07/05/2026

"Ao vivo é a hora de ser" [Marisa Monte]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Cultura

 

Marisa Monte traz novo espetáculo a Portugal

 

“Ao vivo é a hora de ser”

 

Há qualquer coisa em Marisa Monte que apela aos sentidos. A cantora brasileira impressiona pela voz envolvente, mas também por uma presença física que, na pose distante, sabe atear o desejo. Arto Lindsay, John Zorn e Ryuichi Sakamoto sucumbiram ao fascínio, no novo disco da jovem diva. Lisboa e Porto vão vê-la, escutá-la e pedir “Mais”.

 

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

 

“A minha música e a minha presença em palco, são extensões do que eu sou” – explica ela. Talvez resida aí o segredo desse algo indefinível que “encanta as pessoas” e que os portugueses terão oportunidade de verificar “in loco”, dias 25 e 26 em Lisboa, na Aula Magna, e a 28 no Coliseu do Porto.

PÚBLICO – Em relação aos concertos de Lisboa e do Porto, quais serão as diferenças quanto à atuação de há um ano, no Festival “Sons do Mar”?

MARISA MONTE – Isso foi antes do meu segundo disco [“Marisa Monte”]. A principal diferença é que, desta vez, vou apresentar um maior aparato cénico. Trazemos alguns panos de fundo do Brasil, algumas projeções em 16 mm. É um “show” reduzido, diferente do que faço no Brasil mas, mesmo assim, bem melhor que a minha apresentação do ano passado. Vai ter uma hora e meia de duração.

P. – Que reportório escolheu para os dois espetáculos?

R. – Basicamente o meu reportório dos dois discos e músicas inéditas. Ao todo, o “show” vai ter umas 18 músicas, incluindo canções de Tim Maia, “Não quero dinheiro, só quero amar”, Johnny Nash, “I can see clearly now”, Lennon/McCartney, “Dig a pony”, uma de Tom Waits, “Temptation”. E uma ópera, “La Sonnambula”, de Bellini...

P. – Trata-se de um regresso às origens de cantora lírica?

R. – Há muito que tinha vontade de o fazer. Mas agora cantarei a ária sobre uma base totalmente contemporânea, sem o menor compromisso com a orquestração original de Bellini. Canto a melodia sobre uma base de banda, mesmo. É uma coisa que vou estrear aqui em Portugal.

P. – Em termos de apresentação visual, como será a imagem que vai dar de si às plateias portuguesas?

R. – É isso aí, quem vier verá...

P. – Costuma afirmar que não pretende assumir-se como estrela. Mas o facto é que, aos 23 anos e com apenas dois discos gravados, o seu sucesso já é imenso...

R. – Tenho que ter muita lucidez, porque o sucesso é uma coisa que, por pouco que nós mudemos, leva toda a gente a mudar em relação a nós. Então, não posso perder a noção de compromisso que tenho com a música, e não com a minha imagem, nem com essa coisa de ser estrela. Acredito que o meu sucesso se deve sobretudo ao trabalho.

P. – É por isso que tem o hábito de controlar até ao mínimo pormenor todos os aspetos da sua carreira, desde a preparação dos espetáculos, aos discos e à imagem?

R. – É uma característica importantíssima. O meu trabalho tem cada vez mais um traço não de compositora mas de autora. Escolher o produtor, a encenação, o reportório, ensaiar a banda, tudo isso são coisas que eu faço, pedindo sempre a opinião das pessoas que estão perto. Mas cada vez mais tenho maior autoridade sobre o meu trabalho. Autoridade, não autoritarismo.

P. – Com a sua idade revela uma grande maturidade...

R. – Não é fácil, porque se está a lidar com interesses diversos: da editora, da banda... Certas coisas podem parecer ótimas para toda a gente, mas não para você. Podem gritar “está ótimo, vamos nessa” e isso não ser realmente o melhor. Tenho o cuidado de não me expor demais. Acredito que o consumo é uma coisa perigosa por isso não o fomento: não vou à televisão, não faço “playback”. Sou uma pessoa que preza os princípios e a própria integridade.

P. – Essa recusa tem relação direta com a imagem de distanciação que parece cultivar?

R. – Mantenho essa distância em relação a certas coisas, e proximidade em relação a outras. O que não fomento é a imagem de estrela, para mim pejorativa. Sou uma pessoa normal e faço questão de o ser. Só assim é possível ter liberdade de movimentos e um mínimo de vida privada.

 

“Playboy”, não

 

P. – Ao vivo, essa distância desaparece, anulada pela gestualização extrema e por uma entrega total ao espetáculo, que lhe são características...

R. – Ao vivo é a hora de ser. Se há um momento em que eu tenho de estar exposta, esse momento é no espetáculo. Agora não faço campanha política, nem apareço “pelada” na “Playboy”. Não faço fotografia de moda, nem cinema, nem “comerciais” na televisão. Existem muitas solicitações e oportunidades, mas nem todas são boas. Às vezes é preciso saber perder uma oportunidade...

P. – Até agora a escolha do seu reportório tem incidido em “standards” ou em temas de outros compositores. Considera-se uma intérprete de música brasileira ou apenas uma intérprete que, por acaso, nasceu no Brasil?

R. – Ah sim, o Brasil no mundo! Não o Brasil para dentro do Brasil. O Caetano fez isso no estrangeiro, entrou em contacto com a Pop internacional, com outros músicos. Lá porque sou brasileira tenho de cantar só músicas brasileiras?

P. – Mas o Caetano manteve-se de certa forma fiel às origens brasileiras. Não receia o perigo da descaracterização?

R. – Mas o meu segundo disco [“Mais”, produzido por Arto Lindsay e com a colaboração de nomes sonantes da “downtown” nova-iorquina, como John Zorn e Bernie Worrell ou o japonês Ryuichi Sakamoto] é muito mais brasileiro do que o primeiro. Acho fundamental manter essa ligação, se não teria sido uma cantora lírica. Há em mim toda uma formação ligada à música brasileira, ao Cartola, à Carmen Miranda, ao Assis Valente, compositores de todos os tempos. O Caetano, o Gilberto Gil, o João Gilberto gritam dentro de mim. Não tenho qualquer intenção de ir viver para fora do Brasil e de fazer uma carreira em inglês, tipo Cindy Lauper. Antes de ser cantora, sou brasileira.

P. – Agora que cada vez mais se fala em “world music”, apetece lembrar uma frase de um jornalista brasileiro: “estar na moda é saber renovar a tradição”. Esta frase aplica-se à sua música?

R. – Acho que sim. O mundo está cada vez mais ligado. É um só planeta. As distâncias tornaram-se menores e as músicas de cada país influenciam-se mutuamente. No Brasil isso aconteceu muito. “Mais” é um disco gravado em Nova Iorque e no Brasil mas, apesar disso, destina-se ao mercado brasileiro. Não seria louca ao ponto de fazer um disco para o mercado internacional sem ninguém me conhecer. Só que a qualidade técnica, de produção, permite o lançamento em qualquer parte do mundo.

P. – Com uma carreira ainda curta, pode dizer-se que chegou, viu e venceu. Como encaram os seus colegas da MPB, que demoraram anos a chegar ao topo, essa sua ascensão quase instantânea?

R. – É apenas uma questão de trabalho.

P. – Trabalha então mais que todos eles?

R. – Pelo menos mais do que a média... acho que sim.

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