28/11/2016

A vida come-se? [Lula Pena no Sete Sóis Sete Luas]

CULTURA
QUARTA-FEIRA, 18 JUL 2001

A vida come-se?

LULA PENA ATUOU NO SETE SÓIS SETE LUAS

A música frágil de Lula Pena foi o prato forte de mais uma jornada italiana do Sete Sóis Sete Luas, na mesma noite em que se serviu o já célebre banquete do festival

Chamemos-lhe uma idiossincrasia. À música de Lula Pena, que ontem se apresentou na Villa Malaspina, em Montecastello, em mais uma jornada italiana do festival Sete Sóis Sete Luas. Sozinha em palco com uma guitarra, a sua figura era a imagem perfeita da fragilidade, da exposição pública sem defesas.
            A música não ajuda a desfazer esta imagem. No limite, o híbrido de fado, bossa-nova, português com e sem sotaque brasileiro, que a autora do álbum “Phados” molda numa ladainha de um ritual desconhecido, é não-música, não-voz, não-guitarra, não-não, no sentido mais prosaico dos termos.
            A voz desce de tom até se tornar pouco mais do que sopro, a guitarra tece uma malha frágil de hesitações ou é percutida como tambor a marcar a cadência de uma alma moribunda, as melodias enovelam-se num avesso da emoção, deixando, por sua vez, a audiência exposta à distância e à inacessibilidade de uma forma de expressão que se constrói como estranheza, alheia às lógicas do mundo.
            Intimismo é termo demasiado enfático para descrever o que, por momentos, mais pareceu descanso eterno, monólogo, sombra de uma sombra emanada de uma tumba. Lula Pena tem segredos para contar mas o lugar mais indicado para o fazer será um círculo de amigos, a penumbra de um cubículo, um confessionário. Apesar de tudo, o público italiano pareceu gostar, aplaudindo numa espécie de adormecimento a cerimónia fria servida pela cantora, na mesma noite que tinha ainda reservado o já célebre bacanal de carne montado pelo talhante e “poeta carnale”, Dario Cecchini, que Santa Maria da Feira pôde saborear, em versão completa e dionisíaca, no mês passado, no âmbito deste mesmo festival.
            Em Itália, o festim foi servido no terraço do Associazione Culturale Immagini, entidade organizadora do Sete Sóis Sete Luas, com a diferença de que não foi festim nenhum. O próprio Cecchini anunciou com pompa e voz tonitruante estar ali para celebrar a “paixão” e a “poesia” da carne. Poesia ainda terá havido, paixão, nem tanto. O convite não poderia ser mais belo: “Venham comer, porque esta é carne sagrada. À noite esquartejamos anjos”... A ideia era devorar, o mais poética e apaixonadamente possível, carne, carnuça, de anjos, de porco ou de vaca, intercalando a mastigação ritual com momentos de música e declamação de poesia.
            Mas — oh!, desilusão —, se no que diz respeito às artes nobres, o espírito se satisfez com a voz belíssima de Cristiana Arcari e as intervenções instrumentais (no piano, flauta de cana baixo, uma terrina de metal posta a vibrar, na voz, modulada à maneira “tibetana”...) de Bruno de Franceschi, bem como com as declamações de Dante, dito com “verve” e “crueldade” pelo próprio Cecchini, já a carne propriamente dita andou arredada do excesso e, pior ainda, dos pratos: um mero montinho vermelho da dita, crua (saborosa), um salame, o resto para enfeitar.
            A seguir, o chefe Luís Soto Mayor, vindo expressamente de Santa Maria da Feira para fazer pecar diariamente, pela gula, toda a comitiva do festival, apresentou uma açorda de peixe (numa noite dedicada à carne), de acordo com sua filosofia gastronómica de mestiçagem da cozinha portuguesa com os sabores da diáspora, e leu uma cantiga de escárnio e maldizer de Martín Juarez. Um Quinta do Vale do Mougo de 1995, da Bairrada, e um dourense Quinta do Portal, do mesmo ano, fizeram o que nenhuma carne do mundo conseguiria: pôr todos de bem com o mundo.
            Atuaram ainda a Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor e um grupo vocal e de violas campaniças, de Castro Verde, apresentado na ocasião pelo etnomusicólogo José Alberto Sardinha. E comeu-se um combinado de queijo “Pecorino” com requeijão e uma “mostarda mediterrânica”, doce e picante. “Como a vida”, comentou alguém. A vida come-se?

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