Pop
A
DISCOTECA
LUGARES DISTANTES
São três guitarristas e gravam normalmente para a ECM. Por muito que os seus caminhos por ali se tenham cruzado, cada qual parte para novas aventuras – para chegar a outras músicas, outras paragens, em que o jazz é apenas um pretexto.
Norueguês, 42 anos,
admirador do lendário Wes Montgomery, um imenso e insuspeito currículo feito de
incursões por territórios afastados e aparentemente inconciliáveis: o jazz, a
música contemporânea, o classicismo romântico, mesmo o rock de tonalidades “hard”.
Na ECM encontra-se grandes parte destes trabalhos. O duplo “Odyssey” deu-lhe
fama de contemplativo, propenso à introspeção e a um esteticismo marcado pelas
imensidões geladas do país dos fiordes. “After the Rain” parecia dar razão
àqueles que persistiam em ver nele apenas o guitarrista de sonoridade “String
ensemble”, por vezes mesmo comparada à de Mike Oldfield, compositor de
harmonias e melodias sustentadas por um lirismo pouco dado a fraturas rítmicas
e temáticas. Álbuns como “Wave” (com o trompete de Palle Mikelborg) e aqueles
que recentemente gravou com o grupo The Chasers obrigaram à reformulação destes
conceitos.
O fogo do espírito
“Undisonus/Ineo” (ECM, distri.
Dargil) insere-se na vertente clássica do músico, que aqui não participa como
intérprete. Nada de guitarra, portanto. Duas composições, como o genérico
refere. “Undisonus” (op.23), em três andamentos, para violino e orquestra,
composta entre 1979 e 1981. Terje Tønnsen, o instrumentista solista,
acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Londres, dirigida por Christian
Egsen. “Ineo” (op.29), dividida em quatro andamentos: “Ineo”, “Lux”, “Memini” e
“Adeo”, para as vozes corais do Grex Vocalis e a orquestra de câmara The
Rainbow Orchestra, dirigida pelo mesmo maestro.
Terje Rypdal é um compositor
prolífico. Só em “opus” já vai em 48, o último dos quais intitulado “The Big
Bang”. O disco agora em análise confirma as suas capacidades neste campo,
através da criação de uma música aberta aos grandes espaços e possuidora de uma
intensidade dramática por vezes próxima da pungência mahleriana. Aparentemente
serena na forma, avança em crescendo de tensão, através do emprego específico
das cordas (nomeadamente os violoncelos e o baixo) e dos sopros, como massas
sonoras poderosas, correspondentes ao telurismo da natureza. Pairando sobre o
turbilhão elemental, o violino angustia-se, foge, investe, sussurra e grita,
voz humana questionando o infinito. Música do fogo (o violino), da água (nos
reflexos e cintilações da harpa fluindo como um rio) e da terra. Música do
homem e do mundo primordial.
Do outro lado, “Ineo”, a ascese, o
fogo transformado em espírito, elevando-se para as alturas libertadoras, até
chegar ao céu. Sublimação das pulsões do corpo na voz coletiva da humanidade
inteira. Maior contenção no volume, um júbilo subtil. Demanda de Deus. Na
grande arte inventa-se o destino, deposto aos pés da eternidade.
“Undisonus/Ineo” transporta o
misticismo de anteriores obras até às dimensões da religiosidade pura, que, na
mesma editora, só encontra paralelo no total despojamento da trilogia “Tabula
Rasa/Arbos/Passio” de Arvø Part. Ambos perseguem o sublime.
Academismo
John Abercrombie mantém-se fiel a
uma sonoridade que fez escola na ECM. Em “Animato” apresenta na companhia de
Vince Mendoza (nos sintetizadores e compositor da maior parte dos temas) e de
Jon Christensen (na bateria e percussões). Reconhece-se a técnica
irrepreensível, o bom gosto dos arranjos, mas não se confunda o belo com o
bonito. Beleza, encontramo-la no disco de Rypdal, cores e sons agradáveis ao
ouvido, no de Abercrombie. Falta-lhe o génio que torna irrelevantes todos os
academismos. “Animato” é um disco académico, quando opta pela segurança de um
estilo mantido a níveis qualitativos aceitáveis mas incapaz de reservar já
qualquer surpresa ou transgressão. O que se torna irrelevante para os
indefectíveis da editora.
As virtudes do trio
“Question and Answer”
(Recycle, distri. WEA) é uma grata surpresa. Pat Metheny parece ter
recuperado bem das inenarráveis concessões feitas ao comercialismo mais baixo,
com que se distinguiu no ano passado no execrável “Open Letter”. Neste novo
disco, chamou dois músicos fabulosos: o baixista Dave Holland e o baterista Ray
Haynes. A gravação processou-se como se de uma “jam session” se tratasse – oito
horas no estúdio, sem ideias preconcebidas, apenas o prazer de tocar, de ouvir
e responder. E o deleite de quem assiste e frui a imensa riqueza de pormenores,
de soluções tímbricas e harmónicas que o trio desenvolve ao longo de nove
temas, em que o jogo de grupo prevalece sobre as ações individuais. Pat Metheny
revela aqui até que ponto soube assimilar as influências que se lhe reconhecem
– Wes Montgomery, sempre, Jim Hall, Gary Burton, Ornette Coleman, Miles Davis,
dando-lhes um cunho pessoas inconfundível. Inesquecível a abordagem do tema de
Miles que abre o disco, “Solar”, bem como de “Law Years”, de Ornette. Só
escutando se torna possível distinguir a gama infinita de soluções rítmicas de
Haynes que, sem nunca repetir uma frase, uma acentuação, mantém, contudo, a
solidez necessária ao desenvolvimento harmonioso do todo. Quanto a Dave
Holland, basta referir que a sua prestação é um contínuo solo, inesgotável no
duplo de papel de suporte e estimulador dos outros instrumentos, fluxo
assombroso de ideias que se interligam e constantemente se renovam. Aqui se
reitera a opinião de que Pat Metheny, sendo embora um compositor apenas
competente, se transfigura quando integrado em formações instrumentais, ou em
contextos formais suscetíveis de o colocarem em situações de interação musical
deslocadas do seu “approach” habitual. Seja nas peças de Reich, ou na companhia
de Sonny Rollins e Ornette, é sempre em situações de diálogo e confronto que as
suas capacidades se revelam ao mais alto grau.
“Question and Answer” vem repor as
velhas questões sobre o papel determinante da interpretação sobre a composição.
Sendo esta, em última análise, sempre improvisação. Criatividade solta no
instante, com Metheny, sempre partilhada.
QUARTA-FEIRA,
15 AGOSTO 1990 VIDEODISCOS

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