05/05/2009

Stereolab - Dotsandloops

Sons

26 de Setembro 1997
DISCOS – POP ROCK

Stereolab
Dotsandloops (5)
Elektra, distri. Warner Music

“Emperor Tomato Ketchup”, o anterior álbum dos Stereolab, recriava de forma sistemática alguns dos tiques do krautrock, sacados principalmente dos Neu!, Kraftwerk e Can, em contraste com as vocalizações “rive gauche” da vocalista Laetitia Sadier e uma veia easy listening que o grupo nunca disfarçou. O passo dado neste novo “Dotsandloops” deixa de lado as referências ao kraut, pondo em seu lugar uma bandeja – sem dúvida arranjada com bom gosto, mas evidenciando uma manifesta falta de criatividade – cheia de doces. Por outro lado, o grupo revela aqui a sua faceta de camaleão, pintando a manta ora com uma muito leve camada de trip-hop ou drum’n’bass, ora envernizando as canções com sedosas pinceladas de cordas e metais, ou suspensões e vibrafone, à maneira dos High Llamas e Combustible Edison. Tudo isto seria conveniente e uma mostra comprovativa da atenção dada pelos Stereolab à crista da onda, não fora o facto de que, abstraindo-nos das ornamentações, o esqueleto das canções parecer quase decalcado do álbum anterior. Se “Emperor Tomato Ketchup” era um álbum duro e minimalista, marcando com força as ideias e afirmando orgulhosamente um conceito sonoro central, “Dotsandloops” liquefaz-se num outro tipo de sons e repetições que roçam o puro maneirismo, por um lado, e alguns dos lugares-comuns do pós-rock (as gravações tiveram lugar em Chicago e Düsseldorf...) e do easy listening por outro. Os quase 18 minutos de “Refractions in the plastic pulse” não chegam como desafio.

01/05/2009

Mercador de sonhos [Robert Wyatt]

Sons

19 de Setembro 1997

Mercador de sonhos

Seis anos de silêncio depois de “Dondestan”, cortados pela colecção de gravuras sonoras do mini-CD “A Short Break”, Robert Wyatt tem um novo álbum de originais, “Shleep”, gravado no estúdio de Phil Manzanera, com a participação, entre outros, de Brian Eno, Paul Weller, Evan Parker e Annie Whitehead. Um disco de “sonhos maus” por um sonhador que tem experimentado na carne a dor, a utopia e a revolução.

“Shleep” é o melhor álbum de Robert Wyatt, desde “Rock Bottom”, a obra-prima gravada em 1974 a seguir ao acidente que o atirou para uma cadeira de rodas. O mesmo acidente que acelerou o processo de descoberta de uma “voz pessoal” que nos últimos 25 anos insiste em se fazer ouvir com o poder de transfiguração de um guerrilheiro que faz da poesia a principal arma.
“Shleep” é uma mistura de “Sheep” com “Sleep”. De massificação com dormência. Wyatt explica que “começou por ser apenas o título de uma canção”, embora sejam lícitas outras conotações, como com “The Little Sleep”, uma novela policial de Raymond Chandler.
O sono e o sonho. Robert Wyatt teve problemas com o primeiro, transformando em arma o segundo. “Há dois, três anos, tive uma fase em que, pura e simplesmente, não conseguia dormir.” “Shleep” resgata o onirismo, da mesma forma que “Rock Bottom” exorcizava os traumas deixados pelo acidente que o tornou paraplégico, e “Nothing Can Stop Us” era a reacção violenta contra uma situação política considerada “intolerável”.
Cada canção de “Shleep” é então como que o “polaroid de um sonho”. “Prefiro os sonhos maus aos sonhos bons. Quando acordo de um sonho bom, o choque com a realidade do dia-a-dia é maior.” Não se trata, diz, de um projecto ideológico – “Nunca injecto os meus discos com qualquer forma de ideologia, tento sempre que sejam totalmente independentes.” Mesmo “Nothing Can Stop Us” ou um tema como “East Timor” de “Old Rottenhat”? “Talvez nessa altura, nos anos 80, sim, a situação política em Inglaterra estava a tornar-se intolerável, com a emergência de movimentos racistas e nazis. Foi uma época em que passava mais tempo a participar em comícios do que a ouvir ou a preocupar-me com música.”
Trata-se, afinal, tão-só da projecção intuitiva de estados de alma que tanto exigem, para se fazerem ouvir, do canto panfletário da Internacional Socialista, como se encolhem num balbuciar triste e, por vezes, incoerente, de uma criança ferida. Ou de um louco encarcerado na certeza das suas próprias convicções. De um poço como “Rock Bottom” não se sai igual ao que se entrou. Os álbuns seguintes, de “Ruth Is Stranger than Richard” a “Dondestan”, demonstram essa mesma impossibilidade de fazer frente, com a constância dos iluminados ou dos masoquistas, ao reflexo do espelho. Mas aí está “Shleep” para nos fazer crer no contrário.
Gravado no estúdio de Phil Manzanera, companheiro de longa data de Wyatt, “Shleep” reúne memórias e fragmentos da anterior discografia, num “puzzle” que necessita de tempo para se fazer compreender na sua totalidade. Um tempo que o próprio músico reserva para si, de forma a tornar coerente “um processo de composição orgânico, feito de intuições”. Processo que tem início em casa, num gravador de quatro pistas, em articulação estreita com a sua mulher, Alfreda Benge – autora dos textos e das capas de grande parte da discografia recente do músico –, com quem Wyatt tem partilhado inúmeras experiências e viagens pelo mundo.
Para “Shleep”, Robert Wyatt convidou velhos amigos, como Phil Manzanera e Brian Eno, este último “um aventureiro que lida com a música como uma criança”, cuja influência foi determinante no resultado final de um tema como “Heaps of sheeps”, a fazer lembrar álbuns como “Taking Tiger Mountain (By Strategy)” ou “Another Green World”.
Mas é ainda no modo de articulação dos músicos convidados que “Shleep” se afasta de “Rock Bottom”, embora sejam evidentes traços comuns entre os dois discos (as “drones” de sintetizador, o piano sincopado a 16 rotações, inspirado em Cecil Taylor, as melodias de “nursery rhyme” em contraste com sequências instrumentais de “big band” espectral). Mas enquanto “Rock Bottom” era a grande dor, redimida pelo génio, suportada pela companhia de amigos, “Shleep” é a partilha fraterna com esses mesmos amigos, numa assunção do colectivo como força impulsionadora do acto criativo.
Por vezes o jogo de memórias cruzadas está escondido, surgindo de forma indirecta. Como uma linha de sintetizador dos Cluster introduzida por Brian Eno. Ou a utilização de fitas magnéticas com fundo industrial em “Was a Friend”, nas quais Wyatt reconhece haver uma relação com a música de outro amigo seu, Charles Hayward, dos This Heat e Camberwell Now. Noutras, a fonte revela-se de maneira mais óbvia. Como a fabulosa apropriação das inflexões vocais de Bob Dylan de “Subterranean homesick blues” e dos blues em geral, em “Blues In Bob Minor”, sobre um ritmo binário decalcado de um tema de “Old Rottenhat”, na segunda das duas participações de Paul Weller, fundador dos The Jam, neste álbum.
Evan Parker e Annie Whitehead, representantes da “velha” escola do “new jazz” britânico, acrescentam a improvisação e a surpresa. Antes mesmo da aventura, iniciada nos anos 60 ao abrigo do movimento de Canterbury, com os Soft Machine, Wyatt era presença assídua em gravações de jazz, tocando bateria ao lado de músicos como Wolfgang Dauner. O acidente – uma queda de um quarto andar, no decorrer de uma festa mais animada – de que foi vítima terá inviabilizado uma carreira promissora como instrumentista de “jazz”? Wyatt recusa esta possibilidade. Prefere dizer que a bateria era um empecilho que o impedia de trabalhar em profundidade a música que verdadeiramente sentia.
De resto, basta lembrar que na altura em que, em 1970, os Soft Machine iniciavam a sua própria aventura pelo jazz, com outro dos álbuns que é um marco da música dessa década, o duplo “Third”, Robert Wyatt contrapunha às longas improvisações, em compassos esquisitos, dos seus companheiros, a sua própria “suite” pop vocalizada, “The Moon in June”, canção mágica mas que o votaria ao ostracismo pelos intelectuais do grupo, Hugh Hopper, Mike Ratledge e Elton Dean. “Adorava fazer esse tipo de música, mas era óbvio que os outros não queriam vocalizações. Acabei por ser marginalizado.” Wyatt viria ainda a reformular a eterna questão – pop contra vanguarda – no projecto Matching Mole (tradução em inglês da fonética, em francês, “machine mole”, Soft Machine, precisamente), de cujos dois únicos álbuns gravados, “Matching Mole” e “Little Red Record”, sairia um hit como “O Caroline” (repescado pelos Mynci Zygoti Mynci no seu disco de estreia), a par de instrumentais obscuros do mais puro experimentalismo.
Mas Robert Wyatt desdenhou sempre do jazz mainstream, preferindo a ala mais radical deste género musical e os cantores de soul que ouvia na juventude.
Regozija-se ao fazermos menção de duas obras, pouco conhecidas, que resolvem a questão de uma vez por todas, a velha guerra entre vanguarda e acessibilidade, nas quais a sua participação é decisiva: “The Hapless Child and other Incrustable Stories”, de Michael Mantler, discípulo hermético de Don Cherry (outro dos heróis trompetistas de Wyatt, a par de Mongesi Feza), com a guitarra de Mike Oldfield, e “Fictious Sports”, com a chancela de Nick Mason, baterista dos Pink Floyd, e a alta inspiração das composições de Carla Bley, com quem o ex-Soft Machine viria a tocar em posteriores ocasiões.
Em “Fictious Sports”, Robert Wyatt cantava “I’m a mineralist”. Hoje o compositor de uma banda sonora contra o abuso de animais em experiências científicas, “The Animals Film”, confessa o seu interesse por duas temáticas, na aparência, díspares: os insectos e as estrelas. O micro e o macrocosmo, segundo “uma tradição de simbolismo que sempre existiu, de forma quase subterrânea, em Inglaterra, em autores como William Blake”. E é de uma estrela que acaba a falar, Diana Spencer: “A minha reacção à sua morte foi semelhante à da maior parte das pessoas. Fiquei triste. É sempre bom as pessoas poderem viver um conto de fadas, ou participar numa ‘soap opera’. E, ao menos por uma vez, foi possível ver o povo inglês a exprimir uma emoção.” O sono e o sonho, uma vez mais. A comandarem o mundo, simultaneamente secreto e luminoso, esculpido em cicatrizes, de Robert Wyatt.

Art Zoyd - Häxan + Thierry Zaboїtzeff - Heartbeat

Sons

19 de Setembro 1997

ARTe SinuZOYDal

Art Zoyd
Häxan (9)
Reprise, distri. Warner Music
Thierry Zaboїtzeff
Heartbeat (8)
Atonal, import. Symbiose

Saúde-se o regresso, sobretudo porque se trata de um regresso à boa forma, desta banda francesa à qual se deve um dos marcos da música contemporânea deste século, a obra-prima “Berlin”. Se este álbum confirmou os Art Zoyd como um ícone da abolição entre “erudito” e “popular”, dialéctica que o quarteto suportou através de uma linguagem única e inovadora, foi a partir dele, porém, que o grupo se cristalizou no seu próprio auto-encantamento, assinando obras posteriores que nada acrescentaram à excelência daquele álbum, a saber, os dois volumes de “Marathonerre” e, sobretudo, o posterior “Faust”. É verdade que qualquer destes trabalhos, compostos respectivamente para um espectáculo multimédia e para o clássico de Murnau, confirmaram um relacionamento privilegiado e de cumplicidade crescente na área da interdisciplinaridade (antes, já “Marriage du Ciel et de l’ Enfer” fora feito para uma coreografia de Roland Petit), facto a que não será alheia a ginástica de maior contenção demonstrada neste tipo de trabalhos.
Mas “Häxan” também foi composto por encomenda. O excerto de 30 minutos de “Glissements progressifs du plaisir” (dividido em partes com alusões a “Ubik” pelo autor de FC, Philip K. Dick) pertence a “Häxan”, um filme de B. Christenssen, e os 17 de “Épreuves d’ acier” ilustraram musicalmente uma exposição de fotografia de Philippe Schlienger. Todavia, há aqui algo mais. Uma força acrescida e uma convicção renovada no reordenamento das coordenadas musicais do grupo, que em “Faust” correspondiam a um momento de certa lassidão. É claro, os Art Zoyd permanecem desmesurados como nunca, confirmando o seu estatuto de equivalente pós-moderno e electrónico dos Magma. Daniel Denis, Patricia Dallio, Gérard Hourbette e Thierry Zaboїtzeff são, cada vez mais, demiurgos dos “samplers”, que usam como deuses românticos. “Häxan”, uma história de demónios e tentações, rituais pagãos e tecnologia, recusa orgulhosamente as regras da canção e o imediatismo e narcisismo da pop. Estes cânticos, estas batidas de monstruosa densidade, esta ascese espiritual que desdenha superiormente do abismo, ensinam-nos, como Nietzsche, a superar os limites. Mesmo que a moeda de troca seja a loucura.
Thierry Zaboїtzeff, teclados, samplers, percussões, baixo e violoncelo, estende ainda mais o leque da instrumentação, incluindo sopros (samplados?) neste seu novo trabalho a solo, que sucede às aventuras electro-acústicas realizadas sob o pseudónimo Dr. Zab. “Heartbeat”, subintitulado “Concerto for Dance & Music, op. 1”, cruza-se com os territórios da música, “Zeuhl” (é favor consultar a cartilha de kobaїano de Christian Vander…) diverte-se a manipular a “world” das urbes esquizofrénicas e faz o relato de uma nova idade pluralista onde os códigos musicais se misturam e mutuamente se polinizam. O batimento de um coração múltiplo.

Third Eye Foundation - Ghost

Sons

19 de Setembro 1997

Third Eye Foundation
Ghost (7)

Domino, distri. Música Alternativa

“Corpses as bedmates”, “Cadáveres como companheiros de cama”, é um dos títulos deste álbum de fantasmas. Os Third Eye Foundation têm um sentido de humor muito particular. “Ghost”, que tem provocado algum furor lá fora (destaque na revista “Magnet”), surgiu rotulado como “pós-rock”, embora não haja muitos grupos conotados com o movimento parecidos com os TEF. É visível que o principal objectivo deles é fazer-nos sofrer. O som desfaz-se, numa tortura de “samples” que tanto podem esganar vozes étnicas como sinfonizar os ruídos industriais mais insuportáveis. Em termos rítmicos, a confusão de “breakbeats” tem como finalidade a ordenação possível do caos de distorção e deformidade harmónica. Mas, se no “pós-rock” apenas os Rome – ou, num registo de cruel exposição ao vazio, os Stars of the Lid – poderão rivalizar com os TEF no jeito para o massacre, já na década anterior encontramos outros ilustres torcionistas do som. É o caso dos This Heat, de Charles Hayward, referência óbvia em temas como “Corpses as bedmates”, “The star’s gone out” ou “Ghosts…” (em versão “drum’n’bass” no castelo dos horrores), numa idêntica combinação de bateria industrial, ruído rosa e metal “hurlant”. E dos Throbbing Gristle, em “The out sound from way in”, no mesmo gosto sádico com que fazem da elaboração de relatórios do pesadelo urbano deste final de século e do cinismo uma arma de vingança (o som da harpa, neste tema, é um esgar de gosto tenebroso). “I’ve seen the light and it’s dark”, avisam os TEF. Nós ouvimos a música e é ainda mais escura.

Genesis - Calling All Stations

Sons

19 de Setembro 1997

Genesis
Calling all Stations (3)
Virgin, distri. EMI-VC

Numa altura em que os dinossauros estão prestes a regressar pela mão de Steven Spielberg, no segundo capítulo da saga do seu parque Jurássico, o mundo volta a ser atacado por um dos seus espécimes mais resistentes e perigosos, o temível Genesiossauro, um dos maiores predadores dos charts. “Calling all Stations” aí está para cavar mais uma estaca no coração daquela que foi uma das bandas mais originais e criativas dos anos 70. Anthony Philips foi-se embora. Peter Gabriel despediu-se. Steve Hackett fartou-se. Ficou o tio Collins, que, por fim, também se fartou. Ficaram Mike Rutherford e Tony Banks. Com as mãos a abanar e uma tarefa por cumprir. Os Genesis, para mal dos nossos pecados, têm que continuar. Ouvidos 35673420 candidatos, foi escolhido um tal Ray Wilson, ex-Stiltskin, cuja voz – oh espanto e danação! – faz lembrar, em temas como “Congo”, a de Peter Gabriel. Aliás este e outros temas de “Calling all Stations” repescam a mesma estética de batida tribal que Gabriel explorou nos seus trabalhos a solo, com a diferença de que a criatividade é nula. São onze temas que se arrastam e se auto-estimulam, na vã tentativa de, com o esforço, encontrar um caminho, qualquer que ele seja, que vá dar a algum lugar que não o das vendas. Tempos médios sucedem a tempos médios, os refrões esgotam-se nas mesmas fórmulas que os anos foram cristalizando. Os Genesis arrastam-se e arrastam-nos num longo bocejo. Ainda não é desta que matam o borrego. Que, aliás, já foi morto. Há muitos anos. Na Broadway.

Fuschimuschi Math-Ice - Short Stories

Sons

19 de Setembro 1997

MUNDO CÃO

Fuschimuschi Math-Ice
Short Stories (9)

Maniffature Criminali, distri. Ananana

O que se pode fazer com um gravador de quatro pistas e sem “overdubs”? No caso do alemão residente em Düsseldorf Fuschimuschi Math-Ice, tudo. Ele fica-se por uma intenção mais modesta: resgatar a música pop. Para mais informações, pede para escreverem à mãe dele. Passemos aos factos. Os factos demonstram, por ínvios caminhos, uma evidência: “Short Stories” é um dos grandes discos do ano. Drum’n’bass, trip hop, scratch, pop, experimentação livre, humor devastador, numa combinação órfã de compromissos, fazem-nos abrir a boca de espanto. Procurem Arthur Russell, Steve Fisk, Negativland, R. Stevie Moore, Holger Hiller. Por mais longe que tenham ido, Fuschimuschi vai ainda mais longe.
“Short Stories” inclui uma sessão de “scratch” com o forro de umas calças. Amantes latinos dissertam sobre queijo mozzarella. A teoria da comunicação minimalista. Filigranas de metal e luzes, fortes e pequenas. Um bongo e mais nada. Bem-vindos à música do espaço arrumada em gavetas. Easy-listening difícil de ouvir. Tive um gato que fazia “au” quando se tocava o “mi” de uma marimba. Trip hop é hop trip. Só trip. Samplar heavy metal faz mal? “De súbito, uma frase italiana veio-me à cabeça: ‘Un panello com scritta fise.’” E “I viel gut”? “Não há mais nenhuma frase, como esta, em toda a história da pop.” “Short Stories” é “música para o futuro e música para o passado”. Criancinhas brincam no pátio. After Dinner. “A música foi o meu primeiro sorriso.” Hermeto Pascoal faz música com galinhas. Fuschimuschi faz música com conceitos, a festa de Babette da hermenêutica do absurdo, enquanto ontologia do cosmo. “A música é o meu único divertimento.” E o nosso. Fuschimuschi Math-Ice, como ele mesmo se define, é um “voyeur”.

Doa a quem doer [Folk - Espanha]

Sons

19 de Setembro 1997
FOLK – ESPANHA

Doa a quem doer

Enquanto por cá os discos importantes de grupos nacionais vão surgindo com intervalos de meses ou mesmo de anos, ao nosso lado, na vizinha Espanha, acontece o oposto. Músicos e editoras, animação e formação convergem num propósito comum. Os resultados estão à vista. Clau de Lluna, Luétiga, Clorofolk, Atlântica e Doa são exemplos da melhor folk que se está a fazer do outro lado da fronteira.

Obertura” é o terceiro álbum dos catalães Clau de Lluna, sucedendo a “Cercle de Gal-la” e “Fica-Li Noia!”. Diga-se desde já que é o melhor álbum do grupo. Não podia ser mais auspiciosa a abertura desta “Obertura”, uma “suite” de dez minutos com este nome onde é manifesta a enorme evolução sofrida pelo grupo. Dividida em quatro movimentos, “Obertura” apresenta uma riqueza excepcional ao nível dos arranjos, sucedendo-se as surpresas: um solo inspirado de gaita-de-foles, “intermezzos” barrocos, cânticos religiosos, no fundo pondo em prática o principal propósito enunciado pelo grupo: “a procura de uma sonoridade folk actual e genuinamente catalã”. Os restantes 12 temas centram-se nas danças tradicionais, contradanças, valsas, “sardanas”, “jotas” e “passedobles” animados pela gaita-de-foles (“sac de gemecs”, estes catalães são loucos!...), sanfona, violino, acordeão, cordas dedilhadas e percussões. Há ainda polifonias (“Con no n’era”) e aproximações à música antiga (“Tocata i polca”) num baile para dançar até ao nascer do dia (Música Global, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

“Diz a lenda que em todos os sábados, quando a noite cai, as bruxas da Cantábria saem, voando, em forma de aves, a caminho de Cernéula...” Deixem a racionalidade de fora, caso queiram aceder ao mundo de histórias contadas em voz baixa à lareira na estação dos frios e de danças de transmutação mágica, nos rituais da Primavera, dos Luétiga. Canções montanhesas, as “tonadas campurrianas” típicas da região, instrumentais sofisticados e vocalizações “a capella” são abordadas pelos seis elementos dos Luétiga, neste seu terceiro álbum, depois de “La Ultima Cajiga” e “Nel ‘El Vieju”, numa perspectiva de modernização que não trai a essência desta música profundamente enraizada na sua região natal, a Cantábria, a sul das Astúrias.
A instrumentação, como é regra neste género de grupos, é variada, incluindo a gaita-de-foles cantabro-asturiana, flauta e tamborim, pandeiretas, guitarras, violino, clarinete e acordeão. Tudo junto faz de “Cernéula” um álbum indispensável. Já agora, não liguem ao aviso, se pretendem bailar “a lo agarrau”, método considerado uma invenção do demónio, em que os jovens que dançavam deste modo “eram condenados irremediavelmente ao inferno” (Several, distri. MC – Mundo da Canção, 9).

Dois elementos dos Luétiga, Marcos Bárcena (guitarra, “whistle”, gaita-de-foles, “bodhran”, flauta e voz) e a, cremos que irlandesa, Kate Gass (violino, “whistle”, concertina, acordeão, pandeireta e voz), formaram o seu projecto pessoal, Atlântica, onde dão largas ao “pecado” da irlandização. Num álbum intitulado “Musica Celta Y de Otros Paises del Atlantico”, pois claro, os “reels” são a pontapé e as vocalizações em inglês fazem sorrir. Há quem goste. Nós achamos que, apesar de tudo, lá mais para norte, na ilha, soa mais convincente. Mas gostos não se discutem, como se costuma dizer... Condescenderam num tradicional da Galiza, noutro da Escócia, noutro de França, noutro ainda do Quebeque. O resto é tudo Irlanda e, para falar com franqueza, um pouco aborrecido e “celtichique” em demasia... (Several, distri. MC – Mundo da Canção, 6.)

Os Clorofolk, outro sexteto, no seu álbum de estreia, “Cambio de Agujas”, preocupam-se menos com os purismos regionalistas do que com uma abordagem renovada da música do mundo. Vão à Bretanha, à Roménia e, na vasta geografia espanhola, a Zamora e à Sanábria. E ao Oriente, que lêem de forma particular na sua “Luna de Oriente”. Rabih Abou-Khalil parou no centro do imenso planalto castelhano. E “El Monte de Venus” é tão inocente como a delicadeza das guitarras quer fazer crer? Progressivos (vestidos de Malicorne em “Esperanzas rotas”, pode lá ser, mas é um tema delicioso, o melhor, a par de “Apenas brilla la aurora”, uma oração de gaita-de-foles...), criativos e sem preconceitos, aos Clorofolk faltará, para já, soltar alguma adrenalina. Ou será que o defeito é da produção? (Saga, distri. MC – Mundo da Canção, 7.)

Resta darmos graças à reedição de “O Son da Estrela Escura”, dos Doa, um dos clássicos da música tradicional e antiga da Galiza, editado originalmente em 1979. Ainda um sexteto, os Doa recriavam então, com a sapiência de verdadeiros iniciados, as cantigas de Santa Maria, de Afonso X, as antiquíssimas “danças de espada”, com semelhanças melódicas e rítmicas com a música da Bretanha e da Provença, um romance francês do Caminho de Santiago, a “Carballesa” galega, a “danza do rosal”, a “Cabalgata de Ribadavia”, cantigas de amigo de Martín Codax e os célebres “Romance de doña ausenda” e “A Casadiña infiel”. Em todos eles sobreleva ora uma simplicidade tocante, ora a grandeza arquitectónica de uma catedral. Para ouvir com devoção. Obrigatório. (Clave, distri. MC – Mundo da Canção, 10)