PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 5 ABRIL 1991 >> Fim de Semana >> Na Capa
O SOM DAS PORTAS QUE BATEM
Os Doors marcaram a ferro e fogo uma geração distraída com
os festejos da era de Aquário. Jim Morrison pôs o dedo na ferida, dando a
provar o sabor do sangue e da desmedida. Poeta maldito ou mistificador
perigoso, com ele o Rock vestiu-se de negro, na celebração feérica do Fim.
Os mitos também morrem. Parece até que
mais facilmente que o comum dos mortais. Jim Morrison morreu só, na banheira (o
elemento aquático está frequentemente associado ao passamento dos rockers
cognominados de “malditos”, constituindo bom material para especulação
metafísica), farto de nos aturar. Segundo alguns, o caso é mais problemático.
Assim, as causas da morte teriam a ver, não só com o ataque cardíaco oficial,
mas ainda com “overdoses” de heroína e cocaína, feitiçaria, arranque de olhos e
conspiração política...). O excesso, sempre o excesso... O poeta escreveu um
dia: “Congregamo-nos aqui, neste teatro antigo e louco, para proclamar a nossa
ânsia de viver”. Bebeu o cálice da vida, ou de outra bebida qualquer, até ao
fim. A morte era a sua única amiga, como diz na canção.
A música dos Doors reflete o percurso
vivencial e demencial do seu líder – por vezes genial, noutras ocasiões
simplesmente desequilibrada, quase sempre suficientemente forte e inovadora
para justificar revisitá-la, sem excessos nem pressas suscetíveis de dar maus
resultados. Por exemplo, o disco com a banda sonora do filme de Oliver Stone,
agora estreado entre nós, foi feito à pressa e com vistas curtas. Deixa passar
o que não devia e recupera o que de menos interessante havia para recuperar.
Ignora clássicos que, fazendo parte da fita, se omitem no vinilo: “Five to
one”, “Alabama song (whisky bar)”, “Strange Days”, “People Are Strange”, “The
Soft Parade” são apenas alguns exemplos. Por outro lado não se compreende muito
bem a insistência na montagem póstuma “An American Prayer”, da qual constam
nada menos que cinco temas, querendo talvez acentuar o óbvio, ou seja, que Jim
Morrison, antes de ser músico era poeta.
L’America
Assim, vale mais ir ter com os
originais e analisá-los dentro do contexto em que foram gravados, num período
compreendido entre 1967 e 1971. Quatro anos apenas, suficientes para registar
sete (número mágico) álbuns que puseram em estado de choque uma geração
hesitante na maneira de ultrapassar a década. Costuma dizer-se que a vida e
obra dos Doors ou, se quisermos, da sua língua reptilínea e venenosa, Jim
Morrison – o rei Lagarto – simbolizam integralmente o lado negro dos anos
Sessenta. Convém assentar no significado da expressão, para melhor orientação
no universo de ícones e memórias dispersas que, no nosso imaginário, querem
dizer o sonho que temos desses anos. Sonhos americanos, acrescente-se, que
quase todos por cá viveram como se de cinema se tratasse. De resto, a América é
isso mesmo – cinema em estado puro, organismo feito de imagens em movimento,
tal qual uma plasticina de luz eternamente disponível e moldável aos nossos
anseios de Disneylândia. Acaso ou não, Jim Morrison começou pelo cinema, estudante
ainda mas já cético quanto à veracidade do mundo que fica do lado de cá das
portas. Só que em vez de cowboys justiceiros, detetives impolutos e damas de
olhar cândido e fatal, filmou o pesadelo. Pesadelo que Coppola nos obrigaria a
enfrentar em “Apocalypse Now”, ao som de “The End” – ruir definitivo do sonho
americano, nessa viagem sem regresso ao coração das trevas, em que os heróis
não são rebeldes, lutando por causas perdidas até que o inferno do napalm lhes
consuma a própria alma.
Teatro da Crueldade
Anos Sessenta – San Francisco, paz e
amor, “acid parties”, a descoberta interior e das possibilidades orgiásticas do
corpo, Leary, Kerouac, Ginsberg, Marilyn, Kennedy, Luther King, Armstrong na
Lua, o soldado desconhecido no Vietname, a anulação da História, a experiência
da diversidade e da mistura de culturas no grande caldeirão da nação da
Coca-Cola e Mickey Mouse. Na música era a época dos Grateful Dead, Jefferson
Airplane, Quicksilver Messenger Service, Country Joe & The Fish, das
grandes “jams” psicadélicas e “happenings” sobre a relva.
Os três primeiros álbuns espelham o
ambiente e o ritmo dessa era (“The Doors”, “Strange Days” e “Waiting for the
Sun”) que Jim Morrison personificava, num misto de teatro e delírio poético,
encharcado em álcool e com um rastilho atado. Acendido o rastilho bastava
esperar pela explosão. Uma questão de tempo.
Os
Doors assumiam o psicadelismo para lhe acrescentarem a violência do “rhythm ‘n’
blues” e a crueldade das palavras. Utilizavam os símbolos da época para os
subverter a partir de dentro, minando-lhes o caráter pretensamente positivo e
solar até revelar a chaga, o buraco negro aberto no seu cerne – “When the
music’s over” e, claro, “The End” viajam desumanamente pelo interior da alma
humana, sem contemplações, pisando pelo caminho os tabus mais enraizados. Jim
Morrison foi tão longe quanto lhe era possível e permitido ir, atravessando de
facto as portas da perceção. Para além delas descobriu o silêncio que ninguém
quis ouvir.
O brilho das trevas, a escuridão da
luz
O lado negro dos anos Sessenta
confunde-se afinal com o seu contrário “imaculado”. Branco e negro são
inseparáveis lados opostos e complementares de uma mesma realidade. No coração
da negritude cintila a pureza. No cerne da virtude agita-se o demónio da perversão.
O lado negro não é mais que o branco levado ao seu limite. Imagine-se (ou, como
fez Morrison, viva-se) o sexo potenciado até aos extremos dolorosos do
erotismo, a descoberta levada à últimas consequências, à visão do bem e mal
absolutos, a excitação prolongada ao paroxismo, a paz continuada até à mortal e
derradeira quietude. Não é agradável, pois não? Nas fronteiras da vida
erguem-se os portões da morte. O contrário também é verdade e Morrison sabia-o.
Experimentar a vida até ao seu limite implica morrer a cada instante, até que
sobrevenha, no derradeiro orgasmo, o silêncio definitivo. Vida e Morte
cruzam-se naquilo que os românticos chamavam Paixão. Jim Morrison viveu
apaixonadamente e morreu como um romântico, no excesso e na volúpia de tudo querer
devorar e, ao mesmo tempo redimir. O poeta e visionário William Blake dizia que
“a estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria”. Seguir por essa estrada é
tarefa árdua, trágica, a cumprir no destino dos deuses de carne e osso. Carne,
por natureza sensível à dor e ao prazer dos infernos, na embriaguez dos
sentidos. O Espírito extasiado na contemplação das verdades eternas. Não há
homem que resista. Jim Morrison resistiu enquanto pôde.
Das portas que dão para os blues
Os
outros Doors, Ray Manzarek, Robby Krieger e John Densmore, limitavam-se a
tocar, assistindo à ascensão e queda do ídolo. Os jovens ficavam-se por
assistir aos espetáculos, comprar os discos e não compreender. Reproduziam da
estrela o vestuário e a pose, assobiavam os refrões mas, quando chamados a
participar e a partir, ao grito de “Break on through”, só se fosse para fumar
umas passas, partir umas cadeiras ou fornicar fingindo ser Filosofia. “The Soft
Parade” anuncia a desistência, ao som de violinos e metais. A América e a
Humanidade não queriam ouvir a mensagem do xamã quando não a confundiam com
pouca-vergonha.
Restava um cansaço infinito e o
derradeiro apelo dos Blues, a voz das raízes, o sofrimento e alegria originais.
Depois de “L. A. Woman” os Doors sugerem a hipótese de gravarem um disco
inteiramente devotado às lamentações da Alma, rendida à força primordial dos
blues, afinal sempre presentes, de forma mais ou menos camuflada em toda a sua
obra (“Five to one”, “Roadhouse blues”, “Shaman’s blues”, “Been down so long”,
“Maggie M’Gill”, “Wild child”, “Cars hiss by the window”…). Sobreviveram a
ideia e a fantasia do que poderia ter sido. Jim Morrison abandonava o circo
americano e partia para Paris, onde viria a frequentar o “Circus”, antro de mil
perversões, como ele gostava. Escrever e descansar, os objetivos, na medida do
possível. Somente conseguiria cumprir o segundo dos desígnios, afogada a dor no
banho final purificador. Mágoas desfeitas pelas águas. Assim nasceu a lenda.
O palco da vida
Ao
vivo, a música dos Doors, em noite sim, era simplesmente irresistível.
Autêntico ritual de catarse física e emocional. Jim Morrison não descansava
enquanto não punha a audiência inteira tão “alta” como ele. Depois, a
comunicação perfeita, a vertigem de um cerimonial pagão, com os corpos ligados
por uma corrente de que Jim era o condutor. Por vezes encarnava completamente o
xamã, o feiticeiro. Então dançava, alheio ao universo, tal qual um índio
verdadeiro, diante do olhar extasiado do resto da tribo. Celebração da vida na
Terra. Apelo às forças telúricas, as mesmas que o demónio tão bem sabe
manobrar.
Gostava de interromper as canções,
para conversar com o público ou simplesmente criar um espaço de silêncio, no
interior de certas canções (imagine-se o efeito em “The end”...). Momentos de
tensão, por vezes intoleráveis, para uma audiência em ponto de rebuçado. Jim
sabia controlar as pulsões emocionais das massas e isso divertia-o. Sobre esses
silêncios provocados dizia que “excitavam e assustavam – as pessoas gostam de
ficar com medo. Exatamente como o momento antes de se ter um orgasmo. Toda a
gente quer isso. É uma experiência máxima”.
Ray Manzarek chamava a Jim Morrison o
“xamã elétrico” que, em certas ocasiões, se tornava sensível às vibrações
elétricas ao ponto de Manzarek o fazer saltar ao simples toque de uma tecla do
teclado electrónico. Sobre o palco a comunhão funcionava também entre os quatro
“Doors”. Sem Ray, Robby e John, Jim não conseguia a força necessária para voar
ou para mergulhar no abismo. Se o réptil humano representava a imagem, a alma,
o sexo e a voz, os outros eram o resto do corpo, máquina energética, organismo
ordenado e ordenador capaz de equilibrar as pulsões dispersoras e destruidoras
do seu centro nervoso. Não devia ser fácil trabalhar com alguém interessado por
“tudo o que se relaciona com a revolta, a desordem e o caos”. O rei Lagarto clamava: “I am the king Lizard” – I can do anything”. Não era bem assim.
Dias estranhos, no estúdio
Durante
as gravações era diferente, mas nem sempre. Em “You’re lost little girl” (de
“Strange Days”), Jim só conseguiu cantar com a ajuda da sua “companheira
cósmica”, Pamela Courson, que ali mesmo na cabine, se entreteve com atividades
cujo teor e detalhes a censura e o pudor não deixam descrever. Outras vezes era
mais poético. Para “I can’t see your face in my mind” (também de “Strange
Days”) recriou-se no estúdio uma ambiência oriental. De uma maneira ou de outra
tinha que haver estímulos exteriores – álcool, drogas, sexo, ou, à falta de
melhor, a simples fantasia.
“The Doors”, “Strange Days” e “Waiting
for the sun” constituem a trilogia dourada da banda. O psicadelismo, os
“blues”, o ódio mas também o amor (de novo os extremos que se tocam, em “Love
street”, dedicado a Pamela, “Wintertime love”, “Hello I love you”), o órgão
eletrónico de Manzarek, que, desde “Light My Fire”, cedo definiu o essencial do
som dos Doors, aliados a experiências estilísticas como a utilização de música
concreta em “Horse latitudes”, a cadência Weilliana de “Alabama song” ou o
flamenco da guitarra acústica de Krieger, na introdução instrumental de
“Spanish caravan” e à criatividade poética de Morrison, tornam, nesta época, a
música dos Doors em algo de verdadeiramente inovador. Sobre ela dizia o crítico
Gene Youngblood: “Os Beatles e os Stones existem para rebentar a mente. Os
Doors existem para o que se segue quando a nossa mente tiver desaparecido”.
Neste três álbuns, gravados no curto espaço de dois anos (67 e 68),
encontra-se a maioria dos clássicos: “Break on through”, “The crystal ship”,
“Alabama song”, “Light my fire” e “The end” (“The Doors”), “Love me two times”,
“People are strange”, “When the music’s over” (“Strange Days”), “Hello I love
you”, “The unknown soldier”, “Five to one” (“Waiting for the Sun”).
“The Soft Parade” (69) é para muitos
uma desilusão, na maneira como a energia se dispersa entre arranjos orquestrais
sofisticados e desnecessários. Para a posteridade ficou o título-tema, cínica
litania sobre as virtudes da sociedade e das luzes do espetáculo. “Morrison Hotel”
(70) recupera parte da força inicial. Álbum de rock, forte e feio, em que Robby
Krieger mostra aquilo que vale. “Roadhouse blues”, “Waiting for the
sun”, “Ship of fools” e “Maggie M’Gill” demonstram-no à exaustão. Antes do fim, tempo ainda para o duplo
“Absolutely Live”, um dos melhores álbuns ao vivo de todos os tempos, e para a
serenidade (aparentemente) reencontrada em “L. A. Woman” (71), de “Love her
madly”, “L. A. Woman”, “L’America”, “Hyacinth house” e “Riders on the storm” –
testemunho derradeiro da vida e do destino das “portas que abrem para o outro
lado”, ao ritmo encantatório do piano elétrico de Manzarek. O resto é História.
