28/11/2016

Pokémon iluminado [Festival Ritmos]

CULTURA
SÁBADO, 30 JUN 2001

Crítica Música

Pokémon iluminado

Vocal Sampling + Chico César
Porto, Jardins do Palácio de Cristal
28 de Junho, 22h30
Cerca de duas mil pessoas

Dois bons concertos abriram a oitava edição do Ritmos, Festas do Mundo, este ano subordinado ao tema “Planeta Latino”: os Vocal Sampling, de Cuba, e Chico César, do Brasil.
Os Vocal Sampling foram sinónimo de virtuosismo, ecletismo e boa disposição. Seis cantores pouco ortodoxos e sem preconceitos que, no Porto, entre outras indumentárias, se vestiram de operários da construção civil e imitaram com a voz, na perfeição, trompetes, trombones, guitarras elétricas, contrabaixo e percussão, num falso karaoke que pôs as cerca de duas mil pessoas presentes nos jardins do Palácio de Cristal em euforia.
Passando em revista o novo álbum, “Cambio di Tiempo”, foram a todas, dos Beatles ao scat jazzístico, terminando num impressionante cânon a seis vozes de “Assim Falava Zaratustra”, de Richard Strauss (e não Wagner, como escrevemos no texto de apresentação). Premiados com um encore interminável, conseguiram a proeza de pôr o público a cantar em contraponto. E a preceito, coisa nunca vista!
Também não deu para acreditar no desempenho do “percussionista”, que sem outros recursos além dos pulmões, das cordas vocais e de estalos com as mãos, rubricou um solo completo de bateria, incluindo breaks, sons de címbalos, prato de choque, bombo, tarola… Um verdadeiro sampler humano.
Chico César, que atuou a seguir, segurou sem dificuldades uma assistência familiarizada com a sua obra. Não demorou até o recinto se transformar em bailarico improvisado. Chico, o homem-cebola, “showman” inspirado que num ápice salta da batida-chalaça para solos de guitarra psicadélica, do rock para o reggae, do afro-beat para o forró, apresentou uma mescla de temas conhecidos, com ênfase no álbum “Mama Mundi”, e originais.
Entre baladas intimistas, como “Onde estará o meu amor” e “À primeira vista” (popularizado por Daniela Mercury), e longas sessões de transe com raiz em África, o brasileiro jogou com o humor, a familiaridade e a experimentação. Cantou vários temas com um balão, atirado pela assistência, enrolado à volta da cabeça, como um turbante, qual Sun Ra de uma hamburgueria McDonald. Colocou-se diante de um canhão de luz, o rosto a piscar em luz violeta, como um Pokémon saído da quinta dimensão. Aplicou sovas à guitarra, mas também a acariciou, hipnotizou com um tambor, estendeu-se em jam sessions onde brilharam os sopros de Simone Julian, os samples disparados pelo percussionista Guilherme Kastrup e os teclados de Marcelo Geneci da Silva.
Brasil de mil cambiantes. O baile não dava mostras de parar. Havia gente de cabeça saudavelmente perdida, enredada em danças particulares, cantou-se em coro, pediu-se mais. Chico César, visivelmente bem disposto, regressou humilde: “Querem mais uma? Querem uma cantada ou instrumental?” Saiu rave. Tecno tropical. Para entrar pela noite dentro se esta não fosse já adiantada e o “staff” da câmara não ansiasse por dar por terminada a função…


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