PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s
EGBERTO GISMONTI
Infância
CD,
ECM, distri. Dargil
O
pecado de Egberto Gismonti é querer parecer europeu. Em “Infância”, o músico
perde muito da magia a que nos habituara em trabalhos anteriores à fase ECM e
parte do fulgor que hbbita ainda obras já gravadas com o selo alemão. Aqui a
intuição dá lugar a um discurso mais analítico, mesmo quando títulos como “A
fala da paixão” ou “O amor que move o sol e outras estrelas” parecem sugerir o
contrário. Álbum de progressões lentas e de assumida contenção, “Infância”
prova que o reconhecido virtuosismo instrumental de Gismonti, ao piano ou na
guitarra acústica, por si só não chega para entusiasmar, soando forçado e
perdendo-se não poucas vezes em exercícios de estilo destituídos de chama
interior, como acontece nas danças finais, nºs 1 & 2, ou na construção dos
edifícios harmónicos com o violoncelo de Jacques Morelenbaum, falhos de
originalidade e de inspiração. Bastante mais compensador é escutar Gismonti em
“Kuarup” – reeditado ao mesmo tempo que esta “infância” desvalida que até vai
buscar, na capa, um poema de Pessoa – encontro do músico com as raízes e o
mistério da tradição e cultura do povo Xingu da Amazónia. Onde as águas e o
génio fluem com a naturalidade que só a convivência com a verdade permite. (6)
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