26/07/2008

Rui Júnior & O Ó Que Som Tem - Ó Tambor

POP ROCK

1 de Maio de 1996

Rui Júnior & O Ó Que Som Tem
Ó Tambor
ED. FAROL

Na linha de outro grande percussionista, Glen Velez, Rui Júnior encara o ritmo como a arte e um veículo de transmutação interior. O objectivo é o transe, a sintonia nas frequências menos óbvias do som, a flutuação nos ecos e reverberações, a descoberta das ligações insuspeitas entre o ritmo dos corpos e o ritmo do mundo, o recorte dos microtons, em texturas onde o timbre vale tanto como o rigor do compasso. “Ó Tambor” prefere a contemplação à tempestade, a progressão lenta à explosão. Rios e ribeiros deslizam devagar, as suas águas confundindo-se com as de lagos que, por sua vez, desaguam em mares e oceanos. As samplagens de vozes de crianças, de uma orquestra, de ruídos animais, tanto como o poema védico lido por José Mário Branco ou a carga emotiva da voz de Amélia Muge, jogam com as polifonias vocais de índole religiosa ou simplesmente lúdica, seja na proximidade com a tradição portuguesa ou na apropriação das técnicas indianas. Não é música tradicional, embora haja uma gaita-de-foles a cantar em “Recolhimento”, um dos mais belos temas do disco, e a dança dos ritmos jogue às escondidas com as reminiscências do passado. Um reco-reco transporta consigo Airto Moreira e o Brasil, em “Frase feliz”, a África ergue-se no coro das Fincapé, em “’68”, um sonho cresce em procissão no enlace das percussões com o violoncelo, em “6 feira”. “Ó Tambor” é o pesadelo dos adeptos da adrenalina e o paraíso dos espeleólogos e alpinistas da sensibilidade. Um “O” cujo centro está em toda a parte e a circunferência em parte nenhuma. (8)

Tocar de cruz

Pop Rock

8 de Novembro de 1995
Opinar

TOCAR DE CRUZ

Portugal assistiu nos últimos anos ao aparecimento de duas correntes musicais, opostas e complementares, que se autonomizaram e fizeram escola. A primeira nasceu das teorizações de Pedro Ayres Magalhães e ganhou corpo nos Madredeus. A segunda tem nos Sitiados o seu mais popular e aguerrido paradigma. Caracterizam-se ambas por um nacionalismo intrínseco, na medida em que veiculam e reproduzem valores tipicamente portugueses.
Os primeiros propagandeiam o fado, a saudade, o quinto império coberto por um sudário. São elitistas. Os segundos defendem ideais mais prosaicos e fazem a apologia do arraial, dos copos e do futebol. São populistas. Enquanto os Madredeus faziam a banda-sonora da Lisboa existencial observada através de câmara de Wim Wenders, os Sitiados chamavam nomes à sogra e cobriam de ridículo a figura de Cavaco. Os Madredeus estão crucificados num violoncelo. Os Sitiados dançam ao som de um acordeão.
Estaria tudo conforme e na paz dos anjos se o que na origem se afirmou como o exercício saudável de duas alternativas originais no panorama pop português não se tivesse transformado num pretexto para o conformismo e a estagnação. Tanto os Madredeus como os Sitiados inventaram (?) e exploraram um conceito. Seria absurdo criticá-los por isso. O problema surge quando os discípulos ou, pior, os imitadores saem das tocas e põem o nariz no ar a ver para que lado sopra o vento.
E assim chegámos, não ao quinto império, mas ao quintal; não à grande festa popular, mas ao estado de sítio. São os filhos de Deus, os primos de Deus, os sobrinhos de Deus, os enteados de Deus, que se vestem de negro e arvoram a pose fatalista de um Portugal que se esgota entre os cafés de Alcântara e o Bairro Alto, de um lado. São a chusma do palavrão e da pilhéria boçal, uma excitação, aos encontrões no baile pindérico do provincianismo que cabe no Centro Comercial do Martim Moniz, do outro.
No meio destes dois lodaçais sufoca-se. Entre dois estereótipos do “ser portuga”, a música portuguesa corre o risco de cegueira e da asfixia. O nosso fado tem sido desde sempre o de deitar tudo a perder, quando se tem o tesouro e o poder nas mãos. Seria trágico que os novos músicos portugueses se deixassem iludir pelo brilho da fancaria e baixassem o cachaço ao afago dos falsos profetas. Chega de “fado” e de pimba!

Ácido no equalizador [More República Masónica]

POP ROCK

9 de Outubro de 1996

More República Masónica lançam “Equalizer”

ÁCIDO NO EQUALIZADOR

Entre “Blow your Mind (with Supersonic Meditation)”, o álbum anterior, e o novo, “Equalizer”, os More República Masónica (MRM) movimentaram-se na procura de um novo som. Para tal, conseguiram os serviços do produtor Marsten Bailey e a colaboração dos convidados Mário Resende, dos Duplex Longa, no violino, Ana Santos e Darin Pappas, dos Ithaka, nas vozes, e Paulo Vitorino, ex-Clandestinos, na guitarra, que entretanto passou a ser elemento permanente da banda. Para Paulo Coelho, guitarra e voz do MRM, “a escolha de um produtor envolveu um trabalho maior, quer em termos de ensaios, quer em termos de resultado final, no estúdio”, resultando num som “mais trabalhado”. “Equalizer” inclui onze temas, compostos e escritos pelo grupo, à excepção de “Roads”, versão autorizada da canção dos Portishead.
Com tanta ou mais força que “Blow your Mind”, “Equalizer” destila um psicadelismo às avessas, presente na ironia como os sons e as guitarras são trabalhadas. O som de Detroit, de bandas como os Stooges e MC5, é reciclado num híbrido que prolonga os seus tentáculos pelo “hard rock” dos anos 70. Nos MRM, o “ácido”, mais do que lisérgico, é sulfúrico, tal a corrosão dos sons e o sabor a óleo e a ferrugem das palavras. A abertura, com o título “21st century flower power” é, para Paulo Coelho, a desmistificação feroz de uma maneira de estar na sociedade contemporânea. “A primeira flor do século XXI, em que as pessoas têm a tendência para ser mais materialistas”.
A assimilação de influências exteriores nunca constituiu, aliás, um problema para os MRM. “Temos uma atitude demasiado sincera, aquilo que ouvimos no dia-a-dia reflecte-se na música que fazemos. Era impensável, quando começámos a tocar, fazer uma versão dos Portishead, nem sequer conhecíamos essa música, que não tem muito a ver com o rock. Encontrámos nessa banda, ao nível das letras, qualquer coisa de misterioso.”
Acreditam que o rock não pode nem deve ser quadrado, mas sim evoluir para formas de sofisticação crescente. Termos como “rock sinfónico” e “música progressiva” não os assustam. “O rock, numa determinada altura, esgotou os seus recursos. O facto de as pessoas irem buscar influências aos anos 70 deriva desse esgotamento. Ao nível social, os anos 70 e 90 equiparam-se um bocado.” E se o psicadelismo, na sua forma original, não dispensava o uso de drogas alucinogéneas, a verdade é que os More vão por outro lado, interiorizando a mitologia sem lhes colher os (perniciosos) efeitos. “A nossa música tem a ver com todas as drogas, apesar de não as utilizarmos. Se calhar, talvez nos fizesse bem. É uma questão de estado de espírito.”
Na sequência do lançamento de “Equalizer”, os More poderão ser vistos num “videoclip” com o tema “Electric mastermind” – “sobre pessoas eternamente em busca de mitos, sem saberem onde os irão encontrar” -, estando a apresentação ao vivo do álbum marcada para amanhã à noite, no Garage, em Lisboa, num espectáculo que contará igualmente com a participação da banda convidada, Gasoline.

UHF - Cheio

POP ROCK

17 de Maio de 1995

álbuns portugueses

UHF
Cheio
ED. E DISTRI. BMG ARIOLA

É impossível não sentir simpatia pelo tio “Manel” Ribeiro. António Manuel Ribeiro (AMR) e os UHF são a face mal barbeada da pop nacional, a “outra banda” de frequências que dão choque, o rock que não tem vergonha de o ser, na contracorrente dos maneirismos que vão grassando por cá. “Cheio” é um testemunho de uma carreira, recuperada para as gerações mais novas, que adoptaram o grupo a partir da versão de “Menina estás à janela”. Temas do álbum “Santa Loucura”, “Comédia Humana” e “Estou de Passagem”, mas também clássicos mais antigos de “À Flor da Pele”, como “Rua do Carmo” e “Rapaz caleidoscópio” ou o “single” “Cavalos de corrida” foram regravados de maneira a preservar o essencial e, ao mesmo tempo, melhorar outros aspectos, como a própria interpretação, que a passagem dos anos tornou mais madura e tecnicamente segura. “Rua do Carmo” é de certa forma uma excepção, já que sofreu alterações de fundo, baixando de velocidade, tornada uma canção que interioriza um lugar massacrado, também ele objecto de transformações, algumas “contra natura”, ao longo dos anos. Depois, há os inéditos – cinco -, onde o grupo e, em particular, AMR continuam à dentada, “cheios” “desta estupidez de ser português estendendo a mão (…), desta hipocrisia que faz romaria, hinos da nação”. “Quero um ‘whisky’” representa o lado existencialista do homem aprisionado na sua condição de artista, com uma linha de órgão descaradamente inspirada nos Doors. “Toca-me” é uma típica balada de amor, na sequência de outras assinadas pelo vocalista, que não traz nada de original. “Por ti e por nós dois” tem um refrão fortíssimo. “Desolhados”, sobre os famigerados arrumadores, “como ‘zombies’ a penar num dia merdoso”, faz a denúncia dos estragos causados pela utilização das drogas duras. Por último, “Caçada” não adianta nada ao passado, nem acrescenta novas pistas para o futuro. Mas não é isso que faz dos UHF uma instituição? (6)

Rafael Toral - Wave Field

POP ROCK
15 de Novembro de 1995

Álbuns portugueses

Rafael Toral
Wave Field
ED. E DISTRI. MONEYLAND

“The Wave Field está situado algures numa região longínqua do território ambiental, junto à fronteira de uma área pantanosa onde vibrações abstractas de rocha líquida se dissolvem sob nuvens carregadas de ruído, ecoando alguma irradiação eléctrica”, diz o autor a propósito da sua obra. Nem mais, escrito em inglês e tudo, sem esquecer uma dedicatória (em inglês) a Alvin Lucier e outra, em letras mais pequenas, aos My Bloody Valentine, nem o indispensável aviso (em inglês) aos ouvintes de que “não foram utilizados sintetizadores, mas apenas filtros”. Bom, são três longas composições, sem sintetizador, apenas com filtros, uma do ano passado, as outras deste ano, nas quais Rafael Toral põe a guitarra a ressonar num “continuum” perpétuo. Ao pé dele, a “infinite guitar” do Michael Brook parece uma ejaculação precoce. A bíblia da guitarra demoníaca, “Evening star”, de Robert Fripp com Brian Eno, continua a ser o ponto de referência. Ouvido com muita atenção e com dez quilos de LSD no bucho consegue-se mesmo descortinar o som de “vibrações de rocha líquida dissolvidas sob nuvens carregadas de ruído, ecoando alguma irradiação eléctrica”. Ou será o ruído do motor do leitor de compactos? (4)

Telectu - Telectu, Cutler, Berrocal

POP ROCK
15 de Novembro de 1995

Álbuns portugueses

Telectu
Telectu, Cutler, Berrocal
ED. FÁBRICA DE SONS, DISTRI. MOVIEPLAY

Quem porfia sempre alcança, diz-se, e Jorge Lima Barreto tem porfiado bastante. O mais recente “opus” da dupla Barreto/Rua reúne actuações ao vivo com os convidados Chris Cutler, nas percussões e electrónica, e Jac Berrocal, trompete e electrónica, realizadas o ano passado, no Teatro S. Luiz, em Lisboa; só com Berrocal, no mesmo ano, na Casa de Serralves, no Porto; e com Cutler, há dois anos, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra. Os 42 minutos e 13 segundos da “performance” em Lisboa constituem o prato forte da improvisação em quarteto, onde o principal atractivo consiste em tentar descortinar onde termina o aleatório e começa o discurso previamente, pelo menos em parte, estruturado. O caos mostra deter as rédeas de comando neste périplo pela cacofonia que substitui os anteriores “mimetismos” da dupla portuense. Há sons estranhos, encadeamentos com a duração de segundos onde os músicos se surpreendem a tocar juntos, instantes de poesia, até de silêncio. É óbvio que tanto Rua como Barreto assimilaram convenientemente algumas das cifras correntes da chamada “new music”. A maior virtude dos Telectu tem sido, desde sempre, a de tirar o máximo partido das limitações próprias. Por fora, este disco tem um néon a piscar “novidade” e “experimentação”. Difícil, a exigir esforços da imaginação, é descortinar nele um sentido mais além, um dizer algo que não se esgote no próprio instante interpretativo. Por ora os Telectu parecem comprazer-se nas delícias do fugaz. Guardamos na memória o bom entendimento de Rua com Cutler no tema do Gil Vicente, e o “tour de force”, entre o litúrgico, o magmático e a música concreta, de Lima Barreto, nos sintetizadores do terceiro e último acto. O invólucro pictórico leva a assinatura, como de costume, de António Paolo. (7)

Sérgio Godinho - Noites Passadas

Pop Rock

29 de Novembro de 1995
Álbuns portugueses

CADA CANÇÃO É OUTRA CANÇÃO

SÉRGIO GODINHO

Noites Passadas (8)
EMI, distri. EMI-VC

“Noites Passadas” começa por ser um divertimento com o título. Noites do passado, noites que passam, talvez até noites loucas. Noites bem passadas, as que Sérgio Godinho passou a tocar e a cantar, a 26 e 27 de Novembro de 1993, no Teatro São Luiz, e a 25 do mesmo mês, mas do ano seguinte, no Coliseu de Lisboa. Espectáculos memoráveis, agora recuperados em compacto. “Noites Passadas”, como já acontecera com “Escritor de Canções”, responde a uma necessidade do compositor de transformar, experimentar os limites de cada canção.
Cada tema é um espelho onde Sérgio Godinho se confronta com o passado e, ao mesmo tempo, um trampolim do tempo, uma garantia de estar a palmilhar o caminho certo. O autor de “Os Sobreviventes” tem conseguido sobreviver a si próprio, à saturação e ao cansaço, graças a esta recusa em parar numa época, por mais dourada que esta se revele. “Misticismos agora à parte/ envelhecer é uma arte/ ‘arte-nova’, ‘arte final’/ numa luta desigual”, canta Sérgio Godinho em “O elixir da eterna juventude”. Acompanhar nota a nota, letra a letra, estas “Noites Passadas” é acompanhar um percurso interior partilhado com o público. É seguir com prazer as metamorfoses de canções antigas, como “A noite passada”, “O primeiro dia”, “Com um brilhozinho nos olhos”, “Lisboa que amanhece”, “Coro das velhas”, “Caramba”, “Sr. marquês”, “É terça-feira”, “Quimera do ouro”, ou mais recentes, como “O primeiro gomo da tangerina”, “Fotos do fogo” e “Enfim S. O. S.”, do último álbum de estúdio, “Tinta Permanente”.
“Noites Passadas” permite, enfim, esse eterno diálogo com a memória, de viver cada história e cada lembrança como se fossem sempre novas. Ouvimos as canções que conhecemos de cor e reconhecemos nas alterações e novas “nuances” que lhes foram introduzidas as nossas próprias transformações. Sérgio Godinho é um autor clássico da canção portuguesa, não por um estatuto ganho à custa da antiguidade, mas, pelo contrário, porque tem sabido conservar, ao longo dos anos, a pureza do ouvido e do olhar. “O passado é um país distante/ que distante é a sombra da voz/ O passado é a verdade contada/ por outro de nós”. “E o futuro diz que está aqui, já”. Sei lá, caramba, este é um dos gozos maiores que a música de Sérgio Godinho proporciona: trocar as voltas aos sentidos, usar e abusar da permissividade da linguagem.