08/01/2015

Brinquemos ou quê? [Cebola Mol]



Y 31|AGOSTO|2001
música|nonsense

brinquemos ou quê?

Provoca a gargalhada boçal, mas o pior de tudo é que não há maneira de evitá-lo. Chame-se-lhe rock-gozo, um desvairado exercício de nonsense ou, simplesmente, música para divertir. Os Cebola Mol são os últimos de uma linhagem encetada em Portugal pelos Afonsinhos do Condado e prosseguida pelos Irmãos Catita. Quando julgamos ver neles meros arautos do mau gosto e da piada fácil, eis que uma fulguração subtil deita por terra o julgamento.
Artigo conjunto de FM e Miguel Francisco Cadete que escreve sobre os Afonsinhos do Condado e Irmãos Catita

cebola mol o fenómeno musical deste verão

As canções explodem na rádio. O público enlouquece nos concertos. As vendas do álbum “Samba-Roulotte” disparam. O fenómeno musical deste Verão dá pelo nome de Cebola Mol. Eles são dois irmãos espirituais, Phil e Eddie Stardust. Herdeiros do rock de “Chico fininho”, praticantes de free-jazz, amantes do psicadelismo e de uma boa patuscada, influenciados pelos Sigur Rós e pelos Thievery Corporation, com quem mantêm afinidades musicais impressionantes (pelo menos é o que dizem e uma audição atenta do álbum permite comprovar), eles são, acima de tudo, dois gozões de primeira cuja música não tem rigorosamente nada a ver com o que atrás foi escrito. Exceto que o seu novo álbum, “Samba-Roulotte”, existe de facto e que as suas vendas já estiveram mais longe de lhes garantir uma moldurazita com um disco de prata na galeria de honra da EMI-VC.
“Samba-Roulotte” descende de uma linhagem de rock-gozo encetada em Portugal pelos Afonsinhos do Condado e prosseguida pelos Ena Pá 2000 e pelos Irmãos Catita, sob a batuta do grande mestre e candidato à Presidência da República Manuel João Vieira (bem haja!). Quando o nome Cebola Mol começou a ser pronunciado nos meios melómanos do país, através da canção “O homem que mordeu o cão”, fizeram-se comparações com o então emergente Zé Cabra. Nada mais injusto e afastado da verdade. A Phil e Eddie Stardust custa desafinarem. Quando tal acontece, é mais uma “boutade” a juntar às muitas outras que fazem de “Samba-Roulotte” um desvairado exercício de “nonsense”.

Uma fulguração subtil. Gravado metade ao vivo, no Café Luso, em Lisboa, metade em estúdio, “Samba-Roulotte”, para quem tiver ouvidos e cultura humorística, é uma homenagem aos Monty Python e à canção nacional. O “nonsense”, naquilo que o define como anarquia da palavra e do espírito. Quando julgamos ver nos Cebola Mol meros javardos, arautos do mau gosto e da piada fácil, eis que uma fulguração subtil deita por terra o julgamento. Mas se, ao invés, os tomamos por autores shakespeareanos para quem o riso é um ornamento da alma, rococó e sofisticado, logo a palavra “errada” e o “sketch” inusitado apagam quaisquer considerações antecipadas.
Assim, o melhor mesmo é ouvir “Samba-Roulotte” de fio a pavio. E rir. Com o cérebro ou com o barrete saloio enfiado, pois o disco fornece alimento suficiente para ambos. Tem temas desopilantes. Apartes desconcertantes. E até – imagine-se – canções que se grudam como ostras ao ouvido. Há paródias a António Variações, David Bowie e Luís Represas. Ao fado e ao “rock sentimentalão”, ao psicadelismo e à música brasileira.
“Os meus irmões baterem-me” é qualquer coisa de brutal e de alarmante. Provoca a gargalhada boçal, mas o pior de tudo é que não há maneira de evitá-lo. Nas festas e “vernissages”, o tema faz furor. A comunidade cigana, dando provas de sentido de humor, não se ofendeu. Aliás, todas as comunidades, localidade e géneros de música portugueses, incluindo o “raga” instrumental que fecha o CD, são contemplados pelos Cebola Mol em “Samba-Roulotte”. Contemplação é, aliás, a palavra de ordem. Não há pai para eles. O que significa que não há respeito.
“Joli (o cão da malta)” é um hino. “Sugar honey baby, baby”, apesar do estruturalismo da letra, por vezes de difícil leitura, chega na mesma às massas, sobretudo as menos cultas e as mais cultas, aquelas que conhecem Elvis Presley e o mal que isso lhes fez. “Pessoal do meu bairro” apela à libertação de Nelson Mandela e de Xanana Gusmão e, em geral, de todos os pássaros engaiolados.
Mas os Cebola Mol também tocam – e bem – Thelonious Monk. E o título-tema, gravado em estúdio, inclui efeitos eletrónicos disparatados no que é uma análise inteligente da música brasileira, cantarolável em último grau. Mas genial mesmo é “Eu chovo”, caracterizado por ter duas letras diferentes cantadas em simultâneo, cada um num dos canais de estereofonia. E mesmo aqui a lógica…
Os Cebola Mol têm um site na Net (www.cebolamol.com) onde se pode ficar a saber tudo ou quase nada sobre eles. Até se pode consultar as letras. “Assim poderem cantar nos bares com os amigos, naqueles sistemas de cariocas, porque nós pormos aqui as letras para vocês aprenderem!”, dizem os dois irmãos Stardust, apesar de não saberem escrever “caraoque”.

O quarto disco. Mas deixemos que sejam eles a explicarem-se e a explicarem a sua arte.
“Samba-Roulotte”, o que é? Phil e Eddie são claros na resposta. “Isto é o quarto disco, não temos é o primeiro, não conseguimos aguentar a pressão do primeiro disco, mas para trás há uma história de dois irmãos que são gémeos, um tem 28 anos, o outro 26 (o mais velho). Quisemos experimentar o estúdio, mas ao vivo é que é a essência disto. É assim: cria-se um mecanismo, dentro da desordem e o caos que são os nossos espetáculos há uma espinha dorsal, ou seja… É como jazz. Tem a ver com a lógica das nossas cabeças, quando parece que mais ninguém está a ver lógica naquilo… Sem querer entrar em grandes porcarias técnicas.
“Em ‘Eu chovo’, foi uma das poucas vezes em que houve discórdia, cada um de nós queria uma letra e nenhum arredou pé. A sorte foi termos só uma viola. Somos superfanáticos dos Monty Python, sobretudo do Eric Idle, estivemos para fazer uma versão do ‘Always look on the bright side of life’. Gostamos muito de música brasileira, quisemos fazer uma homenagem que fosse ao mesmo tempo um disparate sem sentido. ‘Pessoal do meu bairro’ começou por ser uma homenagem ao Luís Represas, é todo um espírito da música de intervenção, o Bowie surge por causa do nosso pai Ziggy Stardust, o Variações aparece por acaso. ‘Os meus irmões baterem-me’ só existe graças à ingestão de muito leite… e bagaço… No fundo, não é nada que os Napalm Death não tivessem já feito, nós optámos por um ‘unplugged’, mas os The Gift foram a banda que mais nos influenciou. No último concerto, foi tal a desbunda que saímos os dois em cuecas!...”
Nesta altura apareceu o fantasma de Graham Chapman, dos Monty Python, disfarçado de polícia, a gritar: “Corta!”

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