29/09/2026

"Eles têm que valer o dinheiro!" [Dire Straits]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 18 MAIO 1992 >> Cultura

 

Dire Straits ao vivo, no passado sábado, em Lisboa

 

“Eles têm que valer o dinheiro!”

 

Em termos de adesão e entusiasmo do público, o concerto dos Dire Straits, sábado à noite, no estádio de Alvalade, saldou-se por um êxito absoluto. Cerca de 75 mil pessoas berraram a plenos pulmões no intervalo das canções, acenderam isqueiros e entoaram em coro cantos futebolísticos e refrões dos temas mais conhecidos. O barulho era tanto que o próprio Mark Knopfler foi obrigado a tapar os ouvidos, tal a chinfrineira.

Uma imagem com texto, ar livre

Descrição gerada automaticamente

 

Anunciavam-se números astronómicos: palcos de tal maneira largos que quase chegavam ao estádio da Luz, não sei quantos milhões de “watts”, para a iluminação e o som. Não foi bem assim. Cá atrás, nas bancadas, por muito grande que seja o palco, tem-se sempre a impressão de se estar a olhar para um aquário, cheio de luzinhas e com uns bonecos lá dentro a fazerem momices. Mais uma vez, os ecrãs gigantes instalados de cada lado do palco e no meio do relvado revelaram-se uma ajuda preciosa, mostrando pormenores do concerto, impossíveis de serem percebidos de outra maneira.

Quanto à música – bem –, a música, digamos que foi má mas que ninguém se importou muito com isso. Depois do aquecimento “funky” servido com espalhafato pelos Was Not Was, esperava-se da banda principal que fosse a oitava maravilha do mundo. Pura ilusão. Ao vivo, o coletivo liderado por Mark Knopfler não anda longe de um grupo de bailarico, com a diferença de ser mais amplificado, ter um melhor guitarrista e vender os bilhetes ligeiramente mais caros.

Já em disco, os Dire Straits dão a ideia desconfortável de fazerem música a metro. Ao vivo é ao quilómetro. Solos do estilo “começa hoje, acaba amanhã” foram, apesar de tudo, limitados ao estritamente necessário, de modo a esticar cada canção até à suposta “dimensão de época”. Segundo esta perspectiva, foi de facto um concerto épico. Épico e ótico: as luzes, de palco e fora dele – a multidão das bancadas foi mais do que uma vez o centro do espetáculo, iluminada por focos de luz branca intensíssimos – foram de facto espetaculares. O som, pelo menos como era audível dos camarotes, nem tanto: comprimia os pormenores dos diversos instrumentos numa massa informe de distorção. Mas a isto já todos nós estamos habituados.

 

O urro da loucura

 

Espetacular foi, de igual modo, a receção da mole humana a “Sultans of Swing”, logo a seguir aos momentos de acalmia de “Private Investigations” – com Mark Knopfler solitário no centro do “aquário” iluminado por jorros de azul que recriavam o ambiente da capa do “single” – um urro ensurdecedor que se prolongou por vários minutos, anunciador do fim do mundo e da predileção que os portugueses nutrem pelos Dire Straits. Loucura que só encontrou paralelo na receção inicial à banda e ao tema de abertura “Calling Elvis” e em “Your latest trick”, acompanhado em coro devocional pela multidão de fiéis de isqueiro em punho, seguindo, nota a nota, a melodia introdutória do sax de Chris White e da guitarra de Knopfler.

Depois foi descansar à sombra dos álbuns “Love Over Gold”, “Brothers in Arms” e “On Every Street”, dos “hits” – “So far away”, “Telegraph Road” – e das longas e monótonas sequências instrumentais para ocupar as duas horas de concerto previstas. Os “encores”, que lá fora costumam dar direito a 30 minutos de música extra, foram em Alvalade cortados para metade desse tempo, mais do que suficientes para despachar “Money for nothing”, “Brothers in arms” e “Solid rock”. Alguém ao lado comentava das bancadas para quem o quisesse ouvir: “Eles têm que valer o dinheiro! Não se podem ir embora daqui assim!” Os membros da banda não devem ter ouvido e foram-se mesmo embora. Terão os Dire Straits valido os contos de réis despendidos? O fogo de artifício que manda toda a gente para a cama, também mais reduzido do que é costume – três ou quatro fogachos coloridos –, não conseguiu desfazer a dúvida: o que foi que a montanha pariu?

 

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