16/09/2026

A política do amor [Étienne Daho]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 13 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

“Paris Ailleurs”, álbum de Étienne Daho, editado em fevereiro em Portugal

 

A política do amor

 

“Paris Ailleurs”, o novo álbum de Étienne Daho, foi gravado em Nova Iorque, fala de Alfama, da saudade e de deambulações amorosas em volta de um quarto. “Guloso” de música e de literatura, o cantor bretão admira Lou Reed, Gainsbourg e Boris Vian. Entre múltiplas viagens e solicitações, comove-se com o fado e com a cidade de Paris.

 

Uma imagem com texto, ar livre, árvore, relva

Descrição gerada automaticamente

 

Solicitado constantemente por outros artistas, em França e no estrangeiro, de Chris Isaak a Bill Pritchard, de Lio a Sylvie Vartan, Étienne Daho não tem mãos a medir. Aos 35 anos de idade, o cantor bretão está prestes a tornar-se uma estrela internacional. O facto da sua editora ser a Virgin ajuda muito. A virgindade tem as suas vantagens embora o cantor se assuma como rival de Cicciolina quando afirma praticar a “política do amor”.

            “Paris Ailleurs” faz parte de um pacote da Edisom para o ano em curso, de novos discos de John Cale, Ashley Maher, Public Image, Ryuichi Sakamoto e Nick Cave, entre outros ou, na Virgin francesa, dos Mano Negra, Jean-Louis Murat e Téléphone.

            PÚBLICO – “Paris Ailleurs” foi gravado em Nova Iorque, com Peter Scherer, um dos nomes mais prestigiados da cena “underground” norte-americana. Que critério presidiu à escolha?

ÉTIENNE DAHO – Trabalhei muito em Londres, em álbuns anteriores. Neste caso quando cheguei ali não tive nenhum “feeling” especial. Por outro lado havia músicos com quem queria trabalhar que se encontravam em Nova Iorque. Também estive quase para gravar em Lisboa...

P. – O disco acabou por ser misturado em França...

R. – Queria que participassem no disco alguns músicos franceses que aprecio, nomeadamente Edith Fambuena, a guitarrista e cantora do grupo “Les Valentins”, que acabou por tocar todas as partes de guitarra e me ajudou na co-produção. É verdade que no princípio havia só músicos americanos – Carlos Alomar, ou o baterista dos B-52’s, Tom Durack, com os quais comecei a gravar –, mas a combinação não resultou.

 

Viagem sexual

 

P. – “Paris Ailleurs” é um álbum de viagens?

R. – Sim, é verdade. O álbum fala de viagens, de um vaivém constante. Não gosto muito de gravar em França, fica-se demasiado próximo do quotidiano. O facto de se ser francês no estrangeiro atua como um revelador da nossa natureza profunda. Nunca me sinto tão francês como quando estou no estrangeiro.

P. – Que são as “viagens imóveis” mencionadas na canção do mesmo nome?

R. – São outro tipo de viagens, talvez mais sexuais. As “viagens imóveis” falam de amor. Todo o álbum fala de amor e, por consequência, de sexo. A canção é um pouco como uma viagem à volta do quarto. Há a paixão e a intensidade do que se sente por alguém que nos toca, que nos faz viajar e partir.

P. – Neste álbum, alude por diversas vezes de forma explícita à cidade de Paris, a começar pelo título. Que significado tem para si, enquanto artista, Paris?

R. – Descobri Paris há 10 anos. Antes, já lá tinha vivido nos tempos de criança. Nasci na Bretanha mas Paris é a minha casa, os meus amigos. Funciona como uma base. Sou muito instável e sinto uma necessidade constante de movimento. Paris representa a possibilidade de poder parar e de “pousar as malas” por momentos. É uma cidade sublime mas ao mesmo tempo não consigo permanecer nela durante muito tempo. Estou sempre a viajar, num estado de busca permanente.

P. – Uma das canções do álbum chama-se “Saudade”. A letra parece um retrato de Lisboa.

R. – “Saudade” fala realmente de Lisboa, de Alfama, das suas vielas fantasmagóricas e dos seus terraços onde o sol se despenha. Depois de conhecer a cidade fiquei a conhecer bem o significado de “saudade”. Sempre que ouço fado tenho vontade de chorar. “Saudade” foi a primeira canção que compus para o álbum, depois de ter estado em Lisboa. A partir daí deixei-me ir ao sabor da paixão, das palavras, da música...

P. – Desprende-se de “Paris Ailleurs” uma impressão de profunda melancolia, de nostalgia...

R. – Sim, mas ao mesmo tempo é um disco muito positivo, precisamente porque fala de amor, a única experiência humana capaz de mover montanhas.

P. – O disco pretende de algum modo recuperar a tradição dos grandes clássicos da canção francesa? Há influências assumidas?

R. – Sim, sobretudo de Gainsbourg, para mim o grande mestre da canção francesa. Também gosto bastante de Boris Vian, de Barbara, de Françoise Hardy, das canções de Jeanne Moreau. A tradição francesa vive muito do texto, do aspeto literário em detrimento do rítmico. É verdade que a França não inventou o “rock ‘n’ roll” e por isso teve de “roubá-lo” aos americanos e aos ingleses. A França correu sempre de forma desenfreada atrás do “rock ‘n’ roll”, o que considero um erro. Aos poucos foram pessoas como eu, da minha geração, educados no rock, que acabaram por assimilá-lo de uma forma mais natural.

P. – O rock está presente em temas como “Des attractions desastres” ou na versão de “Berlue”, de Françoise Hardy, sobretudo ao nível dos arranjos que recordam Lou Reed e os Velvet Underground...

R. – Embora se trate de artistas cuja música aprecio muito – considero Lou Reed um mestre – nunca me passou pela cabeça imitá-los. Não tenho o complexo do “rock ‘n’ roll”. Prefiro deixar falar a minha verdadeira personalidade e deixá-la desenvolver-se até ao infinito.

“Sou muito guloso de música”

 

P. – A sua música lembra, por vezes, a de Bill Pritchard. Ou será o contrário, já que um álbum deste cantor inglês foi produzido por si? Poder-se-á falar de uma identidade musical entre os dois?

R. – Essa identidade existe de facto e é a razão por que trabalhámos juntos. Interessamo-nos ambos em escrever canções com bons textos, que apelem ao lado emocional. Bill está mais ligado ao aspeto político. Por mim, prefiro praticar a política do amor.

P. – Alguém dos Working Week convidou-o para cantar com Julie Tippetts. Foi difícil para si, que está ligado à pop, cantar com uma das vozes mais exóticas do jazz atual?

R. – Não, de maneira nenhuma. Creio que, para além dos rótulos, é mais importante a mistura de pessoas, sejam elas semelhantes ou diferentes de nós. O que interessa é desenvolver uma atitude de espontaneidade. Não sou um artista rígido, sou curioso, gosto de me juntar e trabalhar com outras pessoas. É uma das razões que me leva a fazer co-produções de outros artistas, no intervalo da gravação dos meus próprios discos. Permite-me ter acesso a outros universos. Sou muito guloso de música.

P. – Também participa no álbum a solo do produtor Arthur Baker, ao lado de Al Green e Jimmy Sommerville...

R. – A ideia partiu do próprio Arthur Baker. Trata-se de um álbum internacionalista e ele deve ter achado que eu dava um bom representante de Paris...

P. – Outros músicos estrangeiros parecem ser da mesma opinião...

R. – É verdade. Tenho sido contactado por pessoas como Marianne Faithfull, Carly Simon e Boy George, para trabalhar com elas e há outras possibilidades de colaboração. Prova que a língua não constitui uma barreira e que a música é um gerador de emoções sem fronteiras.

 

 

Música no coração [Tom Waits]

 

TELE PÚBLICO

Domingo 12.01.1992

 

NA CAPA

 

MÚSICA NO CORAÇÃO

 


            Não é um grande disco mas tem que se lhe dar o devido desconto por causa da “partenaire”, chamemos-lhe assim, de Tom Waits, nesta banda sonora de sonhos cor-de-rosa em pano de cenário. A senhora, Crystal Gayle, espécie de Julie Andrews da música “country”, foi recrutada por Coppola à última hora para substituir Bette Midler, que já fizera dueto com Waits em “I never talk to strangers”, do álbum “Foreign Affairs” mas que na altura não se encontrava disponível, ocupada talvez numa cura de emagrecimento ou num curso de técnicas de contenção vocal. Não foi uma boa troca. Gayle deveria ter ficado em casa a coser meias ou a escutar os discos de Loretta Lynn, a sua irmã mais velha, esta sim, verdadeira lenda da “country music”.

            E por falar em manas, o casamento natural teria sido com Rickie Lee Jones, irmã espiritual de Tom Waits e sua acompanhante de copos e noitadas. Infelizmente, uma bebedeira mal curada levou ao corte de relações, gorando-se deste modo uma colaboração que poderia ter dado a “One From the Heart” colorações musicais bem mais estimulantes.

            Cinjamo-nos porém à realidade, o que, dada a natureza do objeto em questão, não deixa de soar a paradoxo. Como ficou gravado para a posteridade, “One From the Heart” é, na maior parte das composições que Tom Waits se viu obrigado a partilhar com Gayle, um disco amarrado a lugares-comuns – “Música no Coração”, estrelinhas e borbulhas de “champagne”. Certo que as imagens de Coppola parecem não falar de outra coisa, mas o romantismo do autor de “Small Change”, “Blue Valentine” e “Swordfishtrombones” não se compadece com “confetti” e vai mais fundo, carregado de negro e nuvens de “bourbon”. Crystal Gayle devia ter medo dele em vez de cantar com ele. Repare-se no contraste das expressões que ambos ostentam na capa. Waits, músculos faciais repuxados para baixo, mira-nos pelo canto do olho, como quem diz “olha-me esta garina armada em gata borralheira”. A seu lado, Gayle, qual Cinderela de “T-shirt” florida, sorri embevecida, no esplendor de uma dentadura imaculada e uma frescura “Bien Être”. A bela e o monstro sobre o fundo “Disneylândia” idealizado pelo cineasta para tapar os horrores de “Apocalypse Now”.  Neste, o fogo-de-artifício da loucura. Em “One from the Heart” o artifício do fogo da paixão.

            Orquestração de sons e formas de sentir. Uma canção como “The wages of love” é pura simulação de sentimentos, acumulação de referências “Waitianas” despojadas de carne e osso (em oposição radical ao mais recente trabalho do compositor, “Bone Machine”, retrato esventrado sobre o tema da morte), substituídos por plástico, “make-up” e arranjos de veludo. “Is there any way out of this dream?” pergunta Crystal Gayle na canção seguinte, com a angústia de Alice no País das Maravilhas que quer tudo menos sair do sonho. Dimensão onírica que o tema final, “Presents”, acentua, em sons de caixa-de-música que não destoariam numa partitura de Badalamenti para David Lynch (interessante, de resto, a comparação das estéticas de “One from the Heart” e “Blue Velvet”, nas quais o jogo das aparências funciona, no caso de Coppola, como ocultação e, no de Lynch, como corpo submetido ao escalpelo. Celebração do excesso, em ambos os casos, na gama completa que vai da “feérie” ao pesadelo).

            Liberto do espartilho da cantora com voz doce, a sequência dos cinco temas que ocupam mais de metade do segundo lado revela finalmente Tom Waits instalado no seu universo de bares e cidades assombrados: da balada sumptuosa “I beg your pardon” ao tango canalha (“The tango”), a mascarada de um circo surreal, em “Circus girl” e o batimento cardíaco de “You can’t unring a bell”. Porque o coração é vermelho por fora, cor de rebuçado, de Crystal Gayle, do vestido de Teri Garr, mas também músculo de carne que dói. Abandonarmo-nos a “One From the Heart” é como andar de baloiço. Quanto maior a ilusão e a subida, maior a queda.

Zíngaro grava e atua no estrangeiro [Carlos Zíngaro]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 9 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

Violinista só fora de casa faz milagres

 

Zíngaro grava e atua no estrangeiro

 

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

           

Carlos Zíngaro, violinista, “cartoonista”, improvisador e experimentador de sons e ideias, um dos mais interessantes e menosprezados músicos portugueses, conotado com as chamadas “novas músicas”, não tem mãos a medir. Da agenda para o ano em curso consta uma mão-cheia de projetos, entre espetáculos ao vivo, a edição de três novos CD e uma série de colaborações com alguns dos melhores executantes europeus da música improvisada. Violinista português só fora de casa faz milagres.

            Já em janeiro, Carlos Zíngaro atuará em Vandoeuvre-les-Nancy, no festival “Musique Action”, um dos mais prestigiados do género que se realizam todos os anos na Europa. Dois meses depois, em março e abril, será a digressão pela Alemanha, Áustria e Suíça, integrado nos “Canvas Trio”, ao lado da contrabaixista francesa Joelle Léandre, com a qual Zíngaro vem há anos mantendo colaboração regular, e o clarinetista alemão Rüdiger Carl, conhecido sobretudo pelos seus trabalhos em duo com a pianista Irene Schweizer. Em junho será a vez do festival de Nocci, na Itália, de parceria com Joelle Léandre.

            No capítulo das edições discográficas está prevista a saída de três novos CD do violinista, apesar de tudo, português. “Carlos Zíngaro Solo au Monastère des Jerónimos” foi gravado, como o nome indica, nesse mesmo local que durante séculos fez História e em breve passará à história, trocando com o Centro Cultural de Belém o papel de “ex-libris” da nossa vocação universalista. Na editora francesa “In Situ” e com algum atraso, motivado por problemas técnicos surgidos na fábrica. Uma boa oportunidade para as entidades culturais portuguesas descobrirem o músico, ex-Plexus, ex-Banda do Casaco e desde há anos aceite fora de portas como membro “oficial” da vanguarda europeia. Por tudo isto e pelo jeito que dá o local onde o disco foi gravado, a Comissão dos Descobrimentos devia aproveitar.

            Previsto está também um CD com os “Canvas Trio”, para o selo austríaco Hat-Hut em cujas fileiras militam músicos tão importantes como Anthony Braxton, Steve Lacy, Cecil Taylor e os Vienna Art Orchestra. Por último, e ainda no formato compacto, uma colaboração com o trio parisiense de eletro-acústica “Un Drame Musical Instantané”, constituído por Jean-Jacques Birgé, Bernard Vitet e Francis Gorgé. De notar a terminação em “ê” de todos os nomes – verdadeiramente dramática e eletro-acústica.

            Durante o próximo mês de fevereiro, Carlos Zíngaro colaborará com o teclista Richard Teitelbaum – já gravaram juntos uma atuação ao vivo captada no Festival de Victoriaville, Canadá – na apresentação em Berlim da ópera “Golem” inspirada na figura mítica judaica que serviu de tema à obra homónima do místico e romancista Gustav Meyrink.

 

João Peste impõe condições [Pop Dell'Arte]

PÚBLICO SÁBADO, 4 JANEIRO 1992 >> Cultura

 

Pop Dell’Arte inauguram catálogo de editora

 

João Peste impõe condições

 

“Ready-Made”, o novo álbum dos Pop Dell’Arte, sairá em fevereiro na editora Variodisc. É a grande aposta para o lançamento em força deste novo selo independente. Mas João Peste impõe condições.

 


“Ready-made” tem como data prevista de lançamento o dia 6 de fevereiro. Já em meados deste mês o maxi “MC Holy/2002” chegará aos escaparates nacionais. “Ready-made”, como os surrealistas chamavam a objetos que a deslocação mágica do olhar e o humor transformavam em obras-de-arte, reúne seis temas entre os quais “Ballad of Lilly-Io”, “808 loop”, “Jani’s pearl” e versões diferentes das incluídas no maxi, “MC Holy” e “2002”, recuperadas no de formato CD.

Gravado no Exit estúdio, em Lisboa, o novo álbum tem produção de João Peste, Rafael Toral e Luís Sampayo e a assistência técnica de Paula Margarida e, nalguns temas, de Jonathan Miller, que já havia trabalhado no disco de estreia dos Resistência. Para João Peste o novo disco não representa uma rutura com a orientação estética que a banda tem vindo a seguir nos últimos tempos – uma mistura de “house” e pop psicadélico embalada em doses industriais de teatro, eletricidade e “glamour”.

 

Quem controla quem?

 

Numa altura em que as bandas nacionais parecem apostar em contratos com multinacionais, não deixa de causar uma certa estranheza a opção dos Pop Dell’Arte por uma editora ainda sem provas dadas, como a Variodisc. “O disco beneficiou de um orçamento global equivalente ao de uma multinacional”, garante João Peste, para quem a proposta da Variodisc, para além de “boa”, surgiu “na melhor altura”. Mas mais importante que o aspeto financeiro é o “controlo em termos estéticos, de orientação e de promoção” que os Pop Dell’Arte não dispensam à partida. “Uma garantia que a maior parte das bandas portuguesas não tem”, mas que João Peste procura a todo o custo assegurar, “de poder centralizar nas próprias mãos todos os aspetos ligados à promoção do disco”. O ideal seria, ainda segundo Peste, o de “assegurar os serviços” – pagos pela editora – “de alguém da confiança da banda para tratar de todas estas questões”. De referir que o contrato agora assinado com a Variodisc prevê a edição de um único disco. “Não há qualquer outro vínculo da nossa parte em relação à nova editora”, como João Peste faz questão de acentuar.

É neste ponto, sobre quem assegurará o trabalho de promoção – alguém da editora ou a própria banda – que parecem surgir os primeiros sinais de clivagem entre os Pop Dell’Arte e a Variodisc, numa relação que, longe de se poder considerar conflituosa, poderá não ser de todo pacífica. Fala-se em descoordenação (na Variodisc afirma-se, por exemplo, que o maxi “MC Holy/2002” já fora distribuído antes pela Polygram; João Peste insiste que o dico nunca saiu dos armazéns) e na pouca sensibilização do “staff” da editora à música dos Pop Dell’Arte. O que nem será de estranhar se atendermos a que um dos homens ligados à Variodisc, Pedro Cardoso, esteve ligado a áreas musicais como o “heavy metal”, o “thrash metal” ou o “hard core”.

            Seja qual for a solução encontrada, João Peste não prescinde do que considera uma condição necessária: “Mesmo que a promoção seja entregue a alguém da editora, terá de ser em total coordenação connosco”.

 

À conquista da Europa


            Do lado da Variodisc, as estratégias editoriais encontram-se em fase de definição. Formada em outubro do ano passado, o novo selo dirigido por Pedro Cardoso, Carlos Alberto Pereira e Alfredo Graça pretende, segundo o primeiro, “abarcar os catálogos não distribuídos ou editados em Portugal”. Embora não haja “uma orientação estética específica” esta por certo não deixará de contemplar os géneros mais pesados atrás aludidos. O que não impediu a Variodisc de já ter lançado no mercado a caixa dos Cocteau Twins ou uma série de discos piratas, dos Aerosmith, U2, Rolling Stones e Led Zeppelin, entre outros, “tendo o cuidado de lançar ‘bootlegs’ de editoras, como a Pluto ou a Great Dane, que previamente e segundo a legislação em vigor, depositaram uma soma a ser entregue aos artistas, por cada exemplar vendido”, apressa-se Pedro Cardoso a explicar. Previsto está também o lançamento dos primeiros discos da editora holandesa Provogue, da qual a Variodisc é distribuidora oficial em Portugal.

            Embora sem “o apoio de nenhum grupo financeiro” o recém-nascido selo faz parte de uma “holding” nacional que inclui um despachante, um transitário e uma firma de “import-export” com o escritório na Holanda, a Vegatan, o que permitirá a distribuição neste país, no Benelux e no resto da CEE, do novo disco dos Pop Dell’Arte e das outras bandas que vierem a fazer parte do catálogo.

            Para Pedro Cardoso, até há pouco na Anónima (agora ligada à Valentim de Carvalho) é a oportunidade de poder trabalhar com “eficácia e rapidez” ao contrário do que acontecia na antiga editora. “Detestava estar dois e três meses à espera de uma encomenda de discos, retida no despachante ou na alfândega, porque a Valentim de Carvalho tinha outras coisas pendentes, como os lançamentos da EMI. E a Anónima ficava sempre para trás”. Estas razões ditaram o afastamento do homem da “música pesada”. Acabou por tornar-se numa questão pessoal: “Quando souberam que tinham ficado ligado a esta nova editora e que procurava tentar importar alguns discos do catálogo da Anónima, deixaram de me falar e impediram-me de entrar nas lojas da VC”. “Estou à espera da versão deles”, afirma, resignado. 

20/05/2026

Peter Hammill - The Fall Of The House Of Usher

 

Pop Rock

18 de Dezembro 1991

 

A QUEDA DA CASA DE HAMMILL

 

Peter Hammill
The Fall of the House of Usher
2xLP, CD, Some Bizarre, import. Contraverso


    Há quase vinte anos que os incondicionais de Peter Hammill ouvem falar na célebre ópera. Esta chegou finalmente, e com ela o sabor da desilusão. O perfeccionismo, a tentativa de deixar para a posteridade um testemunho definitivo do seu génio foram fatais para o antigo vocalista dos Van Der Graaf Generator. Aprisionado num estilo que no passado frutificou nas obras-primas “Pawn Hearts”, “In Camera”, “Over”, “The Future Now” ou “A Black Box”, Hammill revelou-se, a partir deste último disco, incapaz de ultrapassar as suas próprias contradições, arrastando-se em “In a Foreign Town” e “Out of Water” numa agonia que nem a experiência com computadores de “Spur of the Moment” conseguiu sarar.

A famigerada ópera parte da narrativa de Edgar Allan Poe, “A Queda da Casa de Usher”, adaptada a “libretto” por Chris Judge Smith. Escolha óbvia de enquadramento para as paranóias do músico: a incomunicablidade, a hipersensibilidade mórbida, a tendência para a autodestruição. Hammill incarna, como não podia deixar de ser, a figura do nobre alucinado Roderick Usher, que vive aprisionado nas paredes – as suas paredes, o seu pesadelo – de uma casa doente. Andy Bell é o amigo, Montresor. Lene Lovich, a irmã, Lady Madeline, enterrada viva por Usher. Herbert Grönenmeyer, o ervanário. Não falta o coro, à maneira das tragédias gregas, interpretado por uma só voz, de Sarah-Jane Morris, e as “vozes da casa”, desempenhadas por Peter Hammill.

A história da maldição, loucura e decadência, que consuzem à ruína final, não podia ser melhor escolhida para traduzir o universo estético-existencial do ex-Van Der Graaf. À música, infelizmente, falta o fulgor e o génio de que este foi pródigo em obras anteriores. A insistência sistemática nas texturas orquestrais realizadas por computador procura, ao nível da paleta tímbrica, associações com a grandiosidade desesperada da sequência “Gog/Magog” de “In Camera”, mas a repetição dos registos de cravo e a tirania das cordas, interrompidas por uma ou outra ousadia pontual, acabam por tornar monónota a audição.

Como novidade, apenas os jogos vocais e a presença de vozes femininas, inéditos na obra do compositor. Dos seis atos em que se divide a obra, da descrição da paisagem desolada que rodeia a casa maldita à derrocada final, destacam-se o tom sinistro das sobreposições vocais de Hammill em “Architecture”, síntese de uma das suas obsessões de sempre, a fobia dos espaços fechados e a simbiose edifício-homem, evidente em temas anteriores da sua discografia como “A house with no door”, “(In the) black room” e “A louse is not a home”, e o diálogo Usher/Montresor em “Leave this house”, dilaceração de Roderick Usher entre o apelo do amigo para abandonar o ventre do monstro e a consciência de um destino trágico a cumprir no seio da casa. O ancestral combate entre as forças do bem e do mal, entre os anjos e os demónios que vivem dentro de cada um de nós, que Hammill já gritara no emblemático “Killer”, de “H to He, who am the only one”.

Temas como “One thing at a time” ou “The herbalist” dir-se-iam escritos por Meat Loaf. Na maioria dos casos, a música contenta-se em servir de contraponto às palavras. Faltam sobretudo ideias, uma dinâmica diferente, de maiores contrastes, que sublinhasse com outra força o desenrolar da tragédia. Não era Hammill (e neste “era” ressoa a mágoa da oportunidade perdida) o pai de todos os excessos? (6)

Herman José - Na Telefonia (Sem Fios)

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

O RISO ESSENCIAL

 

HERMAN JOSÉ
Na Telefonia (Sem Fios)
LP, Emi – Valentim de Carvalho

     Considerar Herman José um génio não é piada. O humor é coisa séria e Herman não brinca em serviço. No seu caso, ter graça é uma forma de vida, uma maneira de ser e de observar a realidade pelo lado em que esta quebra e se revela ridícula. A piada de Herman José não está (só) na anedota, na explosão final, mas no processo intermédio, na construção de um ambiente ou de uma situação, na exploração delirante de um tique, de uma inflexão vocal, de uma parcela de vida arrancada ao quotidiano. Humor lateral, de pormenores, com sabor a iguaria.

Ao contrário da chalaça burocrática, piadista e populista dos Parodiantes de Lisboa, instituição do humor radiofónico nacional, Herman José inventa e improvisa sem cessar a partir de situações particulares, espremendo de cada uma a essência do cómico. As suas estratégias de desconstrução conceptual e linguística são em parte devedoras dos Monty Python, sacerdotes-mor do humor mais inteligente do mundo ao qual, não por acaso, a maioria dos portugueses permanece indiferente, chamando-lhe “estúpido” ou “sem pés nem cabeça”, sem perceber que o humor é isso mesmo – uma anatomia do absurdo. Os incondicionais, esses veneram John Cleese e co. como figuras de culto. Nessa medida as subtilezas da comicidade de Herman apenas podem ser apreciadas até ao tutano por uma minoria. Só que o humorista bem sabe as linhas com que se cose o riso dos portugueses, conferindo em paralelo ao seu trabalho, na televisão ou na rádio, uma veia mais popular e picaresca, quando no disco incarna as figuras de Ivette Marise (“Os tamanhos” e “A fertilidade”) ou do Estebes (“Entrevista a Rosa Mota”, “A vida de um desportista”). Mas os momentos de antologia desta seleção de “sketches” retirados das sessões diárias na TSF acabam por ser aqueles em que o humor pia mais fino: “Guerra do Golfo”, “Lição de inglês”, “Pedro Almodovar ao telefone” (que ao lado de “Frank Sinatra ao telefone” recuperam os monólogos de Raul Solnado nos anos 60) e sobretudo nos magistrais “Entrevista a John Majors”, “Donald e o ventríloquo” e “Espanha homenageia Amália”, portentos de capacidade histriónica, caricatura e espírito de observação. Com Herman José, com ou sem fios, “é só rir, é só rir”. (8)

 

Egberto Gismonti Group - Infância

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

EGBERTO GISMONTI
Infância
CD, ECM, distri. Dargil


O pecado de Egberto Gismonti é querer parecer europeu. Em “Infância”, o músico perde muito da magia a que nos habituara em trabalhos anteriores à fase ECM e parte do fulgor que hbbita ainda obras já gravadas com o selo alemão. Aqui a intuição dá lugar a um discurso mais analítico, mesmo quando títulos como “A fala da paixão” ou “O amor que move o sol e outras estrelas” parecem sugerir o contrário. Álbum de progressões lentas e de assumida contenção, “Infância” prova que o reconhecido virtuosismo instrumental de Gismonti, ao piano ou na guitarra acústica, por si só não chega para entusiasmar, soando forçado e perdendo-se não poucas vezes em exercícios de estilo destituídos de chama interior, como acontece nas danças finais, nºs 1 & 2, ou na construção dos edifícios harmónicos com o violoncelo de Jacques Morelenbaum, falhos de originalidade e de inspiração. Bastante mais compensador é escutar Gismonti em “Kuarup” – reeditado ao mesmo tempo que esta “infância” desvalida que até vai buscar, na capa, um poema de Pessoa – encontro do músico com as raízes e o mistério da tradição e cultura do povo Xingu da Amazónia. Onde as águas e o génio fluem com a naturalidade que só a convivência com a verdade permite. (6)