PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 9 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock
A
ESQUERDA NO PODER
Robert Wyatt e
Billy Bragg assumem-se ambos de esquerda, anti-situacionistas e
anti-imperialistas. A diferença principal entre os dois está em que, enquanto
Billy Bragg não passa de um músico vulgar, para quem gravar discos se resume a
um meio eficaz de fazer passar o discurso contestário, Robert Wyatt é um
artista genial, preocupado com o universo em que vive, mas também com a criação
de novas formas para a música. O primeiro põe-se em bicos de pés para se fazer
ouvir. Ao segundo, basta abrir a boca e soltar a voz trémula, para que os
corações caiam a seus pés. Billy Bragg é membro de todas as associações
políticas, subscritor de todas as siglas e de todas as campanhas “contra”.
Robert Wyatt dedica-se aos copos, à sua mulher polaca, pintora e ativista, à paixão
pelo jazz e à gravação de obras-primas em disco. Nas barricadas da rua ou na
quietude tensa de uma cadeira de rodas, a luta prossegue, impulsionada pelos
sonhos de um mundo que julgam ser o melhor. “Dondestan” e “Don’t Try this at
Home” aí estão para o provar.
ROBERT
WYATT
a
queda de um anjo
É possível dividir a carreira de
Robert Wyatt em dois períodos distintos: antes e depois da queda. O acidente,
ocorrido em 1973, durante uma festa, quando, devido aos efeitos perniciosos do
álcool, caiu para a rua da janela de um quarto andar, condenou-o para sempre à
cadeira de rodas e à condição de paraplégico, e obrigou-o a um corte radical
com o passado. Até à data fatídica, Wyatt era o baterista dos Soft Machine,
banda que, ao lado dos Pink Floyd, constituía um dos pilares do movimento
vanguardista ocorrido em Canterbury, na Inglaterra, nos finais da década de 70.
A formação original dos Soft Machine
incluía, para além de Wyatt, Daevid Allen (mais tarde fundador dos Gong), Kevin
Ayers (excêntrico, detentor de uma fase inicial de carreira imaculada) Mike
Ratledge e Hugh Hopper. Com estes músicos, os Soft Machine gravaram um par de
álbuns, em que procedem à fusão inusitada de uma pop tipicamente inglesa com
desmultiplicações rítmicas características do jazz.
“Third”, o duplo álbum seguinte,
representa o culminar de um estilo demasiado avançado para a época. Neste
disco, Wyatt assina e canta a longa melopeia “The moon in June”, na qual estão
já presentes os germes da sua música futura. Consumado o abandono dos Soft
Machine, demasiado complexos e intelectuais para o seu gosto (ainda cumpriu as
sessões de gravação correspondentes a um dos lados do álbum número quatro,
enquanto trabalhava já no seu primeiro disco a solo, “The End of An Ear”),
Wyatt reúne novos músicos e forma os Matching Mole (tradução fonética do
francês “machine molle” – precisamente o mesmo que Soft Machine…). “Matching
Mole” e “Little Red Record” são os dois testemunhos brilhantes deixados por
esta formação, já com sinais evidentes da futura militância, aqui ainda
limitados a uma paródia ao imaginário e iconografia maoístas.
Depois, o momento de viragem. A queda
e um futuro obrigatoriamente diferente. Impossibilitado de tocar bateria, Wyatt
afirma que o acidente acabou por lhe ser vantajoso: “A estadia no hospital
deixou-me livre para sonhar.” O resultado deste corte abrupto com o passado,
“Rock Bottom”, é, sem exagero, uma das obras musicais máximas deste século.
Mergulho na loucura e no fundo do abismo. Vocalizações patéticas sobre uma eletrónica
sombria e obsessiva. Exorcismo traumático da dor. Experiência do limite da
solidão humana.
“Ruth Is Stranger than Richard”, o
disco seguinte, funciona num registo mais “cool”, constituindo uma série de
exercícios alógicos sobre sonoridades tão variadas como o jazz, a música
afro-cubana ou o “muzak” ambiental. Fred Frith, Brian Eno e John Cale são alguns
dos músicos presentes na sessão. Entre estes dois discos, um “hit” inesperado,
com a versão do tema dos Monkees, “I’m a believer”.
Em 1980, cada vez mais preocupado com
o agravamento da situação mundial e com os problemas do Terceiro Mundo, Robert
Wyatt entra para o Partido Comunista. Em termos de produção musical, a opção
salda-se pelo álbum “Nothing Can Stop Us”, paradoxalmente violento e delicado
manifesto anticapitalista, onde temas como o tradicional cubano “Guantanamera”,
“Strange fruit” de Billie Halliday, o hino estalinista “Stalin wasn’t stallin’”
ou a Internacional adquirem uma intensidade a um tempo perversa e demolidora.
A seguir, um mini-álbum com a banda
sonora de “The Animals”, documentário que denuncia as atrocidades cometidas
sobre os animais, em nome da investigação científica, de mais um single nos
tops (“Shipbuilding”, composto especialmente para si por Elvis Costello, a
propósito das vítimas da guerra das Malvinas) e um EP, “Amber and the
Amberines”, contendo versões de “Biko”, “Yolanda” e “Te recuerdo”, respetivamente
de Peter Gabriel, Pablo Milanés e Victor Jara. Depois, Robert Wyatt regressa
aos álbuns, com “Old Rottenhat”, preocupado com problemas como a ocupação de
Timor-Leste ou a prepotência dos “united states of amnesia”, tornados senhores
do mundo.
Para trás, ficavam colaborações com
Michael Mantler, Ben Watt e os Working Week, ou a aliança com o ativista dos
Specials/Special Aka, Jerry Dammers, e cantores da SWAPO, traduzida noutro
single, “Winds of Change” (1985), em que se condena a ocupação da Namíbia pelo
exército sul-africano, e uma canção, “The last nightingale”, destinada à
angariação de fundos a favor da greve dos mineiros ingleses.
Wyatt acredita realmente que a música
pode contribuir para as mudanças do mundo. Pensa, por exemplo, que o concerto
de homenagem a Nelson Mandela contribuiu de alguma maneira para a sua
libertação, “embora não fizesse desaparecer o ‘apartheid’”. Segue-se o exílio
voluntário para o sol da Catalunha, na companhia de Alfie (diminutivo de
Alfreda Benge, a quem dedica o tema final de “Old Rottenhat” – “Poor little
Alfie”), o reatar de relações com o jazz, à sua maneira – “sou um turista do
jazz, não um participante ativo” – e, finalmente, o regresso a Inglaterra e a
assunção das origens pop, no novel e notável “Dondestan” (onde estão?” –
pergunta, a propósito dos refugiados palestinianos e do Kurdistão). Sempre ao
lado desses e doutros refugiados, do mundo e da vida, Robert Wyatt continua a
lutar, em combustão lenta. Contra as prepotências do destino e a estagnação do
espírito. Nos seus discos a dor é redimida, consubstanciada em liberdade. É o
seu testemunho e a sua vingança.
BILLY
BRAGG
cantor
a martelo
Billy Bragg canta mal, toda a gente
que o ouviu o sabe. Mas não é isso que interessa: “Não sou um cantor, nunca
serei um Pavarotti, nem sequer um Rick Astley” – reconhece, para logo adiantar:
“O mais importante é o conteúdo”. Billy Bragg é militante empenhado do RAR
(Rock Against Fascism). Cerra fileiras ao lado da CND (Campaign for Nuclear
Disarmament). Faz horas extraordinárias na YTS (Youth Training Scheme). Almoça
todos os dias na cantina do YTUR (Youth Trade Union Rights Campaign). Além
disso, tem assinatura na GLC (Gas Light Chanticleer) e costuma frequentar o
clube privado da SEX (Sociological Entertainment Xenogamy). É aquilo a que se
costuma chamar um “camarada”.
De facto, para Billy Bragg, o mundo é
uma m***a, resumindo-se a questão essencial à proverbial luta de classes e à
exploração dos fracos pelos fortes. Billy, fanático do futebol, não admite
contudo a existência de uma linha média. Suporta-a só enquanto esta lhe for
comprando discos. A subida ao poder de Margaret Thatcher foi, para si,
providencial. É preciso ter um inimigo contra quem lutar, que sirva de estímulo
– “É impossível escrever uma boa canção política se não houver o ambiente
apropriado.” Com a “dama de ferro” no poleiro, foi-lhe mais fácil fazer álbuns
como “Life’s a Riot with Spy vs. Spy” ou “Brewing up” ou “Talking with the
Taxman about Poetry”.
Embora não o encare como um poço de
virtudes, aderiu ao Labour Party – “Tem no seu seio tantos reacionários que se
fica a pensar se não se terão enganado na escolha do partido.” Mas, como em
tudo, é preciso escolher, escolheu o que lhe pareceu melhor. “Madonna usa os
‘soutiens’ pontiagudos, eu uso o Partido Trabalhista. A diferença é que o
partido é mais sexy.” O sexo é, de resto uma das suas principais preocupações.
No álbum acabado de sair, “Don’t Try This at Home”, um dos temas intitula-se,
sem ambiguidades, “Sexuality”. Diz assim: “Safe sex doesn’t mean no sex, it just
means use your imagination” – para, de seguida, agitar a bandeira do Maio de 68
e do amor livre: “Sexuality – strong and warm and wild and free, sexuality – we
can be what we want to be.” Não
está mal visto.
O que faz correr Billy Bragg, fundador
da Red Wedge, uma agremiação de músicos pop de que fazem parte músicos como
Gary Kemp, dos Spandau Ballet – presença um pouco suspeita, a deste
neo-romântico da treta; mas, como Billy faz questão de frisar, “quer queiramos
quer não, temos que trazer as classes médias do mundo connosco” – e Paul Weller
(The Jam, Style Council) destinada a apoiar o partido nas eleições? Quer dizer,
para além de, como ele próprio diz, “ter relações com raparigas de muitas
nações”, vibrar com o futebol e, como todo o bom inglês, beber litros e litros
de chá?
“Quando da greve dos mineiros, não fui muito bem recebido” – resmunga, sentido. “Perguntaram-me o que é que estava a fazer ali, de guitarra em punho. Respondi-lhes que era eu quem atraía os jovens de 18 anos e lhes chamava a atenção para ouvir aquilo que eles, mineiros, tinham a dizer. Fiz-lhes ver que é esta a minha profissão.” Billy Bragg, porta-voz das minorias, devia ser eleito. Já.
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