PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 31 OUTUBRO 1991 >> Cultura
Paco
de Lucía traz o flamenco a Lisboa e ao Porto
“Ver
a vida através da guitarra”
Nómada de alma
cigana e andaluza, Paco de Lucía transporta na guitarra flamenca o fogo e a
inquietude. Mas também a alegria do ritmo e a proximidade de todas as músicas
do mundo. Hoje à noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, vai perceber-se por
que cantou um dia: “Solo quiero caminar”.
Fala devagar, pausadamente, quase para
dentro. Como que temendo desconcentrar-se, por um segundo, da guitarra omnipresente.
Para Paco de Lucía tudo se resume ao instrumento que desde os oito anos de
idade aprendeu a tocar: a guitarra de flamenco. “Instrumento muito ingrato” –
diz, com um sorriso cúmplice –, “basta uma semana sem pegar nela para se
desaprender a tocar”.
Claro que não é assim. Paco de Lucía
vibra em consonância com as cordas da guitarra. Segundo a lei dos mestres,
funde-se na unidade de um corpo único, feito de carne e de madeira, animado
pelo fogo: “Para tocar bem guitarra, é necessário dedicar-lhe toda a vida e
abdicar de coisas talvez mais agradáveis. Mais é preciso ver a vida através da
guitarra, o que se pode tornar muito pesado.”
Queda-se impotente a gravidade, mal os
dedos afloram o metal. Chispas de lume interior, enfeitiçante. À semelhança de
outros grandes guitarristas para quem a guitarra constitui uma religião (John
McLaughlin, Carlos Santana, com os quais de resto já tocou), a prática musical
reveste-se para si de um significado místico, ponte e porta para a
transcendência, libertação: “Quando chega o duende da inspiração [chama-lhe,
num disco, “Duende Flamenco”], tenho a sensação que me vou, que saio fora de
mim, que flutuo no ar.” Inspiração. Respiração. “Depende do dia. Depende do que
se tem na cabeça. A minha música é um abstração que provoca sensações animais.
Não tem uma coerência literária. Não exprime ideias concretas. A única mensagem
é emocional. Ou se sente ou não se sente.”
Por isso, nos Coliseus de Lisboa e do
Porto onde tocará acompanhado por um sexteto constituído por Ramon Gomez, José
Gomez, Ruben Dantas, Carlos Benavente, Jorge Pardo e Manuel Soler, tudo
dependerá da inspiração do momento: “Vai haver muita improvisação.”
Dizer então apenas o som. E a luz. Luz
mediterrânica do Sol andaluz. Demasiado branca, que cega a razão, obrigando-a a
desejar, inconsciente, a água da fonte e a sombra dos pátios interiores da
alma. Ou essa indefinição que tudo abarca (e tão presente também no fado
português) gerada na conveniência cigana, essa raça “chegada à Europa há 500
anos, ainda sem uma música própria”, mas que, numa paragem do tempo “em cada
lugar onde se estabelece, agarra na música local, adaptando-a à sua própria
maneira de sentir”.
Paco de Lucía faz o mesmo com o
flamenco – “nasci no flamenco, vivo no flamenco” – e com as outras músicas do
mundo: “Sou alguém que não para de evoluir, à procura de conhecimento e de
contacto com outros tipos de música, para as poder adaptar à minha própria
criação.”
Busca incessante de infinito, no
cruzamento com diferentes universos musicais, que o leva ao diálogo constante
com intérpretes oriundos dos mais diversos quadrantes musicais: John
McLaughlin, Carlos Santana, Larry Coryell, Al Di Meola. Há muito que pensa
gravar um disco com Carlos Paredes. Só não o fez ainda por “falta de tempo para
confrontar ideias e ensaiar”.
Também os discos refletem essa
apetência pela variedade e pela síntese de linguagens: “Siroco” é trespassado
pelos ventos africanos. “Zyryab” reinventa de forma exuberante o
“flamenco-jazz”. O próximo álbum será uma interpretação do “Concierto de Aranjuez”,
de Joaquín Rodrigo, com a guitarra clássica do original substituída pela maior
dinâmica rítmica da sua congénere flamenca. Trata-se talvez dessa necessidade
de “alimentar o espírito, bem mais complicada do que alimentar a barriga”,
referida pelo músico. Afinal, uma questão de sobrevivência.
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