29/09/2026

Mistura de chicória [Chick Corea Elektric Band]

 

PÚBLICO SÁBADO, 16 MAIO 1992 >> Cultura

 

Chick Corea e Elektric Band no Coliseu em Lisboa

 

Mistura de chicória

 

Chick Corea tem um nome e um passado a defender. Quinta-feira, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, esteve-se nas tintas e presenteou o pouco público assistente com uma mistura requentada dos lugares-comuns mais execráveis do “jazz-rock”. Um sucedâneo de experiências antigas em que a eletricidade e o tédio substituíram a subtileza e a imaginação. Chicória, em vez de Chick Corea.


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Em frente a uma reprodução da capa do disco recente “Beneath the Mask” projetada por trás do palco, “Chicória” e a sua banda “eléktrica” atacaram de imediato o som “jazz rock” que no início dos anos 70 fez as delícias daqueles “apreciadores de jazz” que sempre acharam esta linguagem “demasiado complicada”. Vinte anos depois, a julgar pela reação entusiástica das centenas de pessoas presentes no Coliseu, a questão mantém toda a sua atualidade.

O “jazz rock” resume-se a solos mais ou menos virtuosos, a corridas instrumentais de velocidade pura e a uma batida sincopada que dá o conveniente tom de “dificuldade” a uma música que, por essência, é a versão “reader’s digest” do outro jazz, com sabor a sangue. Claro que há exceções e bastaria a recordação dos Weather Report para não se deitar de imediato o “jazz rock” para o caixote de lixo da história da música. Mas os Elektric Band não são, manifestamente, os Weather Report.

           

Gorduroso, repelente e pestilento

 

Logo aos primeiros acordes se tornou visível a omnipresença do tenebroso estilo “GRP” (“Gorduroso, Repelente e Pestilento”), mais a mais, na ocasião, misturada com a não menos tenebrosa “sonoridade caramelo” característica da velhinha sala do Coliseu, sobretudo quando não enche. Nos camarotes, então, o empastelamento atingia as raias de uma açorda indigerível. Na plateia, comia-se.

Que Chicória é um excelente instrumentista, ninguém tem dúvidas. Teria, se apenas o conhecesse do Coliseu, onde dispensou o piano, substituído pelos sintetizadores, nos quais solou quase sempre de forma previsível, ao estilo “passa a mão pelo teclado o mais depressa possível, de preferência com a ajuda do ‘pitch bender’ de maneira a poupar metade do trabalho de ir de uma ponta à outra da escala”. Os “habitués” sabem como é...

Mas nem tudo foi mau, longe disso. Eric Marienthal, no momento da verdade dos solos, mostrou ser o exemplo vivo do “saxofonista de jazz”. Posição clássica, aperfeiçoada por anos de prática diante do espelho: joelhos bem fletidos (tremulando ligeiramente nos momentos de maior emoção), o cotovelo esquerdo recuado, o saxofone projetado para diante, a pose inteira evocando a posição do artista arrastado, mas sob controlo, pela sua arte.

Já na pose de Chicória se detetaram uma série de defeitos, a começar pela posição, em pé frente aos teclados, pouco correta do ponto de vista anatómico, que obrigava a coluna a esforços desnecessários. Chicória corrigiu o desconforto do marreco, quando, num dos poucos momentos do concerto em que concedeu espaço ao silêncio, se entregou a um solo fantasmagórico, imitando um quarteto de cordas, no sintetizador portátil “Yamaha SY-99”, que dedicou à própria máquina.

Nessa altura (ou na pausa de segundos dedicados à contemplação, logo a seguir ao intervalo) respirou-se com outra amplidão e a pessoa que ouviu Chick Corea, anteontem, “couve chicória”, recordou-se estar na presença do autor de “Crystal Silence”. Mas o “jazz rock” tudo afogou na vaga de eletricidade e velocidade. Não houve ninguém que desligasse a ficha!...

 

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