PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 13 JULHO 1992 >> Cultura
III
Encontros Musicais da Tradição Europeia abrem a frio
E tudo o vento levou
Com o som mais alto e menos
vento do que esteve na sexta-feira à noite, o Parque dos Anjos, em Algés, é um
bom local para se ouvir música folk. De outro modo custa um bocado. A atuação
do irlandês Liam O’Flynn, exímio tocador de “uillean pipes”, e dos seus
companheiros Dónal Lunny, Nollaigh Casey e Neal Martin, que abriram os III
Encontros Musicais da Tradição Europeia, ressentiu-se da forte ventania que se
fez sentir. Quando seria de esperar uma noite esfuziante de “reels”, “jigs” e
outras cadências populares irlandesas de puxar ao pé, aconteceu, em vez disso,
uma prestação morna que nunca chegou a aquecer as muitas pessoas que se
deslocaram ao local desejosas talvez de reviver ao vivo o fantasma dos Planxty.
Além dos elementos, também a
amplificação, pouco potente, não ajudou. A cinco metros dos músicos, dispostos
sob uma árvore iluminada, ao fundo do pequeno anfiteatro do parque, ainda se
ouvia qualquer coisa, por entre as rajadas de vento. Cá mais para trás, só a
intempérie e uns sons fracos vindos de longe, a uns 20 metros de distância. A
dez centímetros, deve ter sido fabuloso.
Liam O’Flynn, o lendário
gaiteiro dos Planxty, lá foi apresentando os temas, entre o “show” das “pipes”
que ele maneja tão à vontade como se de um copo do bom velho (12 anos já não
está mal) “Jameson” “whisky” se tratasse, mas via-se que também ele tremia de
frio. Sobressaíram as cadências mais lentas, aquelas em que era possível
distinguir com maior nitidez o som dos instrumentos, um “air” interpretado a
solo no violoncelo por Neal Martin e as intervenções de Liam O’Flynn no “tin
whistle”, no meio de uma versão, que não fez esquecer a dos Chieftains, de
“Tabhair dom do lámh” e “Music for a found harmonium”, dos Penguin Cafe
Orchestra, que decididamente está muito “in” entre os grupos de música
tradicional.
Dónal Lunny (militou nos
Planxty, passou pelos Bothy Band e acabou na produção, com destaque para a
coletânea “Bringing It All Back Home”), na guitarra, “bouzouki” e teclados,
Neal Martin, no violoncelo e Nolaigh Casey (a rapariga que debutou nos Oisin),
no violino, mostraram o que valem nos respetivos instrumentos. Mostraram, é
como quem diz, sugeriram, nos momentos em que a audição se tornava em puro
exercício de adivinhação. Mas valeu a pena, até porque a sua reputação não é
pequena.
Os concertos prosseguem no
mesmo local, amanhã, com Elena Ledda & Suonofficina, da Sardenha, e
Muxicas, da Galiza e quarta-feira, com os escoceses Capercaillie. Na sexta,
atuam Amélia Muge e o trovador da Occitânia Jean-Marie Carlotti. Depois, pelo
mês fora até à primeira semana de agosto, os Encontros repartem-se por Évora,
Guarda e Guimarães. Que S. Pedro esteja com eles é o que se deseja – um Verão
tradicional.
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