry Riley - Church Of Anthrax

Pop Rock

16 FEVEREIRO 1994
REEDIÇÕES

John Cale & Terry Riley
Church of Anthrax
Columbia, distri. Sony Music

Um disco mítico. Gravação de 1971, na qual o então violista dos Velvet Underground juntou forças com um dos papas do minimalismo americano. Resultou interessante, mas deixa um certo sabor a frustração. Cale martela como pode o piano em “Church of Anthrax”, “The hall of mirrors in the palace at Versailles”, que o sax soprano do americano sobrevoa como uma área real, e no longo e penúltimo tema “Ides of March”, acompanhando como pode a cadência milimétrica imposta por Riley, mestre da circularidade e sobreposição de ritmos. É notório que é Riley a ter de descer ao nível de Cale. Vê-se que o compositor de “in C” e do fenomenal “Rainbow in Curved Air” tem a preocupação de não descolar em demasia dos esforços do companheiro, na maneira contida como toca o órgão electrónico. Depois, a bateria, tocada por alguém nunca identificado em qualquer edição desta obra, não ajuda nada, de tão quadrada e pesadona. O melhor tema acaba por ser a única canção do disco, “The soul of Patrick Lee”, uma das típicas baladas fantasmagóricas de Cale, cantada por este de forma preciosa. Mas a sensação de ineditismo da parceria e alguns pormenores mais conseguidos, por entre o emaranhado rítmico dos temas “minimais repetitivos”, acaba por tornar “Church of Anthrax” uma curiosidade digna de interesse. Mesmo que a quilómetros de distância do melhor, tanto dos Velvets como do patriarca da repetição. (7)

David Sylvian & Robert Fripp - Damage

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

DAVID SYLVIAN & ROBERT FRIPP
Damage
Virgin, distri. EMI-VC

Sylvian teria dado um bom vocalista dos King Crimson, como alternativa a Greg Lake ou Boz (em “Lizard”). Mas pronto, já que não pôde ser, ficou-se pela parceria com Fripp, iniciada em “Gone to Earth” e oficializada em “The First Day”. “Damage” é uma gravação ao vivo efectuada em Itália em Dezembro do ano passado e misturada nos estúdios Real World, o que, numa música que não se compadece com palmas nem quaisquer outros ruídos susceptíveis de desviarem a atenção, é um ponto em desfavor. Abstraindo-nos destes aspectos extramusicais, ressalta um som pausado, de respirações amplas, onde a voz toda ela ornamentações (embora menos que nos Japan) de Sylvian se harmoniza com a virilidade da guitarra de Fripp. O primeiro contribui com o lado “canção” do disco, conferindo-lhe o necessário grau de acessibilidade, enquanto o segundo faz o que lhe dá na gana, arrancando da guitarra, no desenvolvimento intermédio dos temas, ora as torrentes de energia que caracterizavam o seu estilo nos King Crimson, ora complexos fraseados na linha do que fazia nas duas ligas que fundou, os “gentishomens” e os “guitarristas dotados”.
O prazer maior resultante da audição de “Damage” está no tratado de guitarra que Fripp nos oferece, ainda para mais neste disco coadjuvado pela “guitarra infinita” de Michael Brook. Sylvian é a imagem, o rosto, a voz que aparentemente dita a direcção mas na realidade é comandada pelas vagas de fundo da guitarra. Dito isto, não se trata de um disco do arco-da-velha, capaz de nos fazer abrir a boca de espanto, mas sim, e apenas isso, um trabalho competente de dois profissionais que sabem o que querem e manejam com mestria os respectivos instrumentos. O ex-Japan brilha com mais fulgor nos dois temas da sua autoria, “Wave” e “Riverman”, bem como num da sua antiga banda, “Every colour you are”. Quanto a Fripp, coloca a sua assinatura nos restantes temas, bastando para tal a marca incandescente da sua guitarra.
Música para o cérebro e para os sentidos, onde o vermelho dos corações se confunde com as pétalas de uma rosa, “Damage” não ultrapassa os anteriores trabalhos em estúdio da dupla mas é suficiente para manter vivo o interesse pelo seu futuro. A presente edição está limitada a 50 000 exemplares no mercado internacional e a 1000 em Portugal. (7)

Loop Guru - Duniya

Pop Rock

25 de Maio de 1994
ÁLBUNS POPROCK

LOOP GURU
Duniya – The Intrinsic Passion of Mysterious Joy
Nation, distri. MVM

Nada se perde, tudo se transforma. Os Loop Guru – Salman Gita e Jamuud – reciclam “ad infinitum” aquilo que eles próprios definem como “o planeta de som”. Ouvem-no e usam-no para criar uma música que junta o tribalismo, feito a expensas de múltiplas pilhagens à “world music”, o “techno” e a “trance music”. Ou seja, mais uma etiqueta: “ethno-techno”, género que engloba outros cultores como os Fun-da-Mental e Trans-Global Underground, com os Material de Bill Laswell e os Invaders of the Heart de Jah Wobble a agitarem-se nas proximidades. Brian Eno é o grande inspirador. Os Loop Guru citam-no – “A música é dez por cento de inspiração e noventa por cento de regeneração” – e samplam-no. Eno é o guru, até em idêntica utilização das tácticas do acaso de que o ex-Roxy Music se serviu para compor todos os seus discos até “Before and After Science”. Os Loop Guru recolhem material em fita magnética e entretêm-se depois a cortar tudo em bocados e a fazer colagens. “O que temos que fazer é levar a fita para casa, cortá-la em cem bocados e ver o que acontece”, diz Jamuud. Há influências óbvias no som da banda, como os African Head Charge na dianteira de todas elas. Mas na contracapa de “Duniya” os Loop Guru, além de Eno e dos African Head Charge, alinham mais umas dezenas de referências e fontes não só de inspiração como de material samplado: Arvo Part, Benjamin Britten, orquestras gamelão, orquestra andaluza de Tânger, Can, Erik Satie, Faust, Ligeti, Ivor Cutler, John Cage, Stockausen, Ravi Shankar, Robert Wyatt, Steve Reich, 23 Skidoo, Thomas Mapfumo, Trans-Global Underground, Ultramarine, Alice Coltrane, Captain Beefheart, Cecil Taylor, Don Cherry, George Harrison (do álbum experimental “Wonderwall”), Harry Partch, Jon Hassell, John Zorn, Lamont Young, Mothers of Invention, Richard Hell, Soft Machine, Sun Ra, Syd Barrett, Terry Riley, The Pop Group, This Heat e os… Transmitters, a banda anterior aos Guru na qual Jamuud e Salman procederam a experiências prévias com base em “loops” (ver artigo no Poprock da semana passada) e técnicas “dub” sobre um “thrash” minimalista. A música dos Loop Guru destina-se tanto à dança como à meditação. Para Jamuud, trata-se do equivalente contemporâneo das ancestrais músicas rituais de cura e transe, baseadas em ritmos primevos e energias xamanísticas. Cadências hipnóticas que, no caso dos Loop Guru, tanto podem ser feitas por um computador iluminado como por “samples” com toda a espécie de percussões étnicas. Sempre apoiadas num baixo musculado no ginásio de Bill Laswell, em infatigáveis flexões. As vozes e instrumentos exóticos são de proveniência incerta e indecifrável, sampladas algures de África, em particular das regiões árabes, da Índia ou da Bulgária. Em quatro temas, “Hymn”, “Sussan”, “Through cinemas” e “Under influence”, há a participação real da vocalista Sussan Deyhim, que, no tema que lhe é dedicado, “Sussan”, conta ainda com a colaboração de teclista e manipulador de “samples” Richard Horowitz, seu companheiro de resto no álbum “Azax Attra – Desert Equations”, obra que antecipava a dita corrente “ethno-techno”, gravada por estes dois músicos para a Made to Measure. Passada a sensação inicial de esmagamento provocada por esta conglomeração maciça de sonoridades e culturas, chega-se inevitavelmente à conclusão de que se, por um lado, a chamada “world music” se infiltra cada vez com mais força nas várias correntes da música popular actual – o que “a priori” tem a virtude de enriquecê-la com novos elementos –, por outro, a esta tendência de sínteses cada vez mais abrangentes e universalistas corresponde um empobrecimento resultante da anulação de diferenças e idiossincrasias. Milénios de música e de cultura, civilizações inteiras cabem agora no espaço imaginário de um disco, por vezes de uma faixa, como na longa “overdose” de “samples” do tema final “The third chamber (part 4)”. Aceleração progressiva. O universo igual a um “quark”. Se a compressão for levada ao absurdo, a sinfonia global transformar-se-á num zumbido. Eno tinha razão. (7)

Kronos Quartet - All The Rage

Pop Rock

24 NOVEMBRO 1993
NOVOS LANÇAMENTOS POPROCK

Kronos Quartet
All the Rage
Elektra Nonesuch, distri. Warner Music

A capa mete medo, na linha de algumas monstruosidades gráficas recentes de John Zorn com os Naked City. A música, a seu modo, também. “All the rage” é uma peça de dezasseis minutos e quinze, escrita por Bob Ostertag (guitarrista, desestruturalista, tocou com Fred Frith e companhia, gravou a solo, entre outros os álbuns “Expeditions”, “Getting a Head”, “Attention Span” e “Sooner or Later”), que ocupa a totalidade do CD, com distorções e dissonâncias várias dos instrumentos de corda, sobre um fundo de gritos da turba, vidros de janela partidos, apitos e uma voz narrativa a contar uma história de raiva, discriminação e violência. É uma história triste, que começou pela recusa de um político californiano em proclamar uma medida destinada a proteger os homossexuais de ambos os sexos da discriminação e acabou em pandemónio. Ostertag gravou a manifestação de protesto que então se realizou e dela seccionou palavras de ordem gritadas pela multidão ou incitamentos de fúria, como “Burn it”, soltos no próprio momento em que o edifício estatal já ardia. Os apitos que se ouvem com insistência, soprados em uníssono na ocasião por milhares de manifestantes, são usados na rua pelos “gays” e lésbicas para pedirem socorro quando são atacados. Os Kronos Quartet ouviram todo este caos e procederam à transcrição das várias alturas de som dos ruídos de rua para a partitura das cordas. A ideia é boa. A intenção e o alcance político e polémico da coisa é indiscutível, os ouvidos é que sofrem um pouco. Não é fazer discriminação, mas, ao fim destes quinze minutos de tortura, mesmo pelo Kronos Quartet, o que apetece mesmo fazer é desatar também a apitar, pedindo socorro. (4)