14/05/2008

Em cada sonho uma inquietação [Roxy Music]

Pop Rock

29 de Novembro de 1995

Retrospectiva dos Roxy Music
EM CADA SONHO UMA INQUIETAÇÃO

Odeon, Rialto, Plaza, Gaumont, Ritz… De entre os vários cinemas disponíveis, a escolha recaiu no Roxy. Roxy Music, mais do que uma banda, foi um conceito, único na história do rock. Desde o início, Bryan Ferry sabia o que queria. O rock como arte de conciliação de sons, imagens e estímulos antagónicos.

Nos Roxy Music, sobretudo na discografia compreendida entre 1972 e 1975, dos álbuns “Roxy Music”, “For Your Pleasure”, “Stranded”, “Country Life” e “Siren”, encontramos a projecção dos delírios artísticos e pessoais de um estudante de Arte a transbordar de ideias, Bryan Ferry. Os Roxy Music, mesmo admitindo a razão dos que não se esquecem de apontar a importância de decisiva de Brian Eno nos três primeiros discos, foram sempre propriedade e campo de sonhos pessoal e intransmissível de Ferry.
Tudo começou, ainda nos anos 60, no Newcastle Art Centre. Foi aí que o Ferry estudante, que já nessa época dava nas vistas pelo modo elegante e afectado como se vestia, travou conhecimento com duas figuras que ajudaram a criar a estética visual do futuro grupo: Richard Hamilton e Nick de Ville. O primeiro era um pintor pop que tentava anular a diferença entre a arte popular e a arte erudita, além de admirador ferrenho da mitologia da Hollywood dos anos 40. O segundo foi discípulo de Hamilton e aplicou os ensinamentos recebidos no “design” de todas as capas dos Roxy Music até “Siren”.
O seu estilo caracterizava-se pela exposição crua de mulheres, ora “glamourizadas” ao limite do “kitsch”, como a mulher-bombom de “Roxy music”, ora de uma beleza agressiva e quase masculina, como as duas amazonas de “Contry Life”, tapando/destapando as partes estratégicas das respectivas anatomias, passando pela sereia escandalizada de “Siren”, a mulher-elementar de “Stranded” e a mulher-predadora de “For Your Pleasure”.
Em 1968, Ferry trocou Newcastle por Londres. Foi já na capital inglesa que ensaiou os primeiros passos com o baixista Graham Simpson. Ferry tocava piano e órgão de pedais. O seguinte a entrar foi o guitarrista Roger Bunn, de imediato substituído por David O’List, ex-Nice, o grupo de “rock sinfónico” de Keith Emerson, anterior aos ELP. O trio gravou um par de sessões para John Peel. Andy MacKay chegou pouco tempo depois, introduzido no grupo por outro artista plástico, Tim Head.
MacKay nem sequer tocava saxofone. Na sua bagagem trazia uma formação clássica, um oboé e um sintetizador. Ferry aconselhou-o a ser mais “funky” e a ouvir King Curtis. Mas Andy trouxe ainda consigo um amigo, de ar efeminado e com um gravador constantemente às costas. O amigo, cuja missão, de início, era gravar as actuações do grupo, chamava-se Brian Eno. Do circuito dos clubes chegou Paul Thompson, baterista profissional. Entrou para os Roxy Music através de um anúncio num jornal. Nessa altura já os jornalistas andavam intrigados, como Richard Wiliams, do “Melody Maker”, que arriscou incluir os Roxy na secção “novos nomes que podem quebrar a barreira de som”.
Quando actuaram no 100 Club já se criara o ambiente, simultaneamente retro e futurista, que se tornaria imagem de marca da banda. Perante uma assistência predominantemente feminina enfiada em “hot pants” e roupas apertadas, Ferry experimentava as tácticas do fingimento e da sedução, obedecendo a uma necessidade de estimular não só pela música como visual e sexualmente os fãs. Antony Price teve um papel importante no desenho da indumentária, cheia de brilhos e reflexos, e dos penteados, cortados rente e esculpidos em brilhantina, dos cinco Roxy Music.
O choque maior, porém, foi causado pela música. “Roxy Music”, o disco de estreia, com data de 1972, incluía já o novo guitarrista Phil Manzanera, antigo companheiro de Robert Wyatt nos Quiet Sun. Inclassificável, o álbum misturava o rock ’n’ roll dos anos 50, a pop dos 60 e o Progressivo dos 70 com o minimalismo e a experimentação mais ousada. Em estúdio sucederam-se os malabarismos e os truques em nome da originalidade e da provocação. O tema de abertura, “Re-make/re-model” é todo um enunciado dos propósitos musicais dos Roxy Music, uma sucessão alucinante de estilos, quase numa montagem em “cut up” que termina com solos, não menos vertiginosos e concisos, de todos os músicos. O refrão era a entoação de uma matrícula de automóvel, a célebre “CPL 593 H”. Os ruídos iniciais, de uma festa, indiciavam já, por seu lado, o universo concentracionário onde Ferry se viria a enclausurar após o crepúsculo do primeiro período da banda, cujo ciclo encerraria em 1976, com o álbum ao vivo “Viva!”.
Na Island, etiqueta na qual “Roxy Music” acabou por ser editado, começaram por torcer o nariz à proposta, inovadora em demasia, dos Roxy Music. Algo espantoso, para quem acolhia nessa época nas suas fileiras a nata do Progressivo e um grupo como os King Crimson. Cite-se, a propósito deste grupo, que em 1970 Bryan Ferry esteve prestas a tornar-se no substituto de Greg Lake como cantor da banda de Robert Fripp. Este afirma ter ainda em seu poder as fitas com as gravações dos ensaios. De referir também que outro dos candidatos ao lugar de voz principal dos Crimson foi Elton John…
Os King Crimson tiveram, aliás, uma proximidade estreita com os Roxy nos anos da gestação. O produtor de “Roxy Music” foi Peter Sinfield, letrista dos Crimson até ao álbum “Islands”. Há quem critique o seu trabalho, por não ter feito justiça à excitação e coesão instrumental que caracterizavam as prestações ao vivo do grupo de Ferry, Eno e Manzanera. O próprio Sinfield assume os seus erros, chegando mesmo a admitir que os Roxy Music não precisavam de um produtor mas apenas de um engenheiro que lhes garantisse um “som decente”.
O álbum seguinte, “For Your Pleasure”, é para muitos, Ferry incluído, o melhor de sempre da banda. Abandonado o lado “kitsch” e a tónica do excesso, a música abre as portas ao que o jornalista Tony Palmer, do “The Observer”, chamou então o “lado obscuro do rock ‘n’ roll”. Da cena nocturna nas traseiras da cidade retratada na capa – com a mulher e a pantera, ambas de negro, à espera da vítima – até à narrativa de uma relação amorosa com uma boneca insuflável, no crescendo semideclamatório de “In every dream home, a heartache”, “For Your Pleasure” puxa para o abismo e para as conotações eróticas obscuras. Arrepiante e, ao mesmo tempo, de um humor refinadíssimo é o clímax final do referido tema: “I blew up your body, but you blew my mind!”, jogando com a ambiguidade dos verbos “soprar” e “explodir” (‘eu fiz explodir o teu corpo, mas tu insuflaste – ou fizeste explodir – o meu espírito’).
“Stranded” explora a vertente de “crooner” de Ferry, como na paródia ao festival da Eurovisão, “Song for Europe”, só que aqui ainda mantendo a distância e a pose irónica, ao contrário do que acontece a partir de “Manifesto” e dos seus álbuns a solo mais recentes, onde a imagem se confunde com a pessoa e Ferry passa a levar a sério uma personagem que no início não pretendia ser mais do que uma caricatura. “Country Life” anuncia já a decadência “chique”, num álbum de ressacas, entre a ilusão do “Champagne” e a excitação fugaz da cocaína, com Ferry a sofrer precocemente a angústia do envelhecimento e da andropausa, numa fuga para a frente, em direcção ao sexo sem futuro nem freio, dramaticamente exemplificada no tema “Casanova”. A idade de ouro culminaria com “Sirens”, um álbum desvalorizado por muitos, mas onde se encontra um dos melhores lotes de sempre de canções dos Roxy.
Depois, seria o ponto final e a ressurreição, em 1979, para a segunda vida, da maturidade e da elegância. Mas esses eram já outros Roxy Music e outro Ferry, tão atentos à evolução do mercado como à sua própria interior. “Manifesto”, “Flesh and Blood” e “Avalon” fizeram as delícias dos adolescentes e das rádios de todo o mundo, servindo de cobertura a reuniões de negócios, anúncios de televisão e repasto geral dos “tops”, com Ferry, cada vez mais gordo e ar de galã saloio, no papel de “gigolo” engatatão que a sabe toda. Mas tomara todas as bandas decair e morrer com a dignidade dos Roxy Music. “The party is over?” Nunca se sabe.

Jim Morrison - An American Prayer

Pop Rock

17 de Maio de 1995
álbuns poprock
reedições

As últimas orações de um fantasma

JIM MORRISON
An American Prayer (6)
Elektra, distri. Warner Music

“An American Prayer” é um objecto difícil de definir e enquadrar na carreira deste grupo americano cuja morte prematura do seu líder levou a uma também prematura extinção. Já a circular no mercado há alguns anos, em vinilo – a primeira edição data de 1978 – mas também numa edição pirata em compacto, esta obra póstuma destina-se prioritariamente aos coleccionistas enquanto testemunho importante da vertente poética do autor de “The celebration of the Lizard”. A música, “pelos the Doors”, foi acrescentada posteriormente por Ray Manzarek, umas vezes de tal forma que dir-se-ia terem sido a música e as palavras gravadas na mesma ocasião, outras dando mostras de uma enorme falta de gosto, soando despropositada e desenquadrada da postura original do grupo. A presente edição inclui três novos temas em relação às anteriores, “Babylon fading”, “Bird of prey” e “The ghost song”. O primeiro é uma gravação ao vivo inédito em disco, aumentada com efeitos sonoros criados posteriormente em estúdio. Assim, os ruídos de uma sirene, chuva, assobio, trovoada, multidões numa tourada e num jogo de futebol, crianças num pátio de recreio e guerra reproduzem à letra as palavras do vocalista, numa brincadeira que tem tanto de curioso como de inconsequente. “Bird of prey” é uma vocalização de um minuto “a capella” onde a falta de voz consegue mesmo assim fazer passar a mensagem: “Flying high, flying high, am I going to die? Bird of prey, take me on your filght.” A fechar, “The Ghost song”, em nova versão (a primeira aparece logo de início), com um acompanhamento musical inédito de Ray Manzarek, Robbie Krieger e John Densmore, soa como uma canção característica do último álbum de originais do grupo, “L. A. Woman”, pelo menos até determinada altura, quando se transforma em “disco sound” à Bee Gees. Feitas as contas, três apontamentos que não enobrecem de modo algum nem a memória do cantor nem a do grupo. O resto é uma manta de retalhos que se percorre com as recordações a virem ao de cima e a darem vontade de, uma vez mais, ir ouvir os verdadeiros Doors nos quatro momentos mais altos da sua discografia: a estreia “The Doors”, o monumental “Strange Days”, “Waiting for the Sun” e o disco ao vivo “Absolutely Live”. Quantas vezes ainda ouviremos Jim Morrison gritar “Is everybody in? The ceremony is about to begin, Wake up!” Oficializada por fim a peça do “puzzle” que faltava, é de acreditar que desta vez vai ser mesmo “The end”.

Captain Beefheart & His Magic Band - Trout Mask Replica

Pop Rock

22 de Março de 1995
álbuns poprock
reedições

Manual de guerrilha

CAPTAIN BEEFHEART & HIS MAGIC BAND
Trout Mask Replica (10)
Reprise, distri. Carbono

Ponto um: Captain Beefheart, aliás Don van Vliet, é louco. Ponto dois: Trout Mask Replica, editado originalmente em álbum duplo em 1970, com o selo Straight, é uma obra-prima. Ponto três: Ao longo do último quarto de século poucas pessoas repararam no ponto anterior. Bom, também é verdade que esta personagem “sui generis” nunca o facilitou. A sua música foi desde sempre difícil de digerir para quantos gostam de ter a papinha toda feita. Frank Zappa foi um dos poucos a compreender o alcance da obra revolucionária deste excêntrico, que afirmava existirem no mundo “apenas 40 pessoas e cinco delas eram ‘hamburguers’” e cuja voz, capaz de se desdobrar, rezam as crónicas, por quatro oitavas e meia, destruiu certa vez um microfone, durante uma gravação em estúdio. Zappa e Beefheart (nome inventado por Van Vliet a partir do filme, projectado por ambos, mas nunca realizado, com o título “Captain Beefheart Meets the Grunt People”) gravaram juntos um disco chamado “Bongo Fury”, tendo sido ainda Zappa quem produziu para a sua própria editora, a Straight Records, “Trout Mask Replica”. O álbum, composto por Van Vliet em pouco menos de oito horas (!), é uma combinação, com grau máximo de acidez, dos blues, reduzidos à sua essência mais visceral, com o free-jazz e o psicadelismo em fase de ressaca. Um objecto que na época não encaixava nem no passado recente nem no movimento progressivo então em fase de expansão. As vocalizações de Van Vliet recordam os velhos “bluesmen”, mas a tendência para o grito e a convulsão, o humor corrosivo e os delírios dos vários instrumentos, entre os quais a harmónica e o saxofone sem rédea do próprio capitão coração de carne de vaca, impediam qualquer acomodação às linhagens tradicionais. “Trout Mask Replica”, com as suas estruturas abertas à improvisação, mandou todas as regras às urtigas e serviu de bíblia a grupos do PREC posterior ao “punk”, como os Pere Ubu, Pop Group e James Chance and the Contortions/James White and the Blacks. Em 1995, o disco continua a ser um manual de guerrilha.

Neu! - Komplett

Pop Rock

8 de Março de 1995
álbuns poprock
reedições

Sobressaltos maquinais

NEU!

Komplett (8)2xCD, import. Carbono

Depois do material não disponível dos Kraftwerk, alguém se lembrou dos Neu!, outra das bandas emblemáticas do chamado “rock alemão” dos quais não existem compactos oficiais. “Komplett” reúne a totalidade da obra da banda de Michael Rother e Klaus Dinger, ou seja, os álbuns “Neu!”, de 1971, “Neu! 2”, de 1973, e “Neu! ‘75”, de 1975, originalmente editados na Brain. O som não é famoso (por vezes acontecem mesmo distorções, nos momentos de maior intensidade sonora), ruídos do vinil são o pão nosso da gravação, mas, na ausência de uma alternativa, temos que nos conformar. A música, essa, permanece como uma das mais inovadoras oriundas da região do Ruhr, berço do “folk industrial”, termo inventado pelos Kraftwerk para designar um som cru e maquinal que se opunha à escola planante de Berlim e que teve, além dos próprios Kraftwerk e dos Neu, nos La Dusseldorf e Cluster (anteriores a “Sowiesoso” e à entrada em cena de Brian Eno) os seus principais cultores. A brutalidade sonora ou a abstracção ambiental são regra no primeiro disco, feita de embates de placas de metal, ritmos de martelo pneumático e electrónica em estado de liquefacção. Algo na mesma zona de experiências com a música concreta e a escola futurista de “Electronic Meditation” dos Tangerine Dream ou dos dois primeiros álbuns dos Krafwerk. “Neu! 2” é uma manipulação bizarra de ritmos e fragmentos melódicos colados a ambiências industriais. Um mesmo tema aparece modificado apenas pela alteração de velocidade das fitas de gravação, como se fosse tocado a 16 ou a 78 rotações. Há paragens súbitas, mudanças imprevisíveis e um clima de constante sobressalto. Último dos originais da banda, “Neu! ‘75” inclui um par de temas ambientais, “Seeland” e “Leb’wohl”, maquinaria a marchar em passo ordenado, em “E-musik”, e dois temas proto-punks, “Hero” e “After Eight”, que dão razão a John Lydon, ou Johnny Rotten, quando este afirma que os Neu! São uma das suas principais influências.

Kraftwerk - Ralf And Florian

Pop Rock

16 de Novembro de 1994
REEDIÇÕES

Kraftwerk
Ralf and Florian
Ed. Pirata, import. Carbono

Com a importação de “Ralf and Florian”, que se junta à reedição recente dos dois primeiros álbuns, fica completa a discografia dos Kraftwerk em compacto. À semelhança daqueles, “Ralf and Florian” é uma prensagem pirata em que o som apresenta os mesmos ruídos do vinilo de origem e que, em termos gráficos, apenas reproduz na contracapa a for de Ralf Hütter e Florian Schneider do original, editado em 1970 pela Vertigo. Curiosamente, esta edição inclui uma edição ao vivo do tema “Autobahn”, diferindo de uma outra, também pirata, onde não existe qualquer tema extra. Igualmente disponível está “Tonefloat”, primeiro trabalho, editado em 1969, desta formação germânica, então designada Organization, uma tentativa incipiente, e ainda amarrada à ideologia “hippie”, de exploração das possibilidades “concretistas” de instrumentos tradicionais como o violino ou as percussões, na linha de “Electronic Meditation”, dos Tangerine Dream, embora com menos recursos e imaginação. “Ralf and Florian” é outra coisa. Álbum de transição entre a maquinaria pesada dos dois primeiros e as melodias cibernéticas dos que se lhe seguiriam, alterna a cadência cabaret-tecno de “Tanzmusik” com o industrialismo iluminado a néon de “Elektrisches roulette” (na mesma área ocupada na época pelos Cluster) e o amientalismo havaiano de uma “Ananas symphonie” com a consistência de um cristal. A evitar cuidadosamente a referida versão – pretensamente “bónus” – ao vivo de “Autobahn”, em que o som e uma interpretação pavorosos traem por completo a “electricity in motion” que caracteriza a versão original de estúdio. Ignorando-a, fica um álbum luminoso a testemunhar os últimos vestígios de uma nostalgia naturalista que se perdeu. (8)

13/05/2008

A face escura da lua [Rui Veloso]

Pop Rock

22 de Novembro de 1995

Rui Veloso descobre “Lado Lunar”

A face escura da lua
Rui Veloso rendeu-se aos prazeres da vida doméstica. Recluso na sua propriedade, algures na zona de Sintra, é aí que passa a maior parte dos seus dias e foi aí que gravou a música do seu novo álbum, “Lado Lunar”, posto à venda ontem. O seu discurso é o de um homem desiludido, cansado de ter desperdiçado tempo em “copos” e “noitadas”. Considera-se um escritor de canções e reafirmou o seu amor pelos clássicos. Promete, quando o deixarem, gravar um disco só de blues.

Foi numa fortaleza rodeada de verde que o PÚBLICO visitou Rui Veloso. Num fim de tarde chuvoso, propício à melancolia. Talvez sejam estas, de resto, as condições climatéricas ideais para se apreciar as canções de “Lado Lunar”. Um álbum que corre devagar, ao mesmo ritmo de um músico a quem um dia, talvez por engano, chamaram o “pai do rock português”.
PÚBLICO – De que lado está o “Lado Lunar”?
RUI VELOSO – O lado lunar é o lado mais escondido das pessoas, aquele que não conhecemos imediatamente. Às vezes as pessoas parecem uma coisa e ao fim de certo tempo revelam-se outras.
P. – Ao contrário de “Auto da Pimenta”, onde arrisca em termos formais, este seu novo disco é talvez demasiado conformista…
R. – É um disco mais normal. O “Auto da Pimenta” é um álbum temático onde se podia seguir por certos campos musicais que aqui não teriam lógica. O “Lado Lunar” tem mais a ver com o tempo em que vivemos, com os anos 90.
P. – Dá a ideia de que encontrou um nicho e se deixou ficar lá a descansar.
R. – Sou um escritor de canções. É isso que quero fazer. Gosto de me colocar ao lado de compositores clássicos como o Cole Porter, o Gershwin ou o António Carlos Jobim. A única coisa que fizeram durante toda a vida foi escrever canções. Não é uma questão de trazer algo de novo. O que é que se pode fazer de novo senão boas canções?
P. – Antes “não havia estrelas no céu”. Agora chamou a uma nova canção “Já não há canções de amor”. Uma piscadela de olhos ao passado?
R. – Obviamente que pensámos que iriam dizer “não sei quê não sei que mais”. Mas não há problema. Há tantas canções de amor a dizer as mesmas coisas…
P. – “Lado Lunar” não será uma tentativa de fixar o seu antigo público, que terá ficado confundido com “Auto da Pimenta”?
R. – Não sou uma pessoa que esteja muito preocupada com o público. Apenas faço aquilo de que gosto.
P. – Hoje dá a imagem de uma pessoa muito mais fechada, mais metida consigo própria.
R. – Tem que ser!
P. – Porquê?
R. – Porque uma pessoa perde muito tempo com coisas que não interessam. Tem que se fechar no seu mundo e virar-se para dentro para poder fazer aquilo de que gosta. Tenho a sensação de que andei a perder muito tempo com coisas que não têm que ver com a música, tais como jantares, sair à noite ou beber copos com os amigos.
P. – A segurança familiar que alcançou reflecte-se na música que faz actualmente?
R. – É óbvio. E não só. Também o facto de me ter mudado da cidade para aqui, para o campo, onde encontro o silêncio suficiente. Vivo aqui e espero morrer aqui!
P. – Essa fuga do mundo não tem aspectos negativos?
R. – É capaz de ter. É natural que daqui a alguns anos sinta a falta de outra coisa, e vá dar uma curva, fazer outro tipo de vida. Para já, cheguei à conclusão de que devia ter trabalhado mais, feito mais e melhor.
P. – Acha que fez pouco, no passado?
R. – Então, em quinze anos tenho sete discos!
P. – A quantidade é o mais importante?
R. – Podia ter feito mais se me tivesse dedicado mais. A minha confissão é essa.
P. – Sente necessidade de se confessar?
R. – Tenho 38 anos. Um gajo começa a ver o horizonte cada vez mais perto e a ter a sensação de que já não tem muito tempo pela frente.
P. – Aos 38 anos!?...
R. – Sei lá, tenho visto amigos morrer. Ainda há pouco tempo morreu um amigo nosso com 26 anos com um ataque cardíaco [NR: o jornalista Luís Mateus, recentemente falecido]. Uma coisa boa de ter mudado para aqui é que acho que corro menos riscos. Levo uma vida mais serena, menos stressada.
P. – Não é outro tipo de morte, agir em função do medo?
R. – Não sei. Deve ter havido outros compositores, como eu, para quem isso serviu de estímulo. Fiquei um bocado obcecado a partir do momento em que tomei consciência de que morria. Até uma certa idade um gajo não tem consciência disso. É imortal.
P. – Depreendo do que disse há pouco que tenciona, a partir de agora, gravar mais discos?
R. – Acho que sim. Passarei a gravar mais discos e a trabalhar bastante mais. Os espectáculos ao vivo passarão a funcionar como um contraponto. Neste país, infelizmente, a maior parte dos músicos, eu, inclusive, durante muitos anos, depende dos concertos. O que desorganiza a vida toda, quando é preciso, por exemplo, andar um ano inteiro a tocar. Gostava de poder ter mais tempo para tocar guitarra em casa, sentar-me duas ou três horas ao piano, fazer exercícios de voz… Gostava de fazer isso para poder melhorar.
P. – Disse também que apenas faz aquilo de que gosta. Isso aplica-se à versão do Hino Nacional que cantou antes do recente Portugal-Irlanda?
R. – Deu-me imenso prazer. Apesar de o microfone ter falhado. Mas isso é típico de Portugal, onde acontecem sempre estas coisas. Ouvia-se o “delay” do estádio. Na rádio é capaz de ter resultado. Na televisão soou-me péssimo. Já ouvi dizer que cantei desafinado…
P. – Foi positivo para a sua carreira, e para a sua imagem?
R. – A minha imagem é aquilo que eu sou. Aliás, não sou o único artista a não se preocupar com a imagem. Estou a lembrar-me do Van Morrison, por exemplo, que se está marimbando que digam que tem mau feitio e anda por aí sempre a fazer o mesmo disco, e sempre bom.
P. – E o Rui Veloso, está sempre a fazer o mesmo disco?
R. – Eventualmente. Mas sabe que é difícil fazer músicas diferentes só com três ou quatro acordes…
P. - … Como nos “blues”. Quando é que se decide a gravar um disco só de blues?
R. – Hei-de fazer. Só ainda não o fiz porque a editora tem recusado sempre qualquer veleidade nesse sentido. Agora tenho mais hipóteses, porque tenho o meu próprio estúdio. O estado de “recluso” em que vivo vai eventualmente dar-me tempo para seleccionar os músicos. Hei-de gravar esse álbum, nem que seja só para mim!
P. – Entretanto, tocou um “tin whistle” irlandês, no tema “Cipreste”, por sinal um dos mais bonitos do novo disco…
R. – Tenho para aí guardados uns seis ou sete. Nem aprendi a tocar. Pega-se naquilo e toca-se. No tema “Cipreste” ouvi o som do “tin whistle” na cabeça. Gosto imenso de música irlandesa e escocesa: Boys of the Lough, Davy Spillane, House Band, Battlefield Band, Chieftains, Silly Wizard…
P. – A guitarra faz parte da sua vida?
R. – Se não tocasse, ia fazer o quê? Jogar futebol não ia de certeza. Se partisse uma mão, era um problema. Seria um sofrimento muito grande. Tocar é uma necessidade. Como ir à casa-de-banho.

"Para rebentar as colunas" [Gaiteiros de Lisboa]

Pop Rock

18 de Outubro de 1995

Gaiteiros de Lisboa lançam “Invasões Bárbaras”


“PARA REBENTAR AS COLUNAS”


“Invasões Bárbaras” dá a volta ao texto da música de raiz tradicional feita em Portugal. Os Gaiteiros de Lisboa não facilitam e o seu disco de estreia promete não dar descanso a ninguém. Longe vão os tempos em que ajoelhavam para ouvir Giacometti. Com a ajuda de José Mário Branco, partiram em direcção desconhecida. Não deixaram pedra sobre pedra.

“Invasões Bárbaras”. Guerra. Contra quê ou quem? “Há uma invasão de um espaço que tem sido ocupado por outros grupos que se dedicam à música popular portuguesa. A nossa proposta diverge bastante. O barbarismo aparece como conceito estético”, diz Carlos Guerreiro, tocador de sanfona dos Gaiteiros. “Por outro lado”, continua, “as pessoas que se sentarem tranquilamente em casa para ouvir o disco são capazes de ter uma surpresa e sentir-se também invadidos.” Os Gaiteiros de Lisboa representam a facção “hardcore” da nossa música de raiz tradicional. “É um disco para rebentar as colunas!...”
A música tradicional, mais do que uma base de trabalho, é um pretexto. “Temos essa referência”, diz José Manuel David, gaiteiro e ex-Almanaque, “simplesmente a ideia é que não estamos aqui para ensinar nada a ninguém, mas sim para defendermos um projecto estético que passa pela música tradicional, que abordamos por um caminho completamente diferente do que tem sido trilhado por outros grupos.” Da “espécie de ‘jam sessions’”, segundo a expressão de Rui Vaz, outro dos sopradores de gaita-de-foles de grupo, ou “sessões de laboratório”, como prefere chamar-lhe José Manuel David, que constituem os ensaios, chegou-se a um som em que a presença de José Mário Branco desempenhou um papel importante, enquanto produtor e director musical.
Carlos Guerreiro assume parcialmente essa influência, até porque alinhou ao lado do autor de “Margem de Certa Maneira” no cadinho revolucionário do GAC. Mas põe os pontos nos “is”, delimitando duas entidades distintas e autónomas: “Quando convidámos o José Mário Branco para este projecto, não foi à espera que ele trouxesse ideias que definissem uma estética para o grupo, mas sim porque achávamos que ele se inseria bem numa estética nossa previamente delineada.” Chegou a pensar-se que José Mário Branco seria o quinto elemento dos Gaiteiros.
“Ele também chegou a pensar isso!” [Risos.] Foi ainda uma questão de percurso”, acrescenta Rui Vaz. “Quando o abordámos, ele estava numa situação de baixa na sua vida, numa ‘down’. Nós aproveitámos um bocado isso. Quando ele começou a trabalhar connosco, começou a subir e, como provavelmente já não criava nem fazia nada há uma série de tempo, estava com uma força criadora enorme. (…) Mas nunca acreditámos que o José Mário Branco se pudesse diluir num grupo como os Gaiteiros.” Ponto final e uma pedra sobre o assunto.
Em concreto, “Invasões Bárbaras” não é um disco de gaita-de-foles. “Os Sétima Legião não são romanos, nem os Heróis do Mar eram marinheiros”, brinca Paulo Marinho, que divide a sua gaita-de-foles entre os Gaiteiros e a Sétima Legião, numa alusão às conotações que o nome da banda pode originar. As polifonias vocais estão na linha da frente. Para Carlos Guerreiro, “a música portuguesa tem muita harmonia e jogos de vozes. Os instrumentos sobre os quais tem assentado a maior parte do trabalho dos outros grupos na nossa área andam à volta das braguesas e dos cavaquinhos”. Os gaiteiros resolveram “aceitar o desafio de não usar esses instrumentos, os cordofones populares”. A opção incidiu nos instrumentos de palheta e nas vozes. “Como quando a sanfona aparece no ‘cante’ alentejano, capaz de escandalizar muitos puristas”. “Nós próprios olhávamos muitas vezes, espantados, uns para os outros!” “Conseguimos ultrapassar algumas coisas que tínhamos na cabeça, aquele respeito ilimitado pelo que considerávamos ser uno e indivisível.” “Um culto incrível” pela tradição, nas palavras de José Manuel David. “Quase que ouvíamos o Giacometti de joelhos”, recorda, divertido, Carlos Guerreiro.
Poderíamos arriscar, pela ideia de confronto aliada a um sentido lúdico exacerbado, a comparação com os suecos Hedningarna. Serão os gaiteiros os Hedningarna nacionais? É Carlos Guerreiro quem responde à nossa “provocação”: “Quando vi os Hedningarna pela primeira vez, senti uma certa identificação, disse até na brincadeira que gostava de ter um grupo como aquele. [‘Já tinha!’ lança Paulo Marinho, numa aparte]. Mas é uma identificação pela irreverência, pela forma como os gajos brincam com aquilo que no fundo é sagrado para os puristas. Uma atitude completamente ‘punk’!”
“Para fazer o que fazem os Hedningarna é preciso muito, mas muito conhecimento do que estão a fazer”, diz Rui Vaz, a concluir. “Com certeza que fizeram muita coisa antes [‘Devem ter andado todos em ranchos folclóricos!’ – outro aparte, agora de Carlos Guerreiro.] É outro ponto em comum que têm connosco.”
Os Gaiteiros de Lisboa deverão actuar ao vivo nos dias 8 e 9 de Novembro, no Centro Cultural de Belém.