Pop Rock
30
OUTUBRO 1991
HUMANO
DEMASIADO DESUMANO
Chega de crueldade.
Sabe-se como os animais são pau para toda a obra. Em nome do progresso ou da
vaidade humana, mata-se e destrói-se, no fundo, uma parte de nós mesmos.
Disposto a enfrentar a situação, o PETA luta em várias frentes pela causa
animal. Contra os dislates da besta humana, com a música de “Tame Yourself” a
ajudar.
No reino
animal, como nos outros, há bons e maus filhos e enteados. Há animais
simpáticos, sem sombra de dúvida: o cão, o golfinho, a baleia, o esquilo, o
panda, etc. Outros provocam uma indisfarçável repulsa: os vermes, as ratazanas,
a lesma, algumas espécies de políticos ou os insetos em geral.
O ser humano
tem o costume de dizimar indiscriminadamente uns e outros. No primeiro caso,
trata-se de uma atrocidade. No segundo, de uma desinfestação. Matar um vison,
para a confecção de um casaco que irá resguardar do frio um ser humano
“desprotegido”, é uma atrocidade. Mas envenenar milhares de ratazanas que fazem
pela vida na cidade, é uma desinfestação.
Grita-se de
indignação ao mínimo gesto mais brusco para com um okapi do Alto Volta. Mas
pontapear uma barata indefesa contra a parede, provocando-lhe fratura de
crânio e outras lesões por vezes fatais, é considerado uma ação desejável,
encorajada com um sorriso nos lábios.
Dá-se um
ligeiro toque num urso polar e logo surge, lesto, o Greenpeace de polegar
acusador a gritar: “Extermínio!” mas quando num laboratório se assassina, de
uma penada, milhões de micróbios com uma única vacina, toda a gente desvia o
olhar e finge que não vê.
Brincadeiras proibidas
Trata-se de
uma problemática a que foram sensíveis músicos como Nina Hagen, Lene Lovich,
Michael Stipe (nos últimos tempos tem ido a todas), K.D. Lang, Belinda
Carlisle, Jane Wiedlin e os grupos Raw Youth, B-52’s, Erasure, Go-Go’s, Indigo
Girls e Pretenders. Todos juntos resolveram gravar um disco em defesa dos
direitos dos animais, intitulado “Tame Yourself” (já criticado no Pop Rock),
sob os auspícios do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals). “Pet”
quer dizer em inglês “animal de estimação”. Não é peta, é verdade. Fazem falta
mais “PETAs" como esta, neste mundo-cão.
O tema que
dá nome ao álbum, “Tame yourself” foi escrito pela nova banda Raw Youth, cujos
membros aparecem, no “clip” promocional, envergando fatos de banho de pele
falsa. No mesmo teledisco, aparecem ainda Chrysse Hynde, dos Pretenders, Fred
Schneider e Kate Piersen, dos B-52’s, Howard Jones e outros, “dançando e
brincando com vacas, porcos, cavalos e outros animais”, como diz a promoção.
Vamos todos brincar e dançar com as vacas e os porcos, e dar uma ajudinha à
PETA.
Os lucros de
“Tame Yourself” destinam-se a apoiar várias iniciativas, empenhadas em pôr fim
à “crueldade para com animais nas indústrias de cosméticos, laboratórios
experimentais e no comércio de peles”. Ainda segundo a promoção, o álbum
“celebra a vida, sem alienar aquelas pessoas que comem carne e vestem peles”.
Porquê sem alienar? Tais pessoas deviam ser todas, e já, alienadas.
Alienem-nas, para acabar de vez com esse gesto bárbaro que é comer um bife. Já
agora, e sem querer desestabilizar, convém saber que também as plantas têm
sentimentos, reagindo, tal como nós, à dor e à adversidade. Parece que até os
iogurtes sentem. Está cientificamente provado.
Especificamente
sobre o problema dos animais abatidos para o fabrico de peles, realizaram-se
vários espetáculos (o de Washington atraiu, junto ao monumento, cerca de
35.000 pessoas), sob o título genérico “Rock against Fur”, nos quais
participaram, entre outros, os B-52’s, Howard Jones, 10.000 Maniacs,
Psychedelic Furs (precisamente…) e Sugarcubes.
O Homem contra a Natureza
É possível
brincar com coisas sérias. Mas sabe-se como os animais são maltratados: costuma
dizer-se que, pela maneira como cada um lida com os animais, assim lida com os
humanos, e é verdade. Será utópico querer parar de repente com a violência que,
em nome da ciência ou da vaidade humana, se comete, a cada momento, contra os
animais e contra a natureza em geral?
O PETA já
conseguiu resultados práticos. Campanhas efetuadas na Europa e na Austrália
resultaram na proibição de utilizar animais em testes nas firmas Revlon, Avon,
Benetton, Estée Lauder; a redução mundial das encomendas de casacos de pele; o
encerramento, na Coreia do Sul e em Montana, EUA, de quintas de criação de
animais, destinados exclusivamente à indústria de peles, ou do maior matadouro
de cavalos da América do Norte. O fecho de um laboratório, pelo Governo
americano, que levou, inclusive, à prisão de um vivisseccionista (embalsamador)
e a denúncia sistemática das atrocidades cometidas sobre os animais, nos
laboratórios, nos circos, nos zoos e em espetáculos são outras das vitórias
alcançadas pelo PETA.
Mas a
situação não se alterará radicalmente, enquanto o homem persistir em
considerar-se o rei da criação. Enquanto encarar a natureza como uma matéria
bruta a explorar em seu proveito. Enquanto não compreender que a vida é
constituída por um elo único. Enquanto não admitir a sua própria estupidez.
Enquanto
assim for, não há PETA que nos valha, ou melhor, que valha aos irmãos animais.
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