PÚBLICO SÁBADO, 2 NOVEMBRO 1991 >> Cultura
Paco
de Lucía em concerto telúrico, em Lisboa
Flamenco,
do coração aos pés
Com Paco de Lucía e
o seu sexteto, a música sobe da terra pelo corpo acima, passando pelo coração
para acabar nos pés. Foi assim anteontem à noite no Coliseu dos Recreios, em
Lisboa.
Lotação esgotada para assistir ao
flamenco e sentir o sangue correr nas artérias, nas veias e na música de Paco
de Lucía. Estranhamente, era escasso o contingente cigano presente no recinto.
Costuma ser ele a fazer a festa. Sem o fogo cigano, houve maior comedimento no
aplauso, que não menor entusiasmo.
Paco de Lucía e os restantes seis
músicos que constituem a sua atual banda de suporte deram espetáculo, em várias
aceções da palavra – de virtuosismo técnico, de emoção, de comunicação com o
público. Sobre um palco decorado com um friso de plantas a sugerir ambiências
tropicais, Paco de Lucía começou por tocar a solo, na guitarra de flamenco que
é parte de si próprio, um tema que deu o mote ao resto do concerto: a
miscigenação de estilos, o cruzamento de referências e linguagens, servidos
sempre por uma sensibilidade extrema e alicerçados na rítmica do flamenco.
Aos poucos foram surgindo os restantes
músicos. Primeiro, apenas dois para marcar com batimento de palmas o intricado
do compasso sobre o qual o guitarrista deu livre curso à sua faceta de genial
improvisador. Finalmente, e depois de um novo duo, desta vez em instrumentos de
percussão, o sexteto inteiro em incursões ora na genuína música cigana, sentida
até ao fundo nas vocalizações de José Sanchez Gomez, ora em aproximações ao
jazz ou à música árabe.
Sem negar as virtudes da criação
coletiva, pelo menos na primeira parte do espetáculo, foi notória uma menor
energia, quando comparada com o telurismo arrasador das prestações de Paco de
Lucía, a sós com a guitarra.
O intervalo parece ter sido benéfico
para os intervenientes em palco. Como se a primeira parte tivesse sido um
aquecimento para a segunda, pondo de lado todas as reservas relativas a uma
“traição ao flamenco” e à “pureza” do mesmo. Seria caso para dizer que
“traidores” desta estirpe são sempre benvindos. Num ápice esqueceram-se a
objetividade e as ferroadas da razão. O corpo fazia valer os seus direitos.
Manoel Soler salta para um palanque situado frente aos músicos e é o terramoto
cigano. As mãos voam, desenham figuras no espaço, os pés sapateiam ora com asas
ora como tiros, matraqueando a madeira, com ternura, com fúria, com o ritmo a
marcar as pulsações do coração. Os gestos evocam os do toureio. Como se ao
homem fosse natural o desafio, a arte de domesticar a besta, o instinto
sublimado na dança. Só não dançou o público, por falta de espaço.
Momentos altos foram também um belo
solo de flauta de Jorge Pardo, trazendo para o Coliseu reminiscências do
feitiço árabe ou o espantoso dueto/diálogo/confronto entre a guitarra de Paco
de Lucía e a “bandurria” de Ramon Sanchez Gomez, numa cavalgada empolgante que,
na vertigem e no transe da dança, se confundiram com um “dervishe” acelerando
no corpo e no espírito mediterrânicos.
Retiraram-se os músicos mas a
assistência queria mais, batendo por sua vez com os pés no soalho do Coliseu.
Desejo parcialmente satisfeito nos dois “encores” em ritmo de descompressão,
incluindo uma música de feira perfeitamente dispensável, insuficiente para
estragar um espetáculo a todos os títulos notável. À saída do caldeirão de
emoções, houve talvez quem, cigano ou não, se sentisse, mais do que nunca,
nómada da vida. O flamenco continuava a pulsar, agora no coração da noite.
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