23/12/2016

Holocausto na música do mundo [Meira Asher]

SEXTA-FEIRA, 25 JUNHO 1999 cultura

Sons do Mediterrâneo no Porto

Holocausto na música do mundo

MEIRA ASHER paira como uma ave de rapina sobre a programação do festival Ritmos-Festas do Mundo, cuja sexta edição, dedicada aos sons do Mediterrâneo, tem hoje início no Palácio de Cristal, no Porto. A cantora israelita de cabeça rapada lança-nos na cara a maldição e o horror da condição humana. Depois de um primeiro álbum, “Dissected”, em que a música de raiz étnica funcionava ainda como pretexto para suavizar uma visão em que a fúria e a denúncia eram já a pedra de toque, em torno de temáticas incómodas (e, até então, virgens, no universo das chamadas “músicas do mundo”) como a sida e a apropriação terrorista de textos da Bíblia, Meira Asher lançou-ne no abismo. A sua segunda obra, intitulada “Spear into Hooks”, é um pesadelo de audição urgente e, provavelmente, o melhor disco deste ano.
            Sobre a temática do Holocausto a cantora ergue uma catedral de medo cercada pela violência sonora da música industrial e pelos traumas da guerra. São utilizados samples onde ficaram armazenadas a agonia, a tortura e uma ironia que fere com a crueldade gelada de um bisturi. Meira grita, geme e invectiva (Diamanda Galas, ao pé dela, é uma menina de coro...) sobre os estertores de vozes reais de mulheres e crianças atingidas por projéteis. Textos do Génesis misturam-se com a descrição de assassínios. Num dos temas, o campo de concentração nazi de Birkenau é descrito como um campo de férias cujos habitantes são convidados a tomar um banho de vapores perfumados. À medida que o inferno sobe de tom ouve-se por cima uma valsa de Strauss e um disco antigo de Marlene Dietrich. Outro tema, inspirado no poema "Se questo é un uomo", de Primo Levi, descreve a doença da alma dos que sobreviveram: "Lembramo-nos de tudo o que aconteceu/que agora encaramos como se nunca tivesse acontecido/não gravaremos nada nos nossos corações/quando chegarmos a casa e já estivermos longe/quando pudermos descansar e nos erguermos de novo/não será dita aos nossos filhos uma palavra do que vivemos/deste modo perderemos a nossa essência/e a doença tomará conta de nós da cabeça aos pés/E a nossa descendência afastar-se-á de nós/cada vez mais, para todo o sempre". Depois de sermos feridos pela música de Meira Asher o Verão parecerá mais escuro e a realidade chorará. Meira Asher apresenta amanhã o seu ritual de exorcismo, em voz, electrónica e percussão, acompanhada por Daniel Baruch, em electrónica, e Jackie Shemesh, nos efeitos de luz. A seguir à actuação dos Istanbul Oriental Ensemble, marcada para as 22h30.
            Mas hoje ainda vai ser possível respirar e dançar. Com os Barrio Chino, de França, e Daniele Sepe, de Itália. Nos Barrio Chino, combinam-se as tradições ibérica, grega, italiana e árabe. Uma visão mediterrânica que se estende de Atenas a Barcelona, de Alexandria a Casablanca. Daniele Sepe é um cantor/autor que percorre o imaginário musical da região de Nápoles mas onde são envergadas outras máscaras, de Kurt Weill, do raga, do canto medieval, do tecno folk e do jazz. Não é de desdenhar o sentido de humor que levou Daniele a intititular a banda que o acompanha, Art Ensemble of Soccavo, repositório de heranças musicais napolitanas que o cantor descreve como "uma caixa de refugo musical".
            No sábado, além de Meira Asher, actuam os turcos Istanbul Oriental Ensemble, naquela que será a sua segunda visita a Portugal, depois de terem actuado no ano passado na Expo. Trata-se de uma das mais importantes formações de música árabe da actualidade, com a liderança do percussionista Burhan Öçal. Sons ciganos, com proveniência de Istambul e da Trácia dos séculos XVIII e XIX, soltam-se em arranjos e improvisações na construção da banda sonora de mil e uma noites passadas no ponto nevrálgico onde a Ásia e a Europa se encontram. A ouvir, como preparação para o concerto, os álbuns "Gypsy Rum" e "Sultan's Secret Door".
            Salamat, da Núbia, Egipto, e Esma Redzepova, da Macedónia, encerram no domingo o festival Sons/Festas do Mundo. O grupo Salamat conta na sua formação com um extraordinário percussionista, Mahmoud Fadl, autor de álbuns impossíveis de ignorar, como "Drummers of the Nile" e "Love Letters from King Tut-Ank-Amen". Através da união dos padrões melódicos tradicionais com os ritmos urbanos nascidos no Cairo, a música dos Salamat inscreve-se na mesma linha de Ali Hassan Kuban, constituindo ocasião soberana para os corpos se entregarem à hipnose da dança.
            A herança cigana regressa no espectáculo de fecho, com a cantora Esma Redzepova e o seu grupo, oriundos da Macedónia. Mesmo neste caso, apesar dos compassos se escreverem com contas mais complicadas, o apelo do ritmo não deixará de se fazer sentir.

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