06/10/2025

Elektra na maioridade

POP ROCK QUARTA-FEIRA, 24 OUTUBRO 1990

 

ELEKTRA NA MAIORIDADE

 

A editora americana Elektra faz 40 anos. Os seus responsáveis tiveram uma ideia brilhante: reatualizar temas antigos, gravados por artistas da casa, através de interpretações dos atuais signatários. Revolvidos os arquivos da história, encontrou-se a palavra ideal para simbolizar o projeto – “Rubaiyat”

 

O termo designa uma estrofe poética, formada por dois versos facilmente memorizáveis, inventada pelo poeta persa Omar Khayyam no século XII e que o povo cantarolava, como se de refrões de música pop se tratasse. Posteriormente, em 1859, o modo “Rubaiyat” foi reatualizado por Edmund Fitzgerald, que escreveu vários “rubay” com que entretinha os seus compatriotas vitorianos. Durante cerca de 30 anos, dedicou-se a interpretar e a reinterpretar os seus próprios versos, atualizando-os constantemente. São dele os imortais versos “But still the vine her ancient ruby yelds / And still a garden by the water blows”. O “staff” da Elektra asseguram que têm tudo a ver com o aniversário da editora. Quem somos nós para duvidar? “Manhã – escreveu o astrónomo e matemático Omar –, deixa-nos entornar o vinho vermelho.” Então não tem tudo a ver? É o ato de emborcar, de celebrar, enfim, de arranjar à força um pretexto.

 

A Magia do Rubi

 

            “Rubaiyat” é também rubi, vermelho, da cor do sangue – pedra preciosa que celebra aniversários assinalados pelo número 40. Vermelho, tal qual o logotipo da editora. As conotações são evidentes. Mas as significações do termo mergulham mais fundo, penetrando nos arcanos do universo e da magia. Rubi é pedra de telepatia, talismã que afasta os pesadelos quando guardado debaixo da almofada. Estranho: se for tocado nos quatro cantos de uma casa, protege os seus habitantes da trovoada. Além disso, irradia energia, segundo uma refração dupla que vibra na nota musical “mi” (em inglês “E”). Elektra começa por “E”. Elektra, uma das sete plêiades, filha de Oceanus, mãe das harpias, musa inspiradora da arte musical. Ena! Isto dos discos tem muito que se lhe diga. Não tem nada a ver com comércio nem negociatas. Nada disso. É tudo gente altruísta, preocupada com os mais altos desígnios humanos, envolta numa aura de santidade e mistério, lidando com forças transcendentes que mal compreendemos. Se não, como explicar que participem neste projeto nomes desde sempre ligados ao esoterismo e às difíceis artes do ocultismo, como Gipsy Kings, Howard Jones ou os Metallica?

            Convidaram-se estes e outros artistas para interpretar temas antigos à sua escolha. Critério único dessa escolha – a ligação afetiva às canções do passado. A mistura de nomes e canções impressiona pela heterogeneidade. Não confundir com confusão. São contemplados todos os géneros e estilos musicais, desde os já citados Gipsy Kings e Happy Mondays a John Zorn e Kronos Quartet, passando por luminárias como Jevetta Steele, The Havalinas, Lynch Mob e o magistral Danny Gatton. “Rubaiyat” será lançado no mercado em três formatos: CD e LP duplos com discos em vermelho, mais cassete dupla, tudo acompanhado de livrete contendo informação detalhada relativa ao projeto.

            Nada foi deixado ao acaso. Desde a apresentação até às táticas promocionais, a Elektra fez questão de ser original e diferente. Assim, o desenho das capas e o restante trabalho gráfico foram entregues aos gémeos Doug e Mike Starn, celebrizados na cena artística nova-iorquina pelas suas fotos-colagens. “Rubaiyat” constitui o primeiro dos seus trabalhos que autorizaram a ser usado para fins comerciais. No capítulo da promoção, foram escolhidos 6 CD-“singles”, cada qual com um tema destinado a uma área de divulgação radiofónica específica: Teddy Pendergrass, para o género “contemporâneo, adulto e urbano” (?), os Metallica para as listas de “heavy metal”, Faster Pussycat para o AOR (“adult orientated rock”), Gipsy Kings para o mundo latino e Michael Feinstein para a rádio em geral. Vinte e cinco por cento dos lucros obtidos revertem a favor das organizações “Greenpeace”, “United Negro College Fund” e “Save the Children”. Afinal ainda há almas caridosas neste mundo tantas vezes cão. É a força do rubi a exercer as suas influências cósmicas e benéficas.

 

A Editora

 

            É bastante antiga. Começou por ser um passatempo e um caso de amor. Foi a 10 de outubro de 1950 que o seu primeiro diretor, Jac Holzman, então um estudante apaixonado pelas técnicas de engenharia aplicada à música, deu início às atividades. O primeiro disco, um doze polegadas, era uma “Lied” assinada pelo compositor John Gruen e a cantora Georgiana Bannister. Teve o número 101 e direito a quase o mesmo número de cópias. Dinheiro era coisa que não havia. Tanto assim que a letra “E” do logotipo, em caracteres mais ou menos gregos, de acordo com a ideia pretendida, teve de ser feita utilizando um “M” deitado... A seguir vieram baladas montanhesas “Appalache”, cantadas por Jean Ritchie – Jac Holzman era apaixonado pela música “folk”, se bem que às vezes o termo lhe causasse alguma confusão.

            A Elektra, sediada a princípio nas traseiras de uma loja de discos em Greenwich Village, passou rapidamente para a rua Bleecker, número 361, local onde Jac foi aos poucos aprendendo os truques do ofício, que é como quem diz, de como fazer dinheiro à custa da música. Mas nessa altura era mais uma questão de sobrevivência e não havia lugar para luxos. A distribuição era feita em mão, e os discos transportados numa Vespa.

            Ainda a designação “world music” não tinha sido inventada, já a Elektra gravava recolhas folclóricas, oriundas de Itália, Rússia, Turquia, Espanha, França, Escócia, Inglaterra, Israel, México e outras regiões que constassem no mapa. Jac Holzman afirma que a sua paixão pela “folk” se deve ao interesse que sempre nutrira pelos instrumentos antigos e que o cravo era o culpado de tudo. “Os cravos – afirma – deram origem aos alaúdes, estes às guitarras, as guitarras à “folk”, e a “folk” à Elektra. Quer ele dizer que, não fora aquele instrumento de teclas, a editora nunca teria existido. Alguém de lembra de Cynthia Gooding, Ed McCurdy ou Shep Ginandes? Ninguém? Nem do Ginandes? Pois eram os “folk singers” da altura e parece que até não se vendiam mal – só à conta de Ed McCurdy e das suas séries de baladas isabelinas de genérico “When Dalliance as in Flower (and Maidens Lost their Heads)” a editora faturou na ordem dos 900.000 dólares.

 

Ecletismo

 

            Com a entrada nos anos 60, o recém-chegado Paul Rothchild operou a primeira mudança de agulhas. Era a vez dos baladeiros de intervenção entrarem em cena, ao mesmo tempo que o movimento das flores dava os últimos retoques nas pétalas. A Phil Ochs, Tom Rush, Tom Paxton e Judy Collins foi dada oportunidade de recitarem os seus manifestos. Paralelamente, na sucursal Bounty Records, entretanto fundada, despontavam os Beefeaters, nada mais nada menos do que os futuros Byrds. Buffalo Springfield, Lovin’ Spoonful e os Love, de Arthur Lee, eram os mais ilustres representantes do batalhão pop. Mas a força imparável deste último não obstava a que músicos como o guitarrista de flamenco Juan Serrano ou o “jazzman” Art Blakey tivessem um cantinho da casa reservado para si. Do mesmo modo que a música folclórica búlgara, décadas antes de as suas vozes se tornarem misteriosas ou de falarem com Deus.

            Alargava-se o leque de formas musicais – em 1964, a Nonesuch passava a albergar os representantes da “clássica”. Estrearam-na uma seleção de temas para trompete barroco, de Albinoni, e uma antologia de autores franceses da corte de Luís XIV. Hoje, a Nonesuch constitui a ala mais interessante da Elektra, integrando alguns dos expoentes da música contemporânea como John Adams, John Zorn, Kronos Quartet ou Wayne Horvitz. Por seu lado, as séries Explorer dedicavam-se a editar coleções de discos que continham efeitos sonoros ou instruções em código morse.

            No selo mãe, o pacifismo reinante no seio da “beat generation” era minado pela violência niilista dos MC5 e dos Stooges de Iggy Pop. O niilismo romântico de Nico era outra história, ainda hoje por contar. Místicos e de tendências pró-celta, os Incredible String Band, personificavam, de forma inteligente e original, o estilo “hippy”, através dos poemas étnico-psicadélicos dos multi-instrumentistas Robin Williamson e Mike Heron.

            Terminados os anos da paz, e Elektra é vendida por Jac Holzman à Kinney National Services Corporation, por dez milhões de dólares, retendo embora a autonomia artística. Três anos mais tarde, é a fusão com as poderosas Warner Bros. e Atlantic. Harry Chapin, Bread e Carly Simon ajudam a compreender que o tempo e o espírito eram outros. Jac já não conhecia todos os cantos da casa, que entretanto crescera desmesuradamente desde os tempos nas traseiras da rua Dez. Sentia que se estava a repetir a si próprio. A repetição mata o amor. Jac retira-se para o Havai, para regressar na condição de perito da Warner na área de investigação tecnológica aplicada aos audio-visuais.

           

Negócio e Moral

 

            David Geffen pega nas rédeas do poder e a Elektra é de imediato submetida a nova operação cirúrgica. O membro implantado é desta vez a Asylum. Novos recrutas: Jackson Browne, Eagles, Linda Ronstadt, Joni Mitchell, Tom Waits. “Hotel California”, dos Eagles, faz engordar muita gente. Os anéis começavam a não entrar nos dedos. A imagem da editora, já nas mãos do novo “boss” Joe Smith, era a de uma instituição tradicionalista que apostava em valores seguros e consagrados. Na passagem para a década de 80 vingava o gigantismo dos megaconcertos. Os Cars e Motley Crue chegavam para as encomendas. Também a “new wave” não ficara esquecida, com a assinatura dos Television e Dictators. Mais o “country & western” (Hank Williams Jr., Stella Parton) e os “rhythm & blues” (Donald Byrd, Grover Washington Jr.).

            O testemunho é finalmente passado a Bob Krasnow, que pretende dar um estatuto “ético” à editora. Bob é um moralista. Por volta de 1983, enuncia a célebre máxima: “Todo o artista desta editora tem como única missão fazer música. (...) Quem vem apenas pelo dinheiro não pertence ao negócio da música, pertence ao negócio do dinheiro.” Donde se conclui que dinheiro e negócio não andam necessariamente juntos. Mas é na difícil arte da dialética que Bob se revela mestre, pois, logo de seguida, acrescenta ao ramalhete filosófico: “Também é verdade que ninguém se refere a uma ‘show art’, mas sim ao ‘show business’.” Completa o raciocínio com tirada mais profunda e por isso mesmo mais obscura: “Uma editora de discos tem de ter sucesso se quiser atrair artistas e público e, visto que o custo de construção de uma experiência estética tecnologicamente complexa se torna uma equação auto-suficiente, não é de espantar que os caminhos de atuação se tenham tornado circuitos fechados, oferecendo passagem fácil apenas à oferta mais diluída.” Ora, nem mais. Moral da história: a companhia mudou-se com armas e bagagens para Nova Iorque, cidade que como se sabe é das mais castas em termos de insensibilidade ao vil metal. Perto da catedral de St. Patrick e do centro Rockefeller, como que simbolizando a eterna luta entre o espírito desapegado e o mundo diabólico das finanças. E se, às vezes, o pobre capitalista sucumbe à tentação é porque, nisto das músicas, “à medida que alguém vai crescendo, torna-se vítima do seu próprio sucesso”. Pois é, coitados, são umas vítimas. Mas, no fundo, que importância tem tudo isso? Tudo se revela claro e inocente. E tem razão quem afirma que “é só música, uma canção que se canta e se vende”.

 

O Disco

 

            É uma salganhada. Ainda por cima, tivemos direito apenas a uma cassete amostra que inclui um resumo aleatório, mal amanhado e ainda mais mal gravado, da totalidade da obra, deixando de fora nomes e ideias importantes e incluindo outros perfeitamente medíocres e de todo despropositados.

            Dos que foram incluídos à laia de engodo, destaque para os Pixies e a versão paranóica e saturada de eletricidade, produzida por Steve Albini, de “Born in Chicago”, um original de 1965 dos Butterfield Blues Band, os Ambitious Lovers e o “funky” esquelético com que traduziram “A Little Bit of Rain” de Fred Neil, Wayne Horvitz e um Bill Frisell alucinado, a suportar Robin Holcomb, menina de voz tremida e poderosa como a da índia Buffy Saint Marie, de “Soldier Blue”, cantando “Going Going Gone”, do Bob Dylan de 1974, e os They Might Be Giants numa interpretação weilliana do original de Phil Ochs “One More Parade”. John Zorn e os seus companheiros Robert Quine e Bill Frisell foram cortados a meio mal tinham aquecido na histérica e coerente leitura que faziam de “T.V. Eye” dos Stooges. A fita não chegava...

            O resto é Billy Bragg, mais frenético do que nas habituais tiradas políticas, em “Steven & Steven is” dos Love, os “rhythm & blues” dos Black Velvet Band para um original de Warren Zevon, o açúcar “pop Sugarcubes” sugado aos Sailcat, o “reggae” de Shinehead para um tema de Josh White, uma paródia à Pogues, em “Bottle of Wine”, de Tom Paxton, com acordeão e bandolim avacalhados, por parte dos Havalinas, os Happy Mondays armados em Stones no “Tokoloshe Man” de John Kongos, 10.000 Maniacs divertidíssimos e todos “seventies” a cantar “These Days” de Jackson Browne, como se fosse ontem, e, finalmente, os Beautiful South e mais uma voz feminina e inofensiva tentando imitar Kate Bush, com solos de sax pelo meio, em “Love Wars” da dupla Womack & Womack. Ah, sim, o anúncio abre com os Cure a assassinar “Hello I Love you” dos Doors. Os mesmos Cure que, parecendo ser os atuais meninos bonitos da editora, abrem e fecham o rubi, com a sua versão e direito a ver um tema seu, “In Between Days”, interpretado por John Eddie. Bem feito. Cá se fazem, cá se pagam.

 

Tudo ao Molho

 

            De fora ficaram, por exemplo, a rendição de “Marquee Moon” dos Television, pelo Kronos Quartet, os Metallica de que seria divertido ouvir a maneira como trataram “Stone Cold Crazy” dos Queen ou Tracy Chapman e Linda Ronstadt interpretando respetivamente os tradicionais “Rising Sun” e “The Blacksmith”.

            Jevetta Steele, Gipsy Kings, Faster Pussycat, Phoebe Snow, Ernie Isley, Howard Jones, The Big F, Georgia Satellites, Sara Hickman, Teddy Pendergrass, Jackson Browne, Shaking Family, Howard Hewett, Shirley Murdock, Leadres of the New School, Michael Feinstein, Lynch Mob, Anita Baker e Danny Gatton completam a lista dos “atuais” ignorados. Pensando melhor, depois de a ler, talvez haja razão para agradecer o facto de termos sido poupados à audição da totalidade de “Rubaiyat”. Da lista dos antigos constam, entre outros, os New Seekers, Eagles, Carly Simon, Delaney & Bonnie, Cars, MC5, John Fogerty, Bread, Incredible String Band e Judy Collins.

            “Rubaiyat”, a julgar pela amostra, parte de uma ideia interessante para se perder numa megalomania pouco significativa em termos exclusivamente musicais. É caso para se dizer “muita parra pouca uva” ou que “a montanha pariu um rato”. Ou que “nem tudo o que luz é ouro”. Neste caso, rubi.


Bel Canto - Birds Of Passage

 QUARTA-FEIRA, 24 OUTUBRO 1990 POP ROCK

 

BEL CANTO
Birds of Passage
LP e CD, Crammed, distri. Contraverso


 








“Bom-gosto” é o termo que define este disco na perfeição e graças ao qual os noruegueses Bel Canto, desde que se estrearam com “White-Out Conditions”, conseguem suprir a falta de génio, através de uma invulgar capacidade para a disfarçar. Música que atrai pelo lado de fora. Sedutora na forma polida e clássica como afaga o cérebro, mais do que os sentidos. Sedução pela inteligência, empreendida e concretizada sem grande esforço pela voz (belíssima) de Anneli Marian Drecker. O tempo cada vez mais pertence mais às mulheres – já o sabíamos. Este disco volta a comprová-lo. Aqui tudo se realiza em função da voz de Anneli Marian. Laboratorialmente, cada som foi criado e testado de maneira a encaixar-se com um máximo de eficácia nos diversos registos vocálicos da cantora.

Impera a eletrónica: “samplers”, percussões digitais, o trivial neste final de século. Para amenizar um pouco a frieza dos “bits”, foram chamados alguns dos músicos habitualmente ligados à editora: Luc Van Lieshout (dos Tuxedomoon, no “flugelhorn”), Jeannot Gillis (violino, viola-de-arco), Marc Hollander (dos Aksak Maboul, clarinete, teclados e percussão) e Claudine Steenackers (violoncelo). Certas passagens de “Birds of Passage” sugerem climas semelhantes aos que os This Mortal Coil criaram. “Continuum” e “The Glassmaker” dão cor e colorido exótico ao ambiente solene prevalecente ao longo de quase todo o disco. O primeiro, cantado em espanhol por Anneli, fala de maldições, de ritmos ocultos e mágicos que impelem a dançar. No segundo, a voz e o canto aproximam-se de um registo étnico semelhante ao que utilizou Mari Boine Penser, no maravilhoso disco que recentemente gravou para a Real World. Os Bel Canto, ao contrário dos Dead Can Dance, em “Aion”, não serão por enquanto capazes, pela sua música, de fazer vibrar os espaços imensos de uma catedral. Para já, uma capela chega-lhes. Poderá a voz de Anneli Marian voar mais alto? ***

Youssou N'Dour

 POP ROCK QUARTA-FEIRA, 17 OUTUBRO 1990

 

YOUSSOU N’DOUR
21 de Outubro, Coliseu do Porto
22 de Outubro, Coliseu de Lisboa

 

N’Dour é sobretudo conhecido pela fusão, nos seus discos, de vários estilos musicais, nomeadamente as sonoridades étnicas do Senegal, o “reggae”, a eletrónica e a música de dança. Sensível aos sons e cultura ocidentais, e não só, trabalhou com Peter Gabriel, no álbum “So”, Paul Simon (“Graceland”), Ryuichi Sakamoto (“Beauty”), Bruce Springsteen, Sting e Tracy Chapman (estes últimos ao vivo na “tournée” mundial organizada pela Amnistia Internacional, “Human Rights Now”).

Em 1976, juntou-se aos Star Band, e três anos mais tarde formava a sua própria Super Étoile de Dakar, banda com a qual se tornou conhecido fora do país natal. Depois do sucesso internacional de “The Lion”, “Set” (“limpo”, em dialeto wolof, produzido por Daniel Lanois) é o registo discográfico mais recente deste senegalês apostado em estender as fronteiras da África pelo mundo fora. Em “Set”, a sonoridade é mais urbana do que nunca, baseada no “mbalax”, “cocktail” rítmico que mistura ambientes de mercado, clubes noturnos e festas particulares.

Ao contrário, nomeadamente de Mory Kante, seu concorrente direto no campo da revisão moderna dos dialetos tradicionais africanos, Youssou N’Dour parece agora apostado em manter-se fiel a um som que, apesar de sincrético, não faz concessões ao gosto americanizado. De modo que, se “Lion” foi o seu ensaio mais sério no plano da massificação, “Set” é um disco que equivale a um retrocesso autenticista. Internacionalista, mas não pura curiosidade turísitica, em Portugal teremos oportunidade de escutar a sua voz tenor e o vibrante entusiasmo com que procura, a partir do grande caldeirão de culturas, pôr o mundo inteiro a dançar, mas sempre e sobretudo agora numa perspetiva africana.

Michael Nyman

 QUARTA-FEIRA, 17 OUTUBRO 1990 POP ROCK

 

MICHAEL NYMAN 26 de Outubro, Teatro Nacional de S. Luís

 

Criado musicalmente no seio dos clássicos como Purcell e Haendel e, mais tarde, rendido à lógica dos minimalistas, Nyman enveredou posteriormente por uma prática que poderíamos definir como “neobarroca”, jogando com estruturas musicais complexas, submetidas a um ordenamento matemático, que, no seu caso e segundo afirma, se processa de modo quase intuitivo. Para trás ficavam as experiências formais de “Decay Music”, gravadas para a série “Obscure” de Brian Eno e as brincadeiras levadas a cabo na Portsmouth Sinfonia (ainda ao lado de Eno), Scratch Orchestra e Lounge Lizards (de David Cunningham, que viria a produzir alguns dos seus discos). A partir sensivelmente de 1977 começa a compor a sua própria música, escrita quase exclusivamente para voz, piano, cordas e sopros, combinação instrumental cujas possibilidades considera “praticamente inesgotáveis”. Colabora assiduamente com o seu compatriota e cineasta Peter Greenaway, assinando as bandas sonoras das longas-metragens “The Draughtsman’s Contract”, “A Zed and Two Noughts”, “Drowning by Numbers”, “The Cook, the Thief, his Wife and her Lover” e o mais recente “Water Dances” a estrear brevemente entre nós. “The Kiss and other Movements” (com vocalizações de Dagmar Krause) e a ópera “The Man who Mistook his Wife for a Hat” são alguns dos seus trabalhos fora da esfera daquele realizador. O interesse pela música rock leva-o a fazer os arranjos de um dos temas do álbum “The Sensual World”, de Kate Bush, e a afirmar que gostaria um dia de trabalhar com David Byrne. Prepara atualmente um projeto com outro cineasta, o chileno Raoul Ruiz, baseado no tema “D. Juan” e com estreia prevista para Sevilha, no âmbito da Expo 92. Acompanham Michael Nyman, nesta sua deslocação a Lisboa, oito músicos: Elizabeth Perry e Jonathan Carney (violinos), Anthony Hinnighan (violoncelo), Martin Elliot (baixo), John Harle, David Roach e Andrew Findon (saxofones) e Nigel Barr (trombone). O concerto é uma produção Hernâni Miguel/Contraverso e os bilhetes já se encontram à venda.

03/10/2025

Devine & Statton - Cardiffians

POP ROCK QUARTA-FEIRA, 10 OUTUBRO 1990

 

DEVINE & STATTON
Cardiffians
LP e CD, Les Disques du Crépuscule, distri. Contraverso














São discos do quilate deste que dão credibilidade à profissão de “escritor de canções”. “Cardiffians” é a segunda jóia arrancada à pedra da inspiração, depois de “Prince of Wales”. Longe vão os tempos dos Young Marble Giants, em que as ocasionais desafinações de Alison Statton eram compensadas pela frescura e pelo modo original como sabiam transformar a ingenuidade em pequenos e estimulantes exercícios melódico-minimais. De ingénuo não há nada, neste novo álbum da dupla. Quanto a Alison Statton, aprendeu a difícil arte de fazer da voz um instrumento capaz de produzir, mais do que sons, emoções de toda a espécie, sempre de modo natural e demonstrando uma facilidade e espontaneidade que não se perderam no “saber fazer” técnico entretanto acumulado. Jogos de subtis registos e entoações que percorrem todo o universo situado entre as latitudes ocupadas por Isabelle Antenna (“Hideaway”, “Enough is Enough”), Dagmar Krause (do tempo dos Slapp Happy e de canções como “Slow Moon’s Rose”, no balanço, e tipo especial de “vibrato”, em “A Fact of Life”) e Virginia Astley (a mesma ausência de peso, as refrações cristalinas luminosas de “A Right to be Lazy”). Ian Devine revela-se como um dos grandes autores de canções da atualidade. Em “Cardiffians” não falta nada: arranjos e produção (partilhados com Eric Mertens) revelam uma atenção e capacidade minuciosas na criação de pequenos pormenores fundamentais para o ambiente específico de cada canção. O trombone de Curtis Fowlkes, ao lado de Roy Nathanson e Marc Ribot, um dos três Jazz Passengers convidados, nos dois temas que abrem cada um dos lados, a introdução fantasmagórica e tauromáquica de “Lovers get in the Way”, o metal elétrico da guitarra e o órgão celestial em “A Fact of Life”, as percussões digitais de “Silence” ou o baixo pneumático de “In the Rain” são algumas entre infinitas cambiantes que tornam a audição de “Cardiffians” numa sucessão de prazeres constantemente renovados. Para além do já referido “A Fact of Life”, mencione-se ainda, entre outras delícias, a única interpretação vocal de Ian Devine, em “Green & Pleasant Land”, rasgada em vastidões pelo piano fabuloso de Eric Mertens e os instrumentais “Regina & Michael” (exótico à maneira dos Penguin Cafe Orchestra) e “Last Days” (que encerra o disco, aéreo e pastoril, como um jardim de Virginia Astley, pontuado por flautas e silêncio). Ao todo doze viagens através do melhor que a pop nos pode oferecer: a simulação da felicidade. **** 

Deacon Blue - Ooh Las Vegas

 POP ROCK QUARTA-FEIRA, 10 OUTUBRO 1990

 
DEACON BLUE
Ooh Las Vegas
LP e CD CBS, distri. CBS port.



Que sórdidos motivos, que inconfessáveis traumas poderão levar um jovem escocês filhos de boas famílias, aparentemente são de espírito, a querer ser Paddy McAloon? Cabe aqui informar que Paddy McAloon é a designação comum para a síndrome, vulgar na comunidade pop, que costuma atacar vocalistas masculinos de voz a atirar para o fininho, característica geralmente acompanhada, à laia de compensação, por um crescimento exagerado do ego. Facto que os leva, com uma certa frequência, a perder o sentido de equilíbrio e das proporções.

Paddy McAloon, o original, dos Prefab Sprout, foi aqui examinado há umas semanas atrás. Acha-se génio. Está no seu direito. Nestes casos não convém contrariar demasiado o doente, sob pena de o enervar ou, pior ainda, excitá-lo ao ponto de querer gravar mais discos justificativos da sua paranóia. Os Deacon Blue, ou melhor, o seu vocalista Ricky Ross, sofre da síndrome. Mas o seu caso é ainda mais grave. À perda do sentido da realidade acrescenta-se a total despersonalização, ao ponto da voz, maneira de cantar e de compor se confundirem com as do génio McAloon. Não seria dramático se o desenvolvimento do mal se confinasse ao segredo das instituições e ao silêncio, remetendo o maníaco para o lugar que lhe compete: a reclusão, o colete-de-forças e, sobretudo, a mordaça. Mas não, dão-lhe trela, voz ativa, e quem sofre é a humanidade inteira e, por tabela, o crítico, forçado à escuta atenta da deformidade. “Ooh Las Vegas”, assim se chama o instrumento de tortura. Duplo, ainda por cima. Vinte e três atentados à sensibilidade. Outros tantos golpes impiedosamente vibrados na música pop, já de si não muito bem de saúde. Para Ricky Ross não chega massacrar o ouvinte. É preciso levá-lo à completa agonia, utilizando todos os meios, mesmo os menos lícitos, para levar a cabo os seus negros desígnios. Neste caso serviu-se de “lados B” de singles, maxis e EP antigos (“When will you Make my Telephone Ring”, “Dignity”, “Queen of the New Year”, “Chocolate Girl”, “Love and Regret”, só para referir o primeiro lado), bem como sessões para a peça televisiva “Dreaming”, de William McIlvanney e um ou outro tema original. A monotonia impera. A voz de Ricky irrita, de tanto se esforçar por imitar aquela que bem sabemos. As canções vão passando, passando, a paciência esgotando-se, esgotando-se. Ao escutar títulos como “Back here in Beanoland” ou “Let your hearts be troubled”, o cérebro é percorrido por uma sucessão de imagens assustadoras, com os rostos e as vozes de Elton John, Chris de Burgh e de todas aquelas outras personagens tenebrosas que perpetuamente assombram os tops americanos, a divertirem-se na meticulosa tarefa de nos arrasar psicologicamente. Mais um disco como este e também nós ficaríamos a deitar serpentinas pelos ouvidos e a cantar fininho. Será que afinal foi isso que aconteceu a Ricky Ross, depois de ter ouvido o McAloon? “Why? Why? Why? Why? Why?” – pergunta Terry Staunton, do NME, após a audição de “Ooh Las Vegas”. Não indo tão longe, aqui fica, no entanto, uma pergunta de outro estilo: “Porquê? Porquê? Porquê?” *

Sementes de violência [Telectu e Elliott Sharp]

 QUARTA-FEIRA, 3 OUTUBRO 1990 cultura

 

Concerto de Elliott Sharp e Telectu na Gulbenkian

 

Sementes de violência

 

FOI O concerto da brutalidade. Elliott Sharp e os Telectu iam rebentando os tímpanos a uma assistência que encheu, segunda-feira, por completo a sala polivalente do CAM, siderada pela violência sonora e pelo inusitado da combinação.

            As notas da guitarra e do saxofone soprano de Sharp e a panóplia eletrónica dos Telectu explodiram literalmente num caos apocalíptico que teve entre outras a virtude de fazer pensar sobre algumas das vias encetadas pela chamada “nova música”, designação demasiado lata que não chega para abarcar a pluralidade de correntes que em comum apenas têm a repulsa nutrida em relação às “mafias” para as quais a música não passa de negócio.

 

Mestre da guitarra

 

            A primeira parte do programa foi preenchida por Elliott Sharp em solo absoluto. Uma guitarra de dois braços e um saxofone bastaram-lhe para produzir um caudal de sons violentíssimos, para muitos insuportável alguns segundos logo após a vibração da primeira corda, para a maioria um excitante delírio virtuosístico, com o guitarrista a dar mostras de um domínio absoluto do instrumento. Sonoridades distorcidas até ao limite do tolerável, as notas e ruídos entrechocando-se num combate monstruoso, em “clímaxes” criados com a ajuda de pedais de efeitos, mas sobretudo graças ao modo superior como o músico consegue dominar a massa sonora, domando-a como se de uma fera se tratasse.

            Solou indiscriminadamente com as duas mãos e com uma terceira feita em arame, raspou as cordas, agrediu a caixa do instrumento, pôs os olhos e ouvidos em bico a quem estivesse à espera de uma prestação convencional. Explosões, ruído branco, sequências e automatismo rítmicos complexos, sobreposição de frases melódicas e soluções tímbricas arrojadas, mostraram à saciedade por que razão Sharp é hoje considerado um dos grandes mestres contemporâneos da guitarra elétrica. Durante os 45 minutos ininterruptos de risco e provocação auditiva em que Sharp atuou só, ruíram os alicerces do velho mundo.

 

Subversão a três

 

            Os Telectu entraram a seguir, acrescentando uma dose extra de agressividade ao tom orgiástico da noite. Jorge Lima Barreto percutia o seu DX7, criando uma selva digital entre a qual gritavam as guitarras desvairadas do nova-iorquino e de Vítor Rua. Por trás do palco eram projetadas imagens vídeo computorizadas acrescentando à “performance” o estímulo visual. Onde se esperaria talvez que os Telectu se espraiassem pelas paisagens mais rigorosas de “Digital Buiça”, como ponto de apoio para as intervenções de Elliott Sharp, aconteceu ao invés uma improvisação a três, um pouco à maneira da praticada pelo coletivo AMM, na mesma tentativa de subversão e reconversão dos códigos estéticos e pressupostos éticos subjacentes ao jazz e à música contemporânea. A um espetáculo que se anunciava integrado nas celebrações do Dia Mundial da Música, não se podia pedir melhor.