26/06/2009

A tradição é uma sandes de presunto [Gaiteiros De Lisboa]



Sons

2 de Janeiro 1998

Gaiteiros de Lisboa falam de “Bocas do Inferno”

A tradição é uma sandes de presunto

Com o seu segundo álbum, “Bocas do Inferno”, os Gaiteiros de Lisboa elevaram a fasquia relativa ao modo de fazer uma música que, por enquanto, não dispensa o material tradicional, embora olhe para ele como “um camponês olha para um porco gordinho, como presunto e toucinho”. “Bocas do Inferno” foi justamente considerado pelo Sons, um dos melhores álbuns portugueses do ano. Três dos Gaiteiros, Carlos Guerreiro, José Manuel David e Rui Vaz, explicaram o que mudou no grupo, na passagem da barbárie para o Inferno.

Entre críticas à produção do álbum de estreia e a satisfação do novo disco estar a vender-se bem, os Gaiteiros mudaram de atitude e de métodos de trabalho. Ou melhor, a diferença de um para outro disco é que agora têm um método de trabalho.
PÚBLICO – Assumiram uma mudança de atitude e de processos criativos neste novo álbum?
CARLOS GUERREIRO – Passou a haver um maior equilíbrio de energias no seio do grupo. A criação, embora repartida, obriga a certa altura a não perder mais tempo. Isto tem a ver com o facto de o José Manuel David e eu passarmos a ser um crivo de todo o trabalho criativo do grupo. Digamos que fomos mandatados para darmos a última palavra. Foi o que fizemos, em termos de produção, direcção musical e direcção de estúdio. Se calhar, o que se nota neste disco é uma maior uniformidade de atitude. O outro disco foi gravado de forma extremamente descontínua, As vezes debaixo de uma grande tensão e nem sempre nas melhores condições. Neste, nota-se o reflexo de um certo conforto em estúdio.
RUI VAZ – Houve processos muito diferentes. Quando acabámos o outro disco, o espectáculo ao vivo já estava feito. Neste momento, passa-se o inverso. Tem que se construir um espectáculo a partir do disco.
FM – Em termos de arquitectura musical, “Bocas do Inferno” é um disco bastante mais barroco que “Invasões Bárbaras”...
R. V. – No jazz acontece uma coisa semelhante. Há a improvisação, mas também houve sempre outra parte: os Duke Ellingtons que escreviam os temas e os orquestravam. No princípio, todos os temas dos Gaiteiros foram construídos a partir de uma improvisação colectiva. Mas quando um tipo está fechado em casa a pensar no que vai fazer e a arquitectar uma determinada estrutura sem ter ninguém que lhe dê na cabeça, é natural que haja coisas que saiam mais complexas...
JOSÉ MANUEL DAVID – ... a arquitectar a partir do seu enquadramento pessoal. É assim, faz-se um tema em casa: “É pá, tenho aqui um tema porreiro!” Depois levamo-lo ao colectivo e há sempre uma discussão: “Então e se fosse antes assim?” Para este disco, tivemos um orçamento mais reduzido, tivemos menos tempo, sendo obrigados a trabalhar de uma maneira em que eu e o Carlos tínhamos que responder pelas coisas. No outro disco, isso não se sentia tanto.
C. G. – No disco anterior, também tivemos uma disponibilidade maior, em termos de grupo. A malta ia manifestamente para o estúdio experimentar, gravar e ouvir as vezes que fossem precisas. Andámos assim durante três meses. Neste momento, nenhum dos elementos teria a disponibilidade para voltar a passar por essa “via sacra”.
R. V. – Tentávamos gravar a todo o custo, mas acabámos por despender muito tempo para fazer muito pouca coisa.
C. G. – Com esse tempo, tínhamos gravado um triplo-álbum...
P. – Toda a apresentação do disco e mesmo alguns títulos dos temas apontam para uma preocupação vossa em mostrar os instrumentos, alguns deles bastante estranhos, que utilizaram. É o lado didáctico dos Gaiteiros?
C. G. – A capa foi idealizada por mim. Lembro-me que, quando comecei a ouvir discos de música mais esquisita, como aquelas edições de Le Chant du Monde, uma das coisas que me dava um gozo imenso era pegar na capa. Inclusivamente, foi a partir de algumas dessa capas que comecei a construir os meus primeiros instrumentos, como flautas de Pã, afinadas como lá vinha. É importante as pessoas perceberem o que é que está a produzir determinado som. Se não, bastava pôr a marca do sintetizador...
P. – Não são poucos os instrumentos que utilizaram...
J. M. D. – Vinte e cinco! A sala de ensaio é um bocado como um museu. Até com instrumentos que nunca utilizámos.
P. – A escolha para cada tema deve ser difícil...
J. M. D. – Seria mais fácil se tivéssemos uma formação do tipo rock, com vocalista, guitarras, uns teclados, um baixo e uma bateria, cada um a tocar só aquilo.
C. G. – O que eu acho milagre é, por exemplo, os Rolling Stones conseguirem viver há 30 anos sempre a tocar os mesmos instrumentos! Mas isto também tem a ver com outra coisa. A música é um bicho que se pode agarrar por muitos sítios, pelos cornos, pelo rabo, pelas patas, pela pele, pelo lombo... A nossa atitude não tem nada a ver com a da maior parte dos outros músicos.
P. – Por onde é que vocês agarram?
J. M. D. – Pelos cornos! Uma pega como aquelas lá da minha terra, Vila Franca. Fazer o que fazemos, com os instrumentos que construímos, com os problemas todos que eles criam, porque não são instrumentos comprados em lojas, não é fácil. Não podemos ir ter com o representante e dizer: “Então esta merda não funciona?” No nosso caso, o representante é o Carlos.
P. – Menos a trompa, que foi comprada numa loja, não? Ou também já pensaram em desmontá-la e montá-la de outra maneira?
C. G. – Já pensámos em endireitá-la! [risos]
P. – Curiosamente, o álbum coloca uma ênfase muito forte nas vozes. Trabalharam-nas de forma diferente, em comparação com o disco de estreia?
C. G. – A diferença profunda, em termos de método de trabalho, foi termos tido um método de trabalho! [risos] O outro disco, entregámo-lo a um produtor [N.R. : José Mário Branco] que acabou por nos desiludir um pouco, já que não produziu nada. Foi um trabalho com ausência de produção.
P. – Continuam a respeitar as raízes tradicionais que, afinal de contas, ainda constituem a base de muitos dos temas do novo álbum?
J. M. D. – O “background” está lá. Não somos um grupo de música tradicional, nem nunca dissemos que éramos. Mas esse “background” permite-nos andar em torno dessa música com alguma segurança.
P. – Ainda ouvem discos ou gravações de recolhas tradicionais?
C. G. – Sim. Por exemplo, pego numa cassete de música de Trás-os-Montes e vejo o que é que há ali. Normalmente, aproveito logo o primeiro tema que ouço. No fundo, do que precisamos é de uma espécie de excipiente, de um corpo para vestir. As ideias que estão implícitas nessas recolhas fazem logo saltar uma quantidade de coisas. Para mim, da música tradicional, qualquer coisa serve.
R. V. – Chegámos à música tradicional pela via complicada. Já tínhamos uma série de coisas na cabeça. Quando ouvimos temas tradicionais, o que nos encanta mais são os seus elementos mais estranhos, mais fora do convencional.
C. G. – Eu olho para a música tradicional como um camponês olha para o seu porquinho, quando ele já está gordinho: presunto de um lado, toucinho do outro! [risos]
P. – Em “Bocas do Inferno” as gaitas-de-foles têm um papel mais discreto do que no álbum de estreia. Será que começa a fazer pouco sentido a designação do grupo?
R. V. – Costumo dizer que nos chamamos Gaiteiros de Lisboa porque em Lisboa não há gaiteiros. Acontece uma coisa engraçada na Galiza. O nome “gaiteiro” desencadeia logo algo na Galiza que não tem nada a ver connosco. Isso tanto pode funcionar a nosso desfavor como a nosso favor. Mas há quem na Galiza já ouça a nossa música como ela deve ser ouvida, uma música de pessoas que não se preocupam muito com a afinação, mas sim em não tocar sempre a mesma “muiñeira”.
P. – Já têm algumas indicações sobre as vendas de “Bocas do Inferno”?
C. G. – Já se venderam dois mil, ao fim de três semanas. As “Invasões Bárbaras” venderam cinco mil em dois anos...
P. – Depois da barbárie, o Inferno. Fizeram algum pacto com o Diabo?
J. M. D. – Talvez, metaforicamente. Para este disco, não. Mas para o próximo talvez venha a ser chamado mesmo.
C. G. – Devíamos pedir um subsídio para o disco ser vendido juntamente com aquelas acendalhas para lareira, “Lúcifer”! [risos]

O inferno e o paraíso [Balanço 1997 - música popular portuguesa]

Sons

2 de Janeiro 1998
BALANÇO 1997
Música portuguesa - Popular

O inferno e o paraíso

Para a música portuguesa mais ou menos ligada às raízes tradicionais, em termos editoriais, 1997 foi o ano de algumas confirmações, umas poucas desilusões e, sobretudo, muitas reedições.

Entre o triunfo do segundo álbum dos Gaiteiros de Lisboa, as viagens de dois Martins, o algodão doce dos Madredeus e um certo desencanto que rodeou a dedicatória de Né Ladeiras a Fausto, ficaram as oportunas reedições de trabalhos antigos de Amália, Brigada Victor Jara, Vai de Roda e Ronda dos Quatro Caminhos. E o enigma da não edição do segundo álbum dos Realejo, sabendo-se que o disco está pronto há quase um ano…
A instituição Brigada Victor Jara, de Tentúgal, depois de nos anos transactos terem lançado novos álbuns, respectivamente, “Marcha dos Foliões” e “Polas Ondas”, viram completada este ano, em CD, a sua discografia mais antiga. “Tamborileiro” e “Monte Formoso”, ilustrativos de duas fases distintas do grupo de Coimbra, e “Vai de Roda”, disco de estreia do colectivo do Porto, entraram logo em Janeiro para a lista de candidatos a reedições do ano, enquanto passava despercebido o segundo capítulo de “cante” alentejano dos Ganhões de Castro Verde.
Rui Júnior, maestro percussionista, mergulhou de cabeça no seu projecto de percussões portuguesas para as escolas, com a Expo no horizonte. Árvore que já dá frutos, na contramão ao laxismo habitual que teima em vigorar em Portugal. Cesária Évora, outra árvore, “perfeita como o passado”, deu-se de novo, oceânica, a ouvir, em “Cabo Verde”. Águas de Fevereiro.
Águas de Março escorreram da guitarra solitária de José Peixoto, nas suas “Vozes dos Passos”, pela primeira vez a solo. E o solo de Trás-os-Montes estremeceu, na colectânea, “Mirandun, Mirandela…”, obra de franceses, outra das reedições do ano, a fazer corar de vergonha o nosso desinteresse. Ainda nesse mês, choveu uma nova estrela, que o futuro de encarregará de fazer despontar ou não, Inês Santos, a dar voz ao projecto Segredo dos Deuses. “Graça de Tchega”, de Tito Paris, manteve quente e morna. Que aqueceu ainda mais, já em pleno Verão, com Ildo Lobo e “Nós Morna”. Ildo Lobo e Cesária Évora encontraram-se, ao vivo, no Coliseu dos Recreios, já perto do final do ano.
Morna esteve Né Ladeiras, quando, logo a abrir o mês de Abril, se entregou às canções mais esotéricas de Fausto e à defesa dos lobos. “Todo este Céu”, o álbum daí resultante, veio provar que, afinal, às vezes as “más” companhias dão melhores resultados que as “boas” e que os amigos nem sempre são para as ocasiões. Também morno e amigo do seu tio, com voz frágil e enfiado entre os dentes da engrenagem, esteve João Afonso. As suas “Missangas”, embora coloridas, primaram pela falta de nervo. O seu mítico tio daria um murro na mesa.
No pólo oposto à voz de filigrana de João Afonso, vibrou o tenor telúrico do açoriano José Medeiros, trazendo, por fim, as músicas para filme de “O Feiticeiro do Vento” para o mercado discográfico do continente. Mas os Açores também sabem dar-se a ouvir baixinho, tão baixinho como as “Instrumâncias” oferecidas pelos Almma, que, ao vivo, nos Encontros de Algés, preferiram abrir as goelas e a romaria, espalhando-se ao comprido num registo que não é o do álbum.
Ainda assuntos de família: Gil do Carmo não desmereceu a tradição do seu pai, rompendo embora com o fado, em “Mil Histórias”. “Miséria!”, bradaram aos deuses, ao ouvirem esse mostrengo Adamastor “inventado” a martelo pelos V Império, para meter medo aos Madredeus. O logro não vingou e a única coisa que mete medo em “Mar de Folhas” é a música.
O Império contra-atacou, com não menos pretensões mas, pelo menos, rodeado por uma saudável polémica, através dos Sacerdotes de Alquimia. 1997 foi então o ano dos replicantes e dos segredos mal contados, nessa zona de sombras onde o roxo do gótico casa mal com a brancura da pomba do Espírito Santo.
Do Branco ao Negro é um salto. Dado pelos angolanos African Voices, que em “Freedom”, o seu álbum de estreia, juntaram os espirituais negros com o dialecto angolano. E do negro ao branco é outro salto. De negro se vestia Anamar. De branco se veste agora. Em “M”, letra de mil mistérios, pressente-se a vontade dos astros, tentando dirigir uma voz ainda demasiado selvagem e em busca de uma via aberta do lado de dentro para o lado de fora.
E quando as primeiras folhas tombavam, anunciando o Inverno, o azul chegou. E com ele “O Paraíso”, dos Madredeus, cada vez mais um grupo centrado em torno da voz de Teresa Salgueiro, e aglutinador de paixões extremadas, entre a adoração e a rejeição, quando não estes dois sentimentos sobrepostos. Mas a felicidade, mesmo se servida em pastilhas, ou principalmente porque servida em pastilhas, vende e sacia as almas enfartadas de materialismo. Soa a “new age” a visão cada vez mais retocada de Pedro Ayres de Magalhães, mas as raízes continuam mergulhadas na noite dos tempos.
A viagem, conceito omnipresente na cultura portuguesa, foi retomada de forma inteligente, com uma sensibilidade também ela genericamente rotulada de “new age”, pelo saxofonista Carlos Martins com o guitarrista e teclista cabo-verdiano Vasco Martins. Com “Outras Índias”, a música portuguesa de fusão viajou até uma ilha onde Rão Kyao chegou a atracar, mas que cedo abandonou para se dedicar a voos mais ligeiros pelo seu Oriente pessoal.
Paulo Bragança provou, ao vivo, no Centro Cultural de Belém, que a música tradicional e o fado têm arcaboiço para aguentar o seu vampirismo “kitsch” e a sua comédia de horrores. Sons polémicos por um dos mais mediáticos cultores do escândalo nacional.
De palavras e poemas se alimentou o projecto Os Poetas, que no álbum “Entre Nós e as Palavras” e nas suas apresentações ao vivo restabeleceram o elo perdido – virtual mas não menos belo – entre a poesia e a musicalidade das vozes dos mortos e dos vivos. “Bocas do Inferno”, dos Gaiteiros de Lisboa, demonstrou que a barreira do segundo álbum pode ser ultrapassada sem sobressaltos, quando a criatividade se junta à originalidade e ao método. Um dos álbuns portugueses do ano. Para nós, o melhor. E que tudo mais vá para o Inferno, como, a propósito dele, escrevemos.
“Bum tum pom tchim”. As baterias dos Tim Tim por Tim Tum passaram de esguelha por um tema popular. José Salgueiro e restantes Tintins da bateria poderiam ter batido com mais força. Como bateu José Mário Branco, catedrático da dúvida e da revolta, numa acutilante série de concertos cujo disco deles resultante, “Ao Vivo em 1997”, não faz justiça ao seu teatro da crueldade.
Já ao cair do pano, foi reeditado outro dos momentos mais conseguidos da música portuguesa de raiz tradicional: o segundo álbum da Ronda dos Quatro Caminhos, “Cantigas do Sete Estrelo”, outra das reedições do ano, que em breve será objecto de recensão. Bem como o volume seis da série Música Tradicional, com incidência na “Terra de Miranda”.
Amália e José Afonso, os dois contrafortes da música popular lusitana, fizeram descer a noite. Da primeira, o seu “Segredo” a par de mais uma colecção de material de fundo de catálogo repuseram a sua verdade da música portuguesa. Amália é mãe do nosso fado. O segundo, trazendo para a luz do dia o seu trabalho mais antigo, em forma de “Baladas e Canções” que continuam a ter na poesia a sua arma principal.
Rio Grande e “Vozes e Guitarras”, dois megaprojectos, dirigem-se a um megamercado de um país que é mais melga do que mega. Uns copiam, outros preguiçam, alguns facturam, muito poucos triunfam. E os novos, onde estão?

Faust - Faust Wakes Nosferatu

Sons

2 de Janeiro 1998
DISCOS – POP ROCK

Faust
Faust Wakes Nosferatu (6)
Think Progressive, import. Ananana

Nos anos 70, os Faust tornaram-se uma lenda. Nos anos 90, estes mesmos Faust, ou os dois elementos que restaram da formação original, Joachim Irmler e Werner Diermaier, têm-se encarregado de a destruir.
“Faust Wakes Nosferatu” é uma “banda-sonora”, mais uma, para o clássico filme de vampiros de Murnau, interpretada ao vivo por Irmler e Diermaier com o auxílio de uma série de convidados. O que nela choca mais não é tanto o clima de caos generalizado que atravessa todo o disco, mas a impressão de que esse caos foi encenado de maneira a coincidir com a imagem, gasta, de niilismo actualmente cultivada pelo grupo, na senda dos Einsturzende Neubauten.
Ficam as batidas secas de bateria de Diermaier, as lições de guitarra no limite da distorção e a arte de controlo do ruído, tudo o que os Faust já tinham feito há mais de um quarto de século, com outro requinte, e que agora se entretêm, metodicamente, a destroçar. Ficaremos a saber se os músicos da primeira geração do “krautrock” ainda têm, ou não, algo de novo para dizer, quando ouvirmos o álbum acabado de editar pelos Space Explosion, um supergrupo formado por Diermaier e Jean-Hervé Peron (outro Faust da formação original), Dieter Moebius, dos Cluster, Jurgen Engler, dos Die Krupps, Chris Karrer, dos Amon Düül II, e Mani Neumeier, dos Guru Guru.

Led Zeppelin - BBC Sessions

Sons

2 de Janeiro 1998
REEDIÇÕES

Led Zeppelin
BBC Sessions (7)

2xCD Warner Bros., distri. Warner Music

Na passagem da década de 60 para a seguinte, surgiu nos dois lados do Atlântico uma música poderosa que contrariava os padrões pop então vigentes. Era o “hard rock”, movimento que viria a dar origem ao “heavy metal”. Os Led Zeppelin, desde sempre um dos grupos mais representativos do movimento – como os Ten Years After, ou os menos conhecidos Aynsley Dunbar Retaliation e Wishbone Ash –, alicerçaram a sua música na fortaleza dos “blues”, ao contrário de outras bandas “hard”, como os Black Sabbath, Uriah Heep e Deep Purple, que preferiram colocar a sua violência ao serviço do progressivo e do rock sinfónico. Em 1969, ano em que a banda de Jimmy Page, John Paul Jones, Robert Plant e John Bonham (já falecido) gravou a totalidade das sessões para a BBC agora reeditadas, os “blues” explodiam nas versões de muitas das canções que se viriam a tornar clássicos na posterior discografia de estúdio dos Zeppelin, como “You shook me”, “Communication breakdown”, “Dazed and confused”, “Whole lotta love”, “How many more times”, “Immigrant song”, “Black dog” e “Stairway to heaven” (algumas delas aqui repetidas em diferentes ocasiões, o que permite deste modo verificar a evolução da sonoridade do grupo). Com tempo e espaço para fazer eclodir os seus “riffs”, macerados pela guitarra de Page e pela voz cortante de Plant, os Led Zeppelin, como os Cream tinham feito antes, mostravam as virtudes da improvisação no rock, tornando esta selecção de pérolas negras uma boa justificação para ouvir de novo a obra completa do grupo, toda ela entretanto já reeditada com remasterizações e nova apresentação.

Conflito de gerações [World - Irlanda]

Sons

2 de Janeiro 1998
WORLD: IRLANDA

Conflito de gerações

Para começar bem o ano, nada melhor do que uma boa reserva de música tradicional da Irlanda. No desafio entre os novos, Solás e Dervish, e os “velhos”, Patrick Street e Open House, estão os Bothy Band a arbitrar. Todos com certificado de garantia.

O aviso já tinha sido dado por Séamus Egan nos seus dois álbuns a solo, “Traditional Music of Ireland” e, sobretudo, no mais recente “When Juniper Sleeps”. Trata-se de uma das maiores revelações de um multi-instrumentista irlandês dos últimos anos. Se a sós estas capacidades revelavam ser já de excepção, imagine-se o terreno fértil encontrado pelo músico no seio da formação Solás. Com efeito, ao lado de Karen Casey, excelente voz feminina, ao nível das divas, John Doyle (guitarras, mandocelo e voz), Winifried Horan (violinos) e John Williams (acordeão e concertina), Seamus Egan explode, literalmente, na flauta, banjo, “low whistle”, bandolim, guitarra acústica, “bodhran” e percussão. A estes músicos, juntou-se ainda o convidado John Anthony, numa miríade de percussões celtas e “não celtas”, como o “djembe”, o tambor de barro e o “dumbek”.
“Sunny Spells and Scattered Showers” é o segundo álbum dos Solás, sucedendo ao disco de estreia, “Solás”, também disponível com a mesma distribuição. Aos primeiros acordes do “standard” “The wind that shakes the barley”, torna-se evidente estarmos na presença de um clássico. Mais do que em “Solás”, o grupo parece apostar neste seu segundo registo em reivindicar para si, em exclusivo, o legado dos Bothy Band.
São vários os indícios que apontam neste sentido, desde a voz de Karen Casey, surpreendentemente parecida com a de Triona Ní Dhomnaill, até ao recurso a um tipo de reportório idêntico ao usado pela mítica formação dos anos 70, de que é exemplo o “set” de “reels” correspondente à faixa número dois, que os Bothy Band já haviam tocado em “Old hag you have killed me”, embora num e noutro caso os temas tenham títulos diferentes, o que, de resto, acontece com frequência no cancioneiro irlandês.
E não só: também as técnicas de guitarra e banjo de Seamus Egan apontam para o mestrado de Donnal Lunny, assim como a notável fluência violinística de Winifried Horan evoca o primado de Kevin Burke. Mas “Sunny Spells and Scattered Showers” é, acima de tudo, um álbum para saborear de ponta a ponta, marcado por uma energia inesgotável e pela entrega total dos seus intervenientes. Arriscamo-nos a dizer que os Solás terão, inclusive, ultrapassado os Dervish, na corrida entre os grupos da nova geração. Na Ilha, a competição é “feroz”. A bem de uma tradição que, deste modo, constantemente se renova e perpetua. (Shanachie, 9)

Dervish que, no seu mais novo trabalho, resolveram mostrar-se ao vivo, num duplo álbum, “Live In Palma”, registado a 10 de Abril deste ano no Teatre Principal, em Palma de Maiorca, no âmbito do 2º Ciclo de Música Tradicional realizado nessa cidade espanhola. Ao longo de duas horas, intercalam-se “sets” instrumentais – onde pontificam a flauta e os “whistles” de Liam Kelly, o acordeão de Shane Mitchell e o violino de Shane McAleer, três executantes em permanente evolução, atingindo aqui níveis de altíssima qualidade – com baladas interpretadas, de forma superlativa, pela nossa bem-amada Cathy Jordan, cuja voz está cada vez mais sensual, um autêntico afago..., embora, lá está, a sombra da grande Triona assome por mais de uma vez, como na balada em gaélico “Máire mhór”, e interlúdios falados de apresentação dos temas. “Live in Palma” é um reencontro estimulante com a banda que ainda há bem pouco nos presenteou com a obra-prima “At the End of the Day”, recordando as noites inesquecíveis oferecidas pelo grupo numa das edições do Festival Intercéltico do Porto. Um dos grandes discos ao vivo do ano. (Whirling Discs, 9).

Os Bothy Band voltam a ser citados a propósito dos Open House e dos Patrick Street, outras duas bandas que já nos visitaram (integradas, respectivamente, nas programações da Festa do “Avante!” de há dois anos e do Intercéltico deste ano), já que o seu violinista é Kevin Burke, um dos nomes de referência da música irlandesa actual.
Em qualquer destes trabalhos nota-se, em primeiro lugar, a idade dos músicos! Compare-se o som e a atitude dos Open House e dos Patrick Street com a dos Solás e dos Dervish. Pois. É a diferença entre quem vive a música como se o mundo acabasse amanhã, entregando-se-lhe sem reservas e quem a sente já com outra sabedoria e distância. Se a componente rítmica, em qualquer destas duas bandas mais velhas, pode dar a sensação de perder na comparação com a das suas congéneres mais jovens, as subtilezas contidas na expressão e na interiorização compensam este défice, real ou aparente. Outra das características das bandas mais velhas é a saída para outras músicas, talvez em busca de uma irrecuperável frescura e de novas fontes de inspiração. Fenómeno que, em si, nada tem de negativo – basta lembrar os casos de outros veteranos célebres, como os Chieftains, House Band ou os próprios Planxty.
Em “Hoof and Mouth”, terceiro álbum da sua discografia, os Open House vão à Eslovénia, à Sérvia, à Bretanha, à Finlândia e a um original de Laura Nyro, já para não falar das tendências “bluesy” e “country” do seu tocador de harmónica, o norte-americano Mark Graham, das sessões de sapateado de Sandy Silva e do clarinete, muito anos 40, ainda de Mark Chapman. A Irlanda profunda força a entrada através das “uillean pipes” do convidado Ged Foley, dos Patrick Street, precisamente. Sem pressas, os Open House vão construindo uma reputação, num álbum mais calmo e “americanizado” que os seus antecessores. (Green Linet, 7)
Os Patrick Street são “mais irlandeses”. Uma banda clássica, no sentido em que se mantém fiel ao estilo tradicional, embora também em “Made in Cork” seja notório um menor fulgor instrumental, em comparação com grupos como os Solás, Dervish, Skylark, Trian ou com o fogo interior que anima Eillen Ivers (Altan e Déanta são casos especiais, evidenciando uma atitude mais pacificadora).
Depois de uma digressão pelos Estados Unidos, a superbanda formada por Burke, Andy Irvine, Ged Foley e Jackie Daly regressou ao coração da Ilha, para gravar em Cork este seu novo registo. Anote-se, também aqui, em paralelo com os Open House, as tónicas da serenidade e dos andamentos médios, com a curiosidade de se sentirem diferenças no “approach” do violino, numa e noutra banda, por parte de Kevin Burke, aqui muito mais sincopado do que nos Open House. Claro, os Patrick Street, se outros trunfos não tivessem, conseguem ser diferentes de toda a concorrência, por obra e graça de uma voz, única na Irlanda, pertencente a Andy Irvine, verdadeiro mago na arte de emprestar ternura e saudade (que nos perdoem os puristas da língua, mas pensamos ser este sentimento comum a Portugal e à Irlanda...) a uma balada. Mas, ainda aqui, faz impressão verificar uma certa falta de nervo. A idade não perdoa... (Green Linnet, 7)

Por fim, recordemos as origens. Os Bothy Band, para quem ainda não saiba, foram uma das primeiras bandas a transformar a “irish music” numa música capaz de provocar nas audiências mais jovens a mesma excitação do rock. A reedição de “Live in Concert, BBC Radio One” inclui duas sessões do grupo ao vivo, em Londres, transmitidas, via rádio, pela Radio One. A primeira, gravada no BBC Paris Theatre, a 15 de Junho de 1976. A segunda, em The National, Kilburn, a 24 de Julho de 1978, ou seja no auge criativo desta banda, que deixou para a posteridade apenas três álbuns de estúdio, “The Bothy Band”, “Old Hag You Have Killed Me” e “Out of the Wind into the Sun”, sendo, todavia, qualquer deles, registos-chave de toda a “folk” irlandesa.
Em cada uma destas ocasiões, o grupo apresentou um “uillean piper” diferente: Peter Brown, na primeira; Paddy Keenan, na segunda. O interessante neste disco é a demonstração do facto de os Bothy Band serem uma banda de tal modo proficiente em termos instrumentais que as versões ao vivo, tanto instrumentais como vocais, eram praticamente idênticas aos sofisticados arranjos de estúdio.
Nota-se isso mesmo, por exemplo, no clássico tema de “mouth music” de “Old Hag...”, “Fionnghuala”, e em todos os “sets” instrumentais, como aquele que se inicia com “Michael Gorman” (desse mesmo álbum), contendo uma estarrecedora prestação de Peter Brown, nas “uillean pipes”. Não deixa, então, de ser espantoso que, no disco de estúdio, o mesmíssimo tema seja tocado praticamente da mesma forma por outro músico, o qual se viria a notabilizar como gaiteiro da banda, Paddy Keenan!...Isto só prova a formidável unidade e coesão (enquanto duraram...) dos Bothy Band. “Live in Concert” acaba por ser um condensado dos álbuns de estúdio, interessante, sobretudo, do ponto de vista de uma apreciação técnica dos seus elementos. (Green Linnet, 8, todos os álbuns com distri. MC – Mundo da Canção).

23/06/2009

Top 10 - Discos de 1997

Sons

26 de Dezembro 1997
TOP X - Discos de 1997

MAIS 10 de
F. MAGALHÃES

Fuschimuschi Math-Ice – Short Stories
Negativland - Idepsipe
Steve Roach, Stephen Kent, Kenneth Newby – Halcyon Days
Peter Hammill – Everyone you Hold
Kreidler – Weekend
Legendary Pink Dots – Hallway of the Gods
Art Zoyd – Haxän
Hans-Joachim Roedelius – Sinfonia Contempora No. 1
Paul Simon – Songs from “The Capeman”
La! Neu? - Düsseldorf

José Mário Brano - Ao Vivo Em 1997

Sons

19 de Dezembro 1997
DISCOS - PORTUGUESES

Ao vivo de certa maneira

Ainda não é desta que temos o prazer de escutar um novo álbum de estúdio do autor de “Margem de Certa Maneira”. Para José Mário Branco, compositor do outro lado, será ainda tempo de espera e de preparação interior, antes da concretização de um novo passo em direcção ao desconhecido. “Ao Vivo em 1997” é um ponto de ordem, uma chamada de atenção, um gesto de cumplicidade retomada. Uma inquietação intermédia num percurso de criatividade cujo derradeiro testemunho continua a ser as suas “Correspondências”.
José Mário Branco veio no passado mês de Junho dizer de si próprio e da sua arte, em 23 temas gravados nos espectáculos realizados a 14, no Coliseu do Porto, a 15, 16 e 18, no Teatro da Trindade, em Lisboa, e a 20, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra. Fora do disco ficaram os temas compostos por José Mário Branco para a peça “Gulliver”, encenada pela Barraca, que pertenciam ao alinhamento dessas cinco datas, deixando entender que o músico pretendeu conservá-los para inclusão no disco da banda sonora a editar esperemos que muito em breve.
Para já ficamos com a recordação desses espectáculos, através de um punhado de canções de total exposição, às quais, em alguns casos, a voz de José Mário Branco não terá feito toda a justiça, revelando, sobretudo na sequência inicial deste duplo álbum, algum cansaço. Mas a expressividade, o teatro da alma, a força das palavras e os renovados arranjos de clássicos como “Engrenagem” (com as harmonizações dos Tetvocal), “Elogio da corporação”, “Margem de certa maneira” (mais escurecido e desamparado do que nunca), “Ser solidário”, “Emigrantes da quarta dimensão”, “Queixa das almas jovens censuradas” e “A noite” chegaram, e chegam, como sempre, para desassossegar. Mesmo se pelo lado da ternura. Ou da sátira, aqui retomada, de forma deliciosa e, de novo com a preciosa colaboração dos Tetvocal, por um José Mário Branco “rapper” em “Arrocachula”.
O segundo compacto inclui os inéditos “De pé, saudação a Antero”, “Menina dos meus olhos”, “Teu nome Lisboa” (um “unplugged” sem rede, suportado pelo contrabaixo de Carlos Bica), “Capotes pretos, capotes brancos” e “Terra quente”, este último a solo pelos Tetvocal. Estarrecedor é o balanço final de “Cantiga de alevantar ‘leva leva’”, um cântico ritual de trabalho que serve de metáfora à obra seminal de José Mário Branco. Momento privilegiado para quantos acompanharam de perto estes espectáculos ao vivo do músico, no mês da graça de Junho de 1997.

José Mário Branco
Ao Vivo em 1997 (7)
2xCD ed. e distri. EMI – VC