08/05/2026

"Ver a vida através da guitarra" [Paco de Lucía]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 31 OUTUBRO 1991 >> Cultura

 

Paco de Lucía traz o flamenco a Lisboa e ao Porto

 

“Ver a vida através da guitarra”

 

Nómada de alma cigana e andaluza, Paco de Lucía transporta na guitarra flamenca o fogo e a inquietude. Mas também a alegria do ritmo e a proximidade de todas as músicas do mundo. Hoje à noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, vai perceber-se por que cantou um dia: “Solo quiero caminar”.

 

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Fala devagar, pausadamente, quase para dentro. Como que temendo desconcentrar-se, por um segundo, da guitarra omnipresente. Para Paco de Lucía tudo se resume ao instrumento que desde os oito anos de idade aprendeu a tocar: a guitarra de flamenco. “Instrumento muito ingrato” – diz, com um sorriso cúmplice –, “basta uma semana sem pegar nela para se desaprender a tocar”.

Claro que não é assim. Paco de Lucía vibra em consonância com as cordas da guitarra. Segundo a lei dos mestres, funde-se na unidade de um corpo único, feito de carne e de madeira, animado pelo fogo: “Para tocar bem guitarra, é necessário dedicar-lhe toda a vida e abdicar de coisas talvez mais agradáveis. Mais é preciso ver a vida através da guitarra, o que se pode tornar muito pesado.”

Queda-se impotente a gravidade, mal os dedos afloram o metal. Chispas de lume interior, enfeitiçante. À semelhança de outros grandes guitarristas para quem a guitarra constitui uma religião (John McLaughlin, Carlos Santana, com os quais de resto já tocou), a prática musical reveste-se para si de um significado místico, ponte e porta para a transcendência, libertação: “Quando chega o duende da inspiração [chama-lhe, num disco, “Duende Flamenco”], tenho a sensação que me vou, que saio fora de mim, que flutuo no ar.” Inspiração. Respiração. “Depende do dia. Depende do que se tem na cabeça. A minha música é um abstração que provoca sensações animais. Não tem uma coerência literária. Não exprime ideias concretas. A única mensagem é emocional. Ou se sente ou não se sente.”

Por isso, nos Coliseus de Lisboa e do Porto onde tocará acompanhado por um sexteto constituído por Ramon Gomez, José Gomez, Ruben Dantas, Carlos Benavente, Jorge Pardo e Manuel Soler, tudo dependerá da inspiração do momento: “Vai haver muita improvisação.”

Dizer então apenas o som. E a luz. Luz mediterrânica do Sol andaluz. Demasiado branca, que cega a razão, obrigando-a a desejar, inconsciente, a água da fonte e a sombra dos pátios interiores da alma. Ou essa indefinição que tudo abarca (e tão presente também no fado português) gerada na conveniência cigana, essa raça “chegada à Europa há 500 anos, ainda sem uma música própria”, mas que, numa paragem do tempo “em cada lugar onde se estabelece, agarra na música local, adaptando-a à sua própria maneira de sentir”.

Paco de Lucía faz o mesmo com o flamenco – “nasci no flamenco, vivo no flamenco” – e com as outras músicas do mundo: “Sou alguém que não para de evoluir, à procura de conhecimento e de contacto com outros tipos de música, para as poder adaptar à minha própria criação.”

Busca incessante de infinito, no cruzamento com diferentes universos musicais, que o leva ao diálogo constante com intérpretes oriundos dos mais diversos quadrantes musicais: John McLaughlin, Carlos Santana, Larry Coryell, Al Di Meola. Há muito que pensa gravar um disco com Carlos Paredes. Só não o fez ainda por “falta de tempo para confrontar ideias e ensaiar”.

Também os discos refletem essa apetência pela variedade e pela síntese de linguagens: “Siroco” é trespassado pelos ventos africanos. “Zyryab” reinventa de forma exuberante o “flamenco-jazz”. O próximo álbum será uma interpretação do “Concierto de Aranjuez”, de Joaquín Rodrigo, com a guitarra clássica do original substituída pela maior dinâmica rítmica da sua congénere flamenca. Trata-se talvez dessa necessidade de “alimentar o espírito, bem mais complicada do que alimentar a barriga”, referida pelo músico. Afinal, uma questão de sobrevivência.


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