pop rock >> quarta-feira, 13.01.1993
DEBATE
Música portuguesa
O PRIMEIRO DEBATE DOS ANOS 90
1992 foi o ano em que pela
primeira vez, desde Amália, nomes da música portuguesa se impuseram
além-fronteiras, o que aconteceu com Madredeus, LX-90 e até Rão Kyao. O ano em
que um grupo português, os Resistência, com o seu álbum de estreia “Palavras ao
Vento”, assomou ao top dos cem discos mais vendidos na Europa. Em que surgiram
a concorrer para os primeiros postos do top português uma série de discos
nacionais que ultrapassaram decididamente o plano da produção caseira. A
qualidade de som do segundo álbum dos já citados Resistência e designado “Mano
a Mano”, como o homónimo de estreia dos Zero, ou “Rock In Rio Douro” dos GNR
não deixaram nada a desejar em relação ao melhor da produção estrangeira. Em
paralelo apareceram editoras independentes, como a Moneyland Records, a MTM e a
Numérica. E há muito tempo que não se apostava tanto na música portuguesa,
justamente num ano em que a indústria da música declarou recessão em termos
internacionais.
Afinal,
o que é que se passa na música portuguesa? Quais os desafios e as motivações?
Que sons, atitudes e estéticas a atravessam à entrada de um novo ano? É preciso
voltar a lançar a discussão e ninguém como os próprios músicos está em posição
de dar respostas. Mas a presente situação tem também isto de inédito: nota-se,
se não um conflito, pelo menos uma certa clivagem de gerações. Daí a escolha
dos protagonistas do debate: José Mário Branco e Sérgio Godinho, que iniciaram
as suas carreiras no final dos anos 60 e estiveram na linha da frente da música
de intervenção pré-25 de Abril; Pedro Ayres de Magalhães e Carlos Maria
Trindade, por seu turno, foram dos principais impulsionadores da chamada música
moderna portuguesa, no início dos anos 80, enquanto membros dos Heróis do Mar;
António Manuel Ribeiro, o UHF que é porventura o último dos puristas do rock
português, e Adolfo Luxúria Canibal, o Mão Morta que em meados da década
passada introduziu uma postura de rutura com o sistema das multinacionais. Finalmente,
João Paulo Feliciano dos Tina & The Top Tem, que segue essa pista de
independência, mas faz parte de uma nova geração que não canta na nossa língua,
nem procura refletir valores portugueses. Fator adicional da escolha: tirando
Sérgio Godinho, todos os intervenientes estão ou estiveram ligados a editoras e
à produção discográfica local.
[Este debate foi concebido e orientado por
Jorge Dias, Fernando Magalhães e Luís Maio. As fotos que o testemunham para a
posteridade são de Alfredo Cunha]

PÚBLICO – Chegados aos anos 90, há
ou não um regresso da “mensagem” na música portuguesa, mais ou menos
politizada, a fazer a ponte com os anos 70, depois de um certo vazio de
palavras fortes na década passada?
ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL – Começo
logo por negar isso. Se havia uma fação politizada que veio da pré-revolução,
ou do pré-golpe de Estado, e que continuou nos anos seguintes com uma voz ativa
e com mais tempo de antena em termos de grande público, o que é certo é que
também já nessa época existia um outro tipo de música menos politizada, no
sentido de ser menos militante e menos intervencionista de um ponto de vista
social e político primário. Por outro lado, nos anos 80, se esse tipo de música
perdeu a voz em termos de “mass media” e do grande público, não a perdeu
totalmente, continuou a existir e o grupo que veio substituí-la, o rock
português ou a música moderna portuguesa, também não era tão despolitizado como
isso. A prova foi, por exemplo, que um dos grandes grupos dessa época eram os
Heróis do Mar, que estavam longe de ser despolitizados. Tinham uma intervenção
política específica, com outra linguagem, noutro campo porventura. Mesmo que a
intenção fosse o divertimento.
Não é o aparecimento dos
Resistência que nos vem dizer que há outra vez uma politização da música
portuguesa nos anos 90. Primeiro, porque os Resistência estão a utilizar
palavras da música dos anos 80, que era a menos politizada, portanto há logo aí
uma contradição. Depois, os Resistência fazem outra coisa que é colocar a
palavra em primeiro plano, com todas as consequências, possivelmente negativas,
que é deixar morrer, de certo modo, a politização que houve nos anos 80, que
ocorreu não só ao nível das palavras, mas também da ação musical, através de
uma recusa de certos parâmetros musicais que os Resistência vão recuperar aos
anos 70. No fundo, ao colocar a palavra na mó de cima, está a provocar o
regresso estético dos anos 70, ou seja, ao que está para trás.

PEDRO AYRES MAGALHÃES – Que não se
confundam as coisas. Os Resistência não são um projeto no sentido de “grupo”.
Nós estamos é envolvidos numa manobra. Uma manobra de resistência à dominação
da vida social e cultural portuguesa pela influência anglo-saxónica. Depois, os
Resistência foi uma iniciativa contra um estado de moleza que grassava há uns
dois, três anos. Nesse sentido é “reacionário” a um determinado “statu quo”,
não no sentido tradicional do termo. Quanto a ser um projeto de conservadores,
é um conservadorismo no sentido de conservar as ideias e uma certa maneira de
estar no mundo que a nossa geração consagrou e andou a cantar durante anos. As
canções foram escolhidas a dedo. Quem quiser ler, os sintagmas estão lá todos.

JOSÉ MÁRIO BRANCO – A questão das
versões prende-se com o esvaziamento das ideias sociais. Chamem-lhe “crise das
ideologias”, o que quiserem. Se não houver, por parte do músico, num disco ou
num espetáculo, uma urgência, uma premência de dizer qualquer coisa, esse vazio
aparece automaticamente. Então ele vai recorrer ao que já foi feito. A
tendência para o revivalismo é um reflexo que leva a ouvir o antigo e de,
através dele, se remotivar. Grave sim é quando isso passa a ter como
significado qualquer coisa como “eu não sei o que dizer aos outros”.

Um conflito de gerações?

P. – Será um pouco por esse vazio
de mensagem que hoje surge uma nova geração que não canta na nossa língua? Será
condenável os músicos portugueses comunicarem com plateias portuguesas em
inglês?
P.A.M. – Quanto mais forte for a
nossa identidade cultural mais fortes serão todas as outras que nos chegam.
Nunca mais tomaremos gato por lebre e nunca mais se tornará difícil a um tipo
que só quer gravar um disco e passar num programa de rádio chegar lá e ouvir
“se é português, não quero!”. Eu ouvi isso.
JOÃO PAULO FELICIANO – Eu estou-me
nas tintas para isso... Sendo português, quando faço música, faço-o em
inglês...

P.A.M. – Qual é o problema? É o
que quase toda a gente faz...
J.P.F. – Ainda bem que não tem
problema nenhum. Não sinto a mínima necessidade de cantar em português.
A.L.C. – É preciso voltar a essa
questão essencial que é a da língua. Voltar ao inglês para assumirem o rock,
para mim, é o grande perigo, o grande erro e tem a ver com os Resistência. Ao
mesmo tempo que os Resistência conseguem levar as palavras às pessoas, criam
uma reação de negação dessa palavra, de negação desse tipo de música...
P.A.M. – Mas junto de quem?
A.L.C. – Junto das novas gerações.
Tu vês as novas bandas rock e não há nenhuma a cantar em português.
P.A.M. – Ai é?
A.L.C. – Pois, tu está fora...
CARLOS MARIA TRINDADE – Não é um
conflito de gerações mas de estilos.

P.A.M. – Essa responsabilização é
abusiva...
A.L.C. – É evidente que não posso
responsabilizar os Resistência a cem por cento. Mas que têm a sua quota-parte,
sobretudo por causa do seu peso mediático, lá isso têm.
Quanto à questão de, em Portugal,
poder haver música para as maiorias e música para as minorias, é uma questão de
indústria. O mercado português é pequeno, as editoras já se veem “aos
arranhões” para vender o “middle of the road”, quanto mais pensar em termos de
música alternativa. Acaba-se sempre por cair nas pequenas editoras, com pouco
dinheiro, com gravações mais ou menos artesanais, mais ou menos caseiras, mais
ou menos mal gravadas, relativamente aos modelos comparativos que passam
massificadamente na rádio.
SÉRGIO GODINHO – Olha que os
Nirvana não têm o som mais “clean “ do mundo...
A.L.C. – Mas está muito bem
produzido, eu não estou a falar de “clean”.
J.P.F. – Nunca esse foi um
problema para mim, faço música em casa e gravo sem gastar dinheiro nenhum...
S.G. – Mas tem bem aquele som que
vem do pequeno estúdio...
J.P.F. – Isso não é um problema.
J.M.B. – Como a humanidade não é
estúpida, as multinacionais do som estão a começar a ter que dar resposta a
essa insuportabilidade do vazio que a massificação criou. Quando se fala em
vazio cultural, não é só o “eu não sei o que hei-de dizer às pessoas”. Além
disso, é o “eu não li nem ouvi os antigos, não sou culto, não tenho
referências”. E quantas vezes nós assistimos a malta mais nova do que nós que
descobre a passagem do lá maior para o ré menor e depois para o dó e depois o
sol e o mi sétima e depois o lá, e acha que descobriu a pólvora. E é legítimo,
porque ele descobriu aquilo naquela altura.
Era importante esses grupos que
passaram pelo Rock Rendez-Vous ouvirem Mahler. Não quer dizer que eu seja
elitista e diga “os meninos precisavam de saber isto”, ou paternalista, se
quiserem. Não é isso. É que faz-vos falta filhos. A cultura universal só o é
numa coisa: nos destinatários. A origem da cultura nunca é universal, porque é
aqui dentro. É o meu sofrimento de criador. É o meu confronto com o vazio e
isso não é nada universal. Quando estou a criar, estou absolutamente sozinho,
pendurado no vazio com o abismo à minha frente. É como quando entramos em palco
e olhamos para o buraco escuro do outro lado.
Há uma coisa que pode ser
limitativa na conversa. O caso do grupo Resistência, sobre o qual tenho opinião
formada; mas o facto de eu achar que o disco deles é mau – assim como já disse
ao Pedro que acho muito boa a experiência dos Madredeus – não quero que isto
seja interpretado como eu dizer “mais valia não ter havido Resistência”. Não é.
Acho muito bem. É errado pôr os Resistência no centro da conversa: “Isto está
agora a dar, vamos ver se é bom.” O que está a dar não é os Resistência, é a
análise do movimento todo. Alguém aqui falou em outras coisas que aconteceram
na música portuguesa? Coisas importantes. O disco do Vitorino não é importante?
O disco da Amélia Muge não é importante? Porque é que de repente se fala nos
Resistência? Porque foi mais vendido, porque foi mais falado, porque foi agora
a jogada das guitarras acústicas. Jogada de quê pá? É gira, malta porreira, boa
ideia, mas já foi feita milhões de vezes por milhões de pessoas. Isso não é
jogada nenhuma. A cultura não se faz com jogadas, nem com negócios. A cultura é
o que fica depois disso tudo: é o sarro do capitalismo.
J.P.F. – Não tenho mais nada a
dizer depois do que ele disse. Isso só confirma que não conflito de gerações
nenhum.
Multinacionais e independentes
P. – A música é hoje em dia
inseparável da imagem. Mas os artistas portugueses estão de um modo geral
habituados a pensar ainda e apenas em termos de som. Como é que encaram esse
que é um dos grandes desafios para a música portuguesa dos anos 90?
C.M.T. – A música hoje em dia não
existe em si. É uma entidade abstrata, que me dá gozo pessoalmente e na qual
acredito, mas que não existe sozinha, como existia nos anos 60, em que as
pessoas ouviam de olhos fechados o som. Hoje em dia veem de olhos abertos a
imagem. O som é um subproduto.
J.P.F. – Mas eu vou ouvir o John
Cage e não preciso de telediscos para nada.
C.M.T. – Mas estás-me a falar de
um exemplo que é pouco representativo para a indústria nacional.
J.P.F. – Mas nós não estamos a
falar de indústria, estamos a falar de música. A indústria é outra coisa.
C.M.T. – Nós estamos a falar de
coisas de peso. As coisas que não têm peso hoje e vão ter amanhã só se veem
depois, neste momento nem sequer se sabe que existem e se calhar elas já aí
estão. Por isso vamos deixá-las. A nível do vértice “media”-imagem-som, digo
que se não evoluirmos a par e passo, nunca conseguiremos exportar música
portuguesa, por muito boa que a façamos. E eu tenho a ideia que neste momento Portugal
é, na Europa, um dos países que mais mexem a nível criativo, porque a Europa
está numa crise de valores e Portugal ainda não se esgotou, pois esteve
protegido por um isolamento protecionista, mas que pode funcionar a nosso
favor. Portanto nos próximos anos devemos batalhar...
P. – O problema da afetação da
música pela promoção vídeo traz implícito o da dualidade
criatividade/indústria. Como é que este eterno problema se coloca hoje para a
música portuguesa às portas do século XXI, quando as independentes de rock
começam a dar os primeiros passos?
C.M.T. – Eu, que estou na esquina
do criatividade com a indústria, sei que não é possível. Não é possível a
harmonização entre a arte e o comércio. Não existe isso. Há um conflito
constante.
J.P.F. – Não é possível a
harmonização. O que é fundamental é que as coisas se distingam umas das outras.
Enquanto se confundir a criação com a indústria, o estado das coisas vai
continuar o mesmo. São duas coisas ligadas entre si, porque as coisas estão
inter-relacionadas. A música existe inter-relacionada com a indústria, assim
como a indústria está inter-relacionada com a fotografia e a fotografia com a
publicidade e a publicidade com o Omo e o Omo com a roupa, e a roupa com a
máquina de lavar e a máquina de lavar com a indústria da tecnologia.
Agora que não haja confusões:
música é música, ou arte ou criação, e a indústria é outra coisa que pega nesse
produto e através de um sistema, que está mais ou menos bem organizado, o
comercializa, o vende, o faz chegar a outras pessoas. Mas quando o criador está
a pensar nos números das vendas, aí podem-se pôr problemas complicados no ato
criativo.
C.M.T. – Isso só acontece a partir
de um certo estado de veterania, não compreendo que um adolescente pense nisso.
S.G. – Um adolescente pensa mesmo
isso.
J.P.F. – Se calhar até é
fundamental que se pense nisso, porque o que é importante é que se pense e se
tenha consciência desse dado. Ali estão as pessoas que compram, aqui está a
máquina que vende e aqui estou eu, e estou sozinho. E agora vamos lá ver o que
é que quero fazer.
C.M.T. – Mas aí chegamos ao tal
conceito de editora independente, que é a pequena editora que percebe o ato
criativo e o desenvolve, trata-o e fá-lo chegar ao público mais adequado ao
tipo de música que existe e ao tipo de energia que essa música vai transmitir
às pessoas. É isso que não existe em Portugal.
J.P.F. – Mas isso tem a ver com o
estarmos num estado...
C.M.T. – ... De pré-história...
J.P.F. – ... De pré-história,
claro. Mas já existem algumas. Neste momento, existem cinco, dez editoras
independentes...
C.M.T. – Já existiram mais.
J.P.F. – A determinada altura, nos
Estados Unidos ou na Alemanha, que são dois países que têm um movimento de
edição independente bastante forte, também só existiam cinco ou dez, agora
existem muitas mais. Algumas até já estão a fechar. Portanto nós se calhar
vamos lá chegar...
J.M.B. – Ser editora marginal em
Inglaterra é possivelmente ser maior que a Polygram portuguesa ou a Valentim de
Carvalho. É preciso uma dose mínima de oxigénio económico para poder ser
marginal. Num mercado pequenino onde se vendem poucos discos, onde a esperança
de venda não atinge o “break-even” que rentabilize os custos fixos à partida,
tu não consegues sequer ser marginal. A única hipótese – e foi este o
raciocínio que me levou a tomar determinadas iniciativas, na cooperativa de que
faço parte, a UPAV – é alargar esse espaço. Para aparecerem só coisas de que eu
gosto? Não, para aparecer de tudo.
C.M.T. – Só temos que fazer uma
coisa: obrigar os A&R e os responsáveis dos outros países a virarem o
pescoço para aqui, coisa a que eles não estão habituados. O olhar deles para
possivelmente em Espanha. Eles não sabem o que se passa aqui.
J.P.F. – Nem querem saber.
C.M.T. – Se queres saber, neste
momento, em Londres, fala-se da dinâmica do meio musical português. No meio,
não no público. É um princípio.
J.P.F. – Mas depois chegam cá e
apanham com coisas que depois dizem: “Nós temos lá disso, mas muito melhor”, e
vão-se embora outra vez.
O que faz falta
P. – É curioso que as
independentes se comecem a mexer, em Portugal, numa altura em que nomeadamente
em Inglaterra estão todas a fechar portas...
C.M.T. – Para abrir independentes,
ainda não estão criadas algumas alíneas: atrair investidores de outros meios –
foi o que o futebol fez. Qualquer orçamento cada vez é mais alto: se eu gravava
discos há dois anos com dois mil contos, agora gravo com quatro ou cinco e
ainda preciso de mais três mil para o vídeo, preciso de mais não sei quanto
para uma capa e o “poster” e mais não sei o quê para a política de “marketing”.
Nesse aspeto, quanto ao meu esforço na Polygram, eu costumo dizer que sou um
“free lancer” numa multinacional e tenho profundas dissidências com a companhia
em que me insiro, mas tenho uma visão pessoal que tenho de adaptar à política
da empresa e aos meus patrões estrangeiros que são os que me chateiam mais –
portanto eu tenho que ser frio por um lado e tenho de ter entusiasmo por outro.
Isto é uma ginástica impressionante.
Se eu estivesse numa independente,
poderia ter mais liberdade e escolher estilos. Mas, para funcionar, trataria de
estabelecer um “target” anual, porque se não seria a falência – é facílimo ir à
falência num ano. Aliás, o Pedro Ayres tem uma boa experiência disso na
Fundação Atlântica. Podes dizer qual foi o grande problema: é que nos primeiros
doze meses a Fundação não produziu um “hit” de vendas.
P.A.M. – A independente esbarrou
nesta questão. “Temos aqui esta música ou este grupo que nunca tinha gravado
antes. Toma!” Então dás ao vendedor da grande distribuidora e o gajo vende à
comissão e tem um ordenado fixo. A loja só quer comprar êxitos, porque não quer
ficar com monos. E então eles dizem: “Por cada mono que eu deixo numa loja, eu
levo dez novos lançamentos bem sucedidos, para recuperar o meu prestígio.”
Há tempos tive ocasião de estar
com os maiores distribuidores e vendedores de discos, e perguntei, por
curiosidade: “Vocês estão organizados, têm números comuns? Têm dados para mim,
que sou músico?” “Não. Eu não vou falar com aquele outro vendedor porque o gajo
lixa-me, e se aqui se fala, gera-se uma conspiração.” Eles não falam uns com os
outros, portanto não há dados sobre a venda dos discos, e tu, sentado numa
independente, vais escolher o azul ou o amarelo com que critério? Ou então
vendes sempre pelo correio. Que é o que sobra aos portugas...
ANTÓNIO MANUEL RIBEIRO – Eu não
acredito na indústria, ela não existe. Nomeadamente a década de 80, que eu
atravessei, foi extremamente importante para nós músicos. Melhoraram os
estúdios, melhoraram as empresas de som, melhorámos nós em cima do palco, mas
quase mais nada mudou à nossa volta. E com um grave problema: o disco não faz
parte dos costumes do português. O miúdo de 15/16 anos, que recebe dinheiro do
pai, durante um mês seleciona o que pode comprar e se calhar pode comprar só um
disco. Será que o tipo vai comprar o disco dos UHF, se saiu o dos U2 que ele
estava à espera há três anos? O mercado do disco português será o quê? O Carlos
Maria sabe isso muito melhor que eu. Cinco mil? Seis mil? Sete mil unidades
vendidas por disco? Talvez nem dez mil, que já é prata...
C.M.T. – Sim, uma prata hoje já é
uma boa meta. Boa entre aspas.
S.G. – Nos Estados Unidos nem
imprimem.
A.M.R. – Isso estrangula a
indústria. Porque um artista que vende dois, três mil discos não é independente
financeiramente para prosseguir a sua obra – isso é que é o grave problema da
nossa indústria. Nós estamos a ver uma série de casas multinacionais, que estão
cá como meros escritórios de representação, porque vão todos prestar contas a
Madrid.
P.A.M. – Tudo o que fica são casos
isolados. É uma história de gajos teimosos.

Tocar onde?
P. – Um dos grandes problemas com
que se debatem esses “gajos teimosos” que fazem música em Portugal é o circuito
de salas de concertos, sobretudo ao nível da província. Qual é o ponto da
situação da música ao vivo no nosso país, em 1993?
P.A.M. – Há falta de consumo
cultural, ou de exposição do que nós temos no nosso país, e que a meu ver é uma
coisa dramática. Diz o Governo: “Nós vamos fazer uma política cultural com tal
violência que vamos encher o país de teatros.” Isto é falso. Quando andei na
digressão com os Madredeus em Portugal, há dois anos, andei a abrir teatros que
estavam fechados. Mas teatros das capitais de distrito. Cheguei a esta
conclusão: os nossos compatriotas não têm necessidade nem o gosto de receber
formas de cultura, de entretenimento, universais, que é o que fazem os nossos
vizinhos europeus. Eles têm o orgulho de convidar ora o português, ora o
chinês. Têm um programa. O diretor do teatro diz: “Vejam bem, este ano tenho um
programa do caraças.” E vai lá toda a gente ver, porque está curiosa e porque
gosta de se entreter com aquilo.

S.G. – Acho que se deviam criar os
equipamentos, em cada capital de distrito – no mínimo –, salas médias e bem
equipadas que deveriam ficar à disposição, não à nossa, à das populações. Mesmo
em Lisboa é absolutamente incrível, para alguém que venha de fora, dizer-se o
que é que se está a passar. Se fores ao Rio de Janeiro, há o Canecão, há o
Scala, tens sítios mais alternativos, e não é uma grande cidade, eles dizem que
é um deserto comparado com São Paulo. O que acontece em Lisboa é que não há
temporadas, que é uma coisa que não passa pela cabeça de ninguém...
J.M.B. – É a única capital
europeia que não tem “music-hall” permanente. Até o Liechtenstein...
S.G. – Não há uma programação
durante todo o ano de onde estão a atuar os Madredeus, os Resistência
(risos...). Voltando às cidades de província, então o deserto é ainda maior e,
não ficando só pela música, isso acontece também por exemplo na distribuição do
cinema.
P.A.M. – Porque é que os gajos não
se batem por ter um teatro?

S.G. – Claro, uma coisa é
baterem-se localmente e muitas vezes há reconversões de teatros. Mas era
necessário que houvesse salas médias bem equipadas, um auditório que estivesse
à disposição não só da música, mas até de outras artes, e, mesmo dentro da música,
de vários estilos...
Da mesma maneira em relação às
editoras, uma das razões por que eu saí amigavelmente da Polygram foi por não
haver uma rede de distribuição. Quando eu fui fazer a “tournée” “Na Vida Real”,
não havia o meu disco no Porto! A situação não melhorou muito, na EMI, onde
estou agora: fui fora de época fazer o “Escritor de Canções” no Porto e foi-me
dito que os donos das lojas de discos só estavam interessados nas novidades. E
no entanto o Rivoli esteve mais que cheio.

Vícios de comunicação
P. – Hoje em dia, em Portugal, há
mais estações de televisão e programas musicais, mais rádios locais, e a
imprensa musical escrita tem vindo também a crescer. Será um fator positivo
para a música portuguesa este progresso da sua cobertura mediática?
J.M.B. – A comunicação começa aqui
à volta desta mesa, com três senhores que escrevem todas as semanas, com os
programadores de rádio e televisão e com quem decide quem vai ouvir o quê. E
vou formular uma opinião fazendo uma pergunta: porque é que o suplemento do
PÚBLICO se chama PopRock? Porque é que noventa e tal por cento dos discos de
música ligeira citados no “Expresso” pelo João Lisboa e pelo Ricardo Saló são
de pop-rock anglo-saxónica? Há também que fazer uma educação dos comunicadores?
Será que os comunicadores também têm a tal falta de referências, a tal falta de
largueza de horizontes, a tal falta de cultura de que se falou há bocado?

S.G. – Não é tão maniqueísta...
J.P.F. – Não é um problema de
maniqueísmo. É um problema de formação. Assim como o problema se põe ao nível
do público, também se põe ao nível dos músicos e ao nível dos comunicadores. Eu
não tenho dúvida que em Portugal faltam comunicadores – jornalistas,
programadores de rádio e televisão, etc. – com bagagem. Não há muitas pessoas
que saibam profundamente sobre aquilo que estão a falar. Posso falar de uma
experiência editorial recente que eu tenho (Moneyland Records). A gente põe cá
fora um objeto e as pessoas, não é que tenham dito mal ou bem, mas não sabem
pegar naquilo. Pegam naquilo de uma maneira desajeitada.
S.G. – O que eu penso é que houve
uma geração – aí é que eu acho que é um problema de geração – de críticos e
divulgadores que era informada, mas que começou a estabelecer uma reação de
cansaço e a tomar a novidade pela novidade, fazendo tábua rasa do que está para
trás. Isso aconteceu com uma certa geração de jornalistas e de críticos. A que
se sucedeu – com muitas honrosas exceções – é mais ignorante, porque bebeu
desses. E é uma pedagogia que se vai repercutindo. O que é certo é que há falta
de memória ativa...
P.A.M. – Partilho da ideia que há
duas gerações de comunicadores. Quando comecei, no fim dos anos 70, a querer
divulgar música minha, encontrei nas estações de rádio e nos jornais – na
televisão não havia nada – pessoas muito bem formadas, mesmo que fosse sobre os
anos 60, “after-hippies”, já uns “freaks” muito retintos e tal, mas tinham
aquele ideal de que também eles eram parte de um movimento comunitário que
partilhava ideias e filosofias.
Hoje em dia, o mais importante do
trabalho dos jornais funciona para com os vizinhos comunicadores das cadeias de
televisão e estações de rádio. Este, para mim, é o fator mais importante do
estado de divórcio a que nós chegámos entre o trabalho da comunicação social e
o grau de atividade que nós artistas temos de manter para continuarmos a
gravar, tocar e permanecermos no ativo.