PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 18 MAIO 1992 >> Cultura
Dire
Straits ao vivo, no passado sábado, em Lisboa
“Eles têm que valer o
dinheiro!”
Em termos de adesão e
entusiasmo do público, o concerto dos Dire Straits, sábado à noite, no estádio
de Alvalade, saldou-se por um êxito absoluto. Cerca de 75 mil pessoas berraram
a plenos pulmões no intervalo das canções, acenderam isqueiros e entoaram em
coro cantos futebolísticos e refrões dos temas mais conhecidos. O barulho era
tanto que o próprio Mark Knopfler foi obrigado a tapar os ouvidos, tal a
chinfrineira.
Anunciavam-se números
astronómicos: palcos de tal maneira largos que quase chegavam ao estádio da
Luz, não sei quantos milhões de “watts”, para a iluminação e o som. Não foi bem
assim. Cá atrás, nas bancadas, por muito grande que seja o palco, tem-se sempre
a impressão de se estar a olhar para um aquário, cheio de luzinhas e com uns
bonecos lá dentro a fazerem momices. Mais uma vez, os ecrãs gigantes instalados
de cada lado do palco e no meio do relvado revelaram-se uma ajuda preciosa,
mostrando pormenores do concerto, impossíveis de serem percebidos de outra
maneira.
Quanto à música – bem –, a
música, digamos que foi má mas que ninguém se importou muito com isso. Depois
do aquecimento “funky” servido com espalhafato pelos Was Not Was, esperava-se
da banda principal que fosse a oitava maravilha do mundo. Pura ilusão. Ao vivo,
o coletivo liderado por Mark Knopfler não anda longe de um grupo de bailarico,
com a diferença de ser mais amplificado, ter um melhor guitarrista e vender os
bilhetes ligeiramente mais caros.
Já em disco, os Dire Straits
dão a ideia desconfortável de fazerem música a metro. Ao vivo é ao quilómetro.
Solos do estilo “começa hoje, acaba amanhã” foram, apesar de tudo, limitados ao
estritamente necessário, de modo a esticar cada canção até à suposta “dimensão
de época”. Segundo esta perspectiva, foi de facto um concerto épico. Épico e
ótico: as luzes, de palco e fora dele – a multidão das bancadas foi mais do que
uma vez o centro do espetáculo, iluminada por focos de luz branca intensíssimos
– foram de facto espetaculares. O som, pelo menos como era audível dos
camarotes, nem tanto: comprimia os pormenores dos diversos instrumentos numa
massa informe de distorção. Mas a isto já todos nós estamos habituados.
O urro da loucura
Espetacular foi, de igual
modo, a receção da mole humana a “Sultans of Swing”, logo a seguir aos momentos
de acalmia de “Private Investigations” – com Mark Knopfler solitário no centro
do “aquário” iluminado por jorros de azul que recriavam o ambiente da capa do
“single” – um urro ensurdecedor que se prolongou por vários minutos, anunciador
do fim do mundo e da predileção que os portugueses nutrem pelos Dire Straits.
Loucura que só encontrou paralelo na receção inicial à banda e ao tema de
abertura “Calling Elvis” e em “Your latest trick”, acompanhado em coro
devocional pela multidão de fiéis de isqueiro em punho, seguindo, nota a nota,
a melodia introdutória do sax de Chris White e da guitarra de Knopfler.
Depois foi descansar à sombra
dos álbuns “Love Over Gold”, “Brothers in Arms” e “On Every Street”, dos “hits”
– “So far away”, “Telegraph Road” – e das longas e monótonas sequências
instrumentais para ocupar as duas horas de concerto previstas. Os “encores”,
que lá fora costumam dar direito a 30 minutos de música extra, foram em
Alvalade cortados para metade desse tempo, mais do que suficientes para
despachar “Money for nothing”, “Brothers in arms” e “Solid rock”. Alguém ao
lado comentava das bancadas para quem o quisesse ouvir: “Eles têm que valer o
dinheiro! Não se podem ir embora daqui assim!” Os membros da banda não devem
ter ouvido e foram-se mesmo embora. Terão os Dire Straits valido os contos de
réis despendidos? O fogo de artifício que manda toda a gente para a cama,
também mais reduzido do que é costume – três ou quatro fogachos coloridos –,
não conseguiu desfazer a dúvida: o que foi que a montanha pariu?
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